“Quando há em um Estado uma constituição qualquer, o poder se mantêm pela violência, poder que pode ser monopolizado por alguns homens, por meios diferentes. De qualquer forma, sempre haverá probabilidade de ocorrer os mesmos acontecimentos que agora ocorrem na Rússia – a guerra e a repressão dos revoltosos.”
Trecho de Leon Tolstoi em ‘Anarquismo e Cristianismo’.

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Daniel desempenhou um importante papel na política Babilônica. Fora levado para uma terra desconhecida, por um povo que atacou a sua nação, levou cativo os seus conterrâneos e continuaria por anos oprimindo a sua nação. Mas a Graça manifestou de forma surpreendente, que Daniel nunca causou mal àquele povo que facilmente poderíamos considerá-lo como infiel.
Na verdade só por isto mostra o quanto que Daniel compreendia o conceito de graça e misericórdia de Deus. Em uma sociedade cristã como a de hoje, em que mergulhamos em dicotomias, como lidaríamos com um povo que invade nossas terra e leva a população cativa e a escraviza? Facilmente consigo imaginar discursos com apelos religiosos, alegando que Deus vai trazer a sua Justiça e vai cortar a cabeça da serpente ou coisa do tipo.
Porém o que mais me surpreende na postura de Daniel, é o seu posicionamento diante legalistas que legislavam contra ele. O livro do profeta, relata algumas leis eram feitas para incriminar e perseguir especificamente Daniel e seus companheiros, não se relata que era para benefício da sociedade, mas sim perseguição política de uma classe de aristocratas querendo eliminar Daniel e companheiros.
Mas mesmo assim, Daniel em nenhum momento legislou contra os seus oponentes e nem mesmo para defender seu grupo de afinidade, no caso, os judeus perseguidos e cativos. Também nunca precisou elaborar leis que restringisse os atos pecaminosos daquele povo, que não eram poucos. Ele entendia o conceito coercitivo do governo, assim como Tolstói, na obra citada acima, aborda sobre o posicionamento do cristão diante o Estado:
“O cristão rechaça a lei do Estado porque não tem necessidade dela nem para ele nem para os demais, posto que julga a vida humana mais garantida pela lei do amor que professa, que pela lei sustentada pela violência.
Para o cristão que conhece as necessidades da lei do amor, as necessidades da lei da violência não somente não podem ser-lhe obrigatórias, como se apresentam diante dele como erros que devem ser denunciados e destruídos.
A essência do cristianismo é o cumprimento da vontade de Deus que não pode ser possível pela atividade exterior que consiste em estabelecer e aplicar formas exteriores de vida, a vontade de Deus é apenas possível pela atividade interior, pela mudança da consciência, e consequente melhora da vida humana. A liberdade é a condição necessária da vida cristã. A profissão do cristianismo livra o homem de todo poder exterior, e ao mesmo tempo lhe dá a possibilidade de esperar o melhoramento da vida que busca em vão pela mudança das formas exteriores da vida.
Os homens acham que sua situação melhora graças às mudanças das formas exteriores da vida, e, sem embargo essas mudanças nem sempre resultam em uma modificação da consciência.
Todas as mudanças exteriores das formas que não são consequência de uma modificação da consciência, não somente não melhoram a condição dos homens, como com frequência a agravam. Não são os decretos do governo que tem abolido a matança de crianças, as torturas, a escravidão, é a evolução da consciência humana que tem provocado a necessidade destes decretos; e a vida não melhora em passo mais rápido do que o passo do movimento da consciência, ou seja, a vida melhora na medida em que a lei do amor ocupa na consciência do homem o lugar antes ocupado pela lei da violência.”
Aliás, vale frisar este discurso moralista dos conservadores de serem os reguladores, ou como eles colocam, aqueles que preservam a moral da sociedade, em nada combina com o Daniel bíblico. O profeta em nada fez para legislar leis cujo o intuito era aplicar a força estatal os seus valores religiosos sobre um povo que ele não seguia tais valores.
O objetivo do Daniel era específico e assertivo, ele apenas deu testemunho e ganhou a alma do rei Dario. Seus atos eram para o benefício do povo babilônico, ele era conhecido por sua sabedoria e justiça, a ponto dos reinados passarem, três reis reinaram sobre Babilônia na época de Daniel, mas o profeta permanecia firme, e era bem visto por todos.
Os atos de Daniel foram tão marcantes que a própria bíblia relata o quanto que o rei ficou tocado com a postura de Daniel e sua fidelidade a Deus, a ponto do próprio Deus o guardar:
“Então o rei Dario escreveu a todos os povos, nações e línguas que moram em toda a terra: A paz vos seja multiplicada. Da minha parte é feito um decreto, pelo qual em todo o domínio do meu reino os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel; porque ele é o Deus vivo e que permanece para sempre, e o seu reino não se pode destruir, e o seu domínio durará até o fim. Ele salva, livra, e opera sinais e maravilhas no céu e na terra; ele salvou e livrou Daniel do poder dos leões. Este Daniel, pois, prosperou no reinado de Dario, e no reinado de Ciro, o persa.” Daniel 6:25-28
Com isso analiso o nosso comportamento. Tão ávidos a regular a posição do outro. Em embutir nossos conceitos morais aos demais. Ao mesmo tempo tão deficientes de Graça e testemunho. Tão fracos em nosso posicionamento, mas forte em exigir dos outros.

Em seu nome lançamos pedras

Publicado: 28 de dezembro de 2016 em Cristianismo
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“Nesse sentido, devemos concordar com a visão do cristianismo e de outras religiões de que Deus é “bom”. Mas não vamos apressar o andar da carruagem. A Lei Moral não embasa a ideia de que Deus é “bom” no sentido de indulgente, suave ou condescendente. Não há nada de indulgente na Lei Moral. Ela é dura como um osso. Exorta-nos a fazer a coisa certa e parece não se importar com o quanto esta ação pode ser dolorosa, perigosa ou difícil. Se Deus é como a Lei Moral, ele não tem nada de suave. De nada adianta, a esta altura, dizer que um Deus ‘bom’ é um Deus que perdoa.”
Trecho de C. S. Lewis em ‘Cristianismo Puro e Simples’.
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Tenho refletido sobre a postura simplista de alguns religiosos de como tratam uma vida cristã. E fazendo uma analogia moderna penso em algo assim:

“Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não construímos templos em todos os lugares? em seu nome não compramos emissoras de televisão e rádio para levar nossa instituição aos quatro cantos? não legislamos as leis conforme as suas doutrinas? não sujeitamos o povo aos seus preceitos, mesmos os que não são seus seguidores? em seu nome não atacamos infiéis? não fomos nós que expulsamos de nossos templos aqueles que discordam de nós, e não fizemos ostracismo com eles? em seu nome não compramos bens e gozamos do luxo para mostrar uma recompensa espiritual? não foi em seus nome que capitamos muitos recursos para acumular em nossas instituições ou em nossas contas bancárias? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade.”
Poderia ser Mateus 7:22,23, se Jesus estivesse falando do povo hoje. Mas em Mateus 7 Jesus fala de um confronto a religiosos com coisas que eles fizeram boas, mas provavelmente com intenções erradas. Hoje vemos instituições totalmente perdidas, voltadas para si, e que ainda muitas coisas ruins são feitas, com as intenções mais torpes ainda.
Há uma falta de compreensão sobre o ministério de Jesus, e inclusive os mandamentos que ele deixou para nós. Amor. Em trecho de ‘Evangelho do Maltrapilho’, Brennan Manning, nos deixa claro sobre estas questões, e a quem Jesus considera próximo:
“Jesus, que perdoou os pecados do paralítico, reivindicando dessa forma autoridade divina, anuncia que convidou pecadores, e não os de justiça-própria, para sua mesa. O verbo grego usado aqui, kalein, tem o sentido de chamar um convidado honrado para jantar.
Jesus afirma, com efeito, que o Reino de seu Pai não é uma subdivisão para os justos nem para os que sentem possuir o segredo de Estado da salvação. O Reino não é um condomínio fechado elegante com regras esnobes a respeito de quem pode viver ali dentro. Não; ele é para um elenco mais numeroso de pessoas, mais rústico e menos exigente, que compreendem que são pecadores porque já experimentaram o efeito nauseante da luta moral.
São esses os pecadores-convidados chamados por Jesus para se aproximarem com ele ao redor da mesa de banquete. Essa história permanece perturbadora para aqueles que não compreendem que homens e mulheres que são verdadeiramente preenchidos com a luz são aqueles que fitaram profundamente as trevas da sua existência imperfeita.”
Voltando a nossa analogia, caberia dizer: “em seu nome é a puta que pariu”? Mas ao refletir melhor, uma comparação seria uma ofensa a várias mulheres que sem condições acabam comercializando uma das únicas propriedades que possuem e que é de interesse de outros, o corpo. Mas mesmo o ato sendo feita por dois, somente ela é recriminada. Afinal não existe um adjetivo pejorativo para o cara que paga uma prostituta.
Ah! Por falar em prostituta, isso me lembrou da Madalena, aquela que Jesus a livrou da condenação dos religiosos que queriam uma sociedade sem impurezas, com apenas cidadãos de bem. Mas Jesus disse para os que não tiverem pecado, que atirassem pedra, e com este embate, constrangidos eles avaliaram que ninguém seria capaz.
Porém hoje as pedras são lançadas a todo tempo.

“Que pretende o sistema? Manter, acima de tudo, a feudalidade capitalista no gozo dos seus direitos; assegurar e aumentar a preponderância do capital sobre o trabalho; reforçar, se possível, a classe parasita, proporcionando-lhe em toda a parte, com a ajuda dos cargos públicos, criaturas segundo as necessidades de recrutamento; reconstituir pouco a pouco e enobrecer a grande propriedade.”
Pierre-Joseph Proudhon

estado

Tem algum tempo que questionamos algumas incoerências daqueles que fazem culto ao Capital. Já abordamos que em um modelo sem intervenção estatal a economia tende a favorecer o monopólio, ao contrário que alguns ultraliberais dizem . Também que não existe Estado menos intervencionista e mais intervencionista. E também como o Anarquismo lida com as questões da Propriedade. Logo, percebe que já tratamos de alguns assuntos a respeito e já dá para ter ideia sobre a posição anarquista sobre estas questões.

O feudalismo fora um sistema firmado na Propriedade Privada, com a necessidade de maior segurança, na economia ainda predominava a agricultura e do trabalho servil. Para melhor exploração dos recursos, os proprietários, chamados de suseranos, concediam terras aos seus vassalos, que prestava serviços e fidelidade ao seu suserano. Já o suserano, era responsável pela proteção das terras, que claro, eram suas. Os proprietários exerciam o papel do Estado, cabiam a eles o papel de todos os poderes: econômico, jurídico, político.

Analisada a estrutura de uma sociedade feudal, podemos agora nos ater ao tema em si: anarcocapitalismo. Os anarcocapitalistas defendem a eliminação completa do Estado, para que a sociedade se organize através da propriedade privada. Sendo assim toda a relação humana, produção, trabalho, regulamentação, tudo seria pautado no direito natural, e fortemente estruturado através pela propriedade.

Ou seja, os anarcocapitalistas não lutam pelo fim do Estado, lutam para o estabelecimento de um novo Estado, firmado na Propriedade Privada. E claro que há como recriar Estado em um ambiente onde outrora um Estado havia deturpado, como previsto por Malatesta. Basta analisar as condições:

“A propriedade individual e o poder político são dois elos de uma mesma corrente que esmaga a humanidade; são como dois fios da lâmina do punhal de um assassino. É impossível libertar-se de um se não se liberta também do outro. Se abolirem a propriedade individual sem abolir o Estado, ao que ela se reconstituirá graças aos governos. Se abolirem o governo sem abolir a propriedade individual, os proprietários reconstituirão o governo.”
Por Errico Malatesta em ‘O Estado Socialista’

Derrubaram o Estado e um latifundiário que possua um grande território em terra chega a conclusão que a terra por si só não produz nada, então ter um pouco de terra ou ter muita terra não faz muita diferença. Este era exatamente o dilema dos suseranos.

Mas com muita terra pode se beneficiar com isso. Então deixa aberto a pessoas irem trabalhar na propriedade para que possam se sustentar. Pode chama-los de vassalos, se assim desejar. Ou se quiser algo mais politicamente correto, inquilinos, colaboradores, ou arrendatários.

Claro que é necessário estabelecer regras para que estas pessoas possam permanecer na propriedade de forma organizada. Então o proprietário, ou o suserano, cria leis. Nada mais legítimo do que ele criar as leis, já que é o dono, é ele quem dita as regras da propriedade. Usei a palavra “ditar”, pois ela é fundamental para esta percepção.

Nestas regras leis também algumas taxas a se cobrar do povo que vai produzir na propriedade. Afinal, a propriedade não lhes pertence, há uma concessão, logo nada mais belo e moral cobrar por isso, já que o povo está se beneficiando dela. Não existe filantropia, nem feudo grátis.

Mas e se as pessoas obedecerem as regras estabelecidas pelo suserano, como ele as fará valer? Ah sim, formar uma escolta. Contrata pessoas brutas que não querem trabalhar na propriedade em si, mas podem trabalhar diretamente para o suserano, fazendo as com que o povo siga as regras.

Pronto! Aí está o feudo, ops! O ancapistão. A necessidade de muros cercando fica a critério de cada proprietário. Pode tratar como algo mais decorativo.

Chegamos a conclusão que o que chamam de anarcocapitalismo é apenas a perpetuação do privilégio. Uma desculpa como muito bem descrito por Kevin Carson em ‘Estudos em Economia Política Mutualista’:

“Aparentemente, a receita para um “livre mercado”, da forma em que o libertário vulgar médio usa o termo, é como se segue: 1) primeiro roube a terra das classes produtivas por decreto estatal e as transforme em trabalhadores assalariados; 2) aí, através de terrorismo estatal, impeça-os de se movimentar em buscar de salários mais altos ou de se organizar para aumentar sua força de barganha; 3) finalmente, convença-os de que seus salários de subsistência refletem a produtividade marginal do trabalho em um “livre-mercado”.”

Este discurso visa exclusivamente para manter a classe trabalhadora submissa aos proprietários.

“O livre comércio, isto é, o livre monopólio, é a santa aliança dos grandes feudatários do capital e da indústria, a argamassa monstra que deve terminar em cada ponto do globo a obra começada pela divisão do trabalho, pelas máquinas, pela concorrência, pelo monopólio e pela política econômica; esmagar a pequena indústria e submeter definitivamente o proletariado. É a centralização em toda face da terra desse regime de espoliação e de miséria, produto espontâneo de uma civilização que começa, mas que deve perecer logo que a civilização tiver adquirido consciência de suas leis; é a propriedade em sua força e sua glória. E é para introduzir o consumo desse sistema que tantos milhões de trabalhadores estão famintos, tantas criaturas inocentes ainda amamentando atiradas no nada, tantas jovens e mulheres prostituídas, tantas almas vendidas, tantos caracteres emurchecidos! Se ao menos os economistas soubessem de uma saída para esse labirinto, de um fim para essa tortura. Mas não, sempre! Nunca! Como o relógio dos condenados, é um refrão do apocalipse econômico. Oh! Se os condenados pudessem queimar o inferno!”

Trecho do livro:”Sistema das Contradições Econômicas ou Filosofia da Miséria” – Proudhon

anarquismo como combate ao capitalismo

Proudhon chamava este livre-mercado, ao que se referem os liberais, como livre-monopólio. Uma multinacional engoliria uma pequena empresa qualquer em um modelo de Capitalismo sem intervenção estatal. Digo sem intervenção estatal, pois é ilusão imaginar um mundo capitalista sem Estado, devido a questão do direito a propriedade, que necessita de um governo para existir. O que proponho é fazer um exercício de reflexão sobre o assunto.

Quem entende de economia e mercado sabe que um acumulador de bens possui vantagens que os demais não teriam. Tais vantagens eliminariam qualquer chance de concorrência, fazendo com que as menores concorrentes quebrassem ou fossem engolidas pelas maiores.

Uma empresa com uma produção maior compra insumos a preços mais baixos devido ao alto volume. Também devido ao mesmo volume, faz pressão no ponto de venda para posicionar a marca em locais estratégicos, garantindo mais visibilidade para os consumidores. Tem recursos para investir em melhores maquinários e em melhores mão-de-obra, o que aumenta a qualidade do produto. Tem condições para ter um grande sistema de distribuição abrangendo ainda mais a sua atuação geográfica, atingindo mercados diversos. Possui recursos para investir pesado em propaganda, o que favorece e muito nas vendas.

Vale ressaltar que por ter uma atuação em um âmbito geograficamente maior. Ela pode manter a sua indústria onde a mão-de-obra é ainda mais barata, ou qualquer outra vantagens. O que as pequenas concorrentes não podem, pois ficam presas as suas pequenas regiões de atuação. Quem sabe as grandes empresas, possam até regiões onde a fiscalização trabalhista não é tão efetiva, e poderia usar de mão-de-obra escrava.

Se ainda isso tudo não for suficiente, como se fosse pouco, ela pode reduzir os preços abaixo do valor de custo, que já é mais baixo, forçando todas as concorrentes a fazerem o mesmo. A questão é que a multinacional teria capital de reserva para manter-se por um bom tempo no prejuízo, enquanto as outras não.

Depois das concorrentes quebradas, o monopólio estabelecido. A tal multinacional poderia aumentar seus preços e colocar onde quisessem, já que ela controla o mercado. E caso surja novas concorrentes, basta repetir o processo.

Assim, chego a conclusão que mesmo sem um Estado intervencionista, se não houver oportunidades reais de concorrência, e isto inclui capital armazenado, não existe livre-mercado.

Então o que seria livre-mercado de fato. Proudhon jamais usara este termo, mas a sua proposta mutualista era um mercado e ele era livre, não só do governo, mas também dos acumuladores. E sobre isso, ele diz em um trecho de “O Que É Propriedade?”:

“Se os bens são propriedades, os proprietários são reis, e reis despósticos, reis em proporção de suas faculdades de ganância. E se cada proprietário é soberano na esfera de sua propriedade, rei inviolável em toda a extensão de seu domínio, como um governo de proprietários não seria um caos e uma confusão?”
Portanto, não há governo, não há economia pública, não há administração possível com a propriedade por base.
A comunidade procura a igualdade e a lei: a propriedade, fruto da autonomia da razão e do sentimento do mérito pessoal, almeja acima de tudo a independência e a proporcionalidade.
Mas a comunidade, tomando a uniformidade por lei e o nivelamento por igualdade, torna-se tirânica e injusta: a propriedade, por seu despotismo e suas invasões, não tarda a mostrar-se opressiva e insociável.
O que a comunidade e a propriedade querem é bom: o que produzem é mau. E por quê? Porque ambas são exclusivas e ignoram, cada uma por seu lado, dois elementos da sociedade. A comunidade rejeita a independência e a proporcionalidade; a propriedade não satisfaz a igualdade e a lei.
Ora, se concebemos uma sociedade fundada nos quatro princípios, igualdade, lei, independência, proporcionalidade, encontramos:
1.° – Que a igualdade, consistindo apenas na igualdade das condições, isto é, dos meios, e não na igualdade de bem-estar, a qual, com meios iguais, deve ser obra do trabalhador, não viola de nenhuma maneira a justiça e a equidade;
2° – Que a lei, resultando da ciência dos fatos, conseqüentemente apoiando-se na própria necessidade, não fere jamais a independência;
3.° – Que a independência respectiva dos indivíduos, ou autonomia da razão privada, derivando da diferença dos talentos e capacidades, pode existir sem perigo nos limites da lei;
4.° – Que a proporcionalidade, só admissível na esfera da inteligência e do sentimento, não na das coisas físicas, pode ser observada sem violar a justiça ou a igualdade social.
Essa terceira forma de sociedade, síntese da comunidade e da propriedade, nós a chamaremos LIBERDADE.
Para determinar a liberdade, não juntamos sem discernimento a comunidade e a propriedade, o que seria um ecletismo absurdo. Buscamos, graças a um método analítico, o que cada uma delas possui de verdadeiro, em conformidade com o anseio da natureza e as leis da sociabilidade, eliminando todos os seus elementos estranhos; e o resultado fornece uma expressão adequada à forma natural da sociedade humana, numa palavra, a liberdade.
A liberdade é igualdade, pois liberdade só existe no estado social e fora da igualdade não existe sociedade.
A liberdade é anarquia, pois não admite o governo da vontade, apenas a autoridade da lei, isto é, da necessidade.
A liberdade é variedade infinita, pois respeita todas as vontades nos limites da lei.
A liberdade é proporcionalidade, pois deixa um caminho aberto à ambição do mérito e à emulação da glória.”

Antes de concluir, precisamos reforçar que no mutualismo o trabalho assalariado não é encarado como troca voluntária, mas sim uma relação opressora entre empregador empregado, já que a troca voluntária seria uma relação entre os dois, mas o trabalho assalariado é uma hierarquização do empregador sobre o empregado.

Sendo assim, na proposta de Proudhon, ninguém poderia explorar do trabalho para enriquecimento. E um sujeito trabalhando sozinho não conseguiria enriquecer, e se trabalhasse cooperativado teria que repartir os ganhos.

Então chegamos a conclusão que liberdade é igualdade, anarquia, variedade infinita, e proporcionalidade. Entendemos que para ter um livre-mercado, é necessário se ater a estas características, no balanço entre comunidade e propriedade.

Logo, qualquer tipo de monopólio, acúmulo de bens, seria uma ameaça para a liberdade. Garantindo a liberdade do mercado com reais chances de concorrência entre os trabalhadores.

“Mas então uma dificuldade se apresenta inevitavelmente. Se é verdade que o governo é, necessariamente e sempre, o instrumento daqueles que possuem os meios de produção, por que milagre um governo socialista, nascido em pleno regime capitalista, poderá alcançar seu objetivo: abolir o capital? Será, como o querem Marx e os blanquistas, por meio de uma ditadura imposta revolucionariamente, por um golpe, e que decreta e impõe revolucionariamente o confisco das propriedades privadas em favor do Estado enquanto representante dos interesses coletivos? Ou será, como querem aparentemente todos os marxistas e a maioria dos blanquistas modernos, por meio de uma maioria socialista, enviada ao parlamento pelo sufrágio universal?

Proceder-se-á de uma só vez a expropriação da classe dominante pela classe economicamente subjugada? Ou se procederá gradualmente, obrigando os proprietários e os capitalistas a se deixarem privar pouco a pouco de todos os seus privilégios? Tudo isso parece estranhamente em contradição com a teoria no “materialismo histórico”, dogma fundamental para os marxistas. Não queremos aqui analisar estas contradições nem procurar saber o que pode haver de verdadeiro na doutrina do materialismo histórico.

Suponhamos, portanto, que o poder tenha, de um modo ou de outro, caído nas mãos dos socialistas e que um governo socialista tenha se constituído, e solidamente. Isto significaria que teria chegado a hora do triunfo do socialismo? Pensamos que não.

Se a instituição que é a propriedade individual está na origem de todos os males que conhecemos, não é porque tal ou qual terra traz este ou aquele nome em seus registros de propriedade; é porque esta inscrição dá, ao indivíduo em questão, o direito de usar a terra como bem lhe convém, e o uso que ele faz dela é ordinariamente mau, ou seja, traz prejuízo a seus semelhantes. Todas as religiões disseram, em sua origem, que a riqueza é um fardo que obriga aqueles que o possuem a zelar pelo bem-estar dos pobres e a ser, para eles, como um pai. E o direito civil precisa, desde sua origem, que o senhor da terra está sujeito a tantas obrigações cívicas que ele é mais o administrador dos bens no interesse público do que o proprietário no sentido moderno do termo. Mas o homem é feito de tal forma que, quando possui os meios de dominar e impor aos outros sua própria vontade, ele os usa e abusa até reduzir os outros indivíduos à escravidão e a um grau extremo de envilecimento. Foi o que aconteceu e acontecerá sempre com os governantes.”
Trecho de Errico Malatesta em ‘O Estado Socialista’

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Há dias muita discussão tem sido feita sobre a morte de Fidel. Parece que com ele o socialismo do estilo século XX foi morto. Até mesmo a Nova Esquerda prestou sua homenagem ao ditador, adotaram até mesmo o discurso do “fim justificam os mesmos”. Mas aí que quero chegar, que fim?

Ao contrário do que nós anarquistas fomos todos estes dias acusados, não queremos fazer coro com a direita. Mas também não vamos fingir que concordávamos com o regime de Cuba, as perseguições, exílios e execuções feitas por socialistas que não concordavam com o regime cubano, incluindo socialistas libertários, ou seja, nós anarquistas.

Apesar das discordâncias óbvias sobre as propostas e práticas, a Revolução de Cubana pode ter tido um papel importante na história, isto de certa forma é um fato. Mas agir como a esquerda age, de forma fundamentalista e dicotômica, negando o quanto que o povo cubano sofreu nestes anos, em prol de deificar um ídolo, é irresponsabilidade e infantilidade.

Mas convenhamos, estes comportamentos não são novidade para os socialistas autoritários. Afinal, defender a necessidade de uma ditadura; relativizar fracassos; justificar violações aos direitos humanos; apelo para militância armada; atribuir o papel de um salvador a um grupo ou indivíduo; acreditar em dados facilmente forjados que alegam que a sociedade é melhor neste modelo do que em outro; dicotomia ideológica a ponto de se achar melhor e mais correto que seus opositores; determinar prisões, exílios e execuções a indivíduos que se oponham aos seus ideais só confirmamos que marxistas e fascistas têm mais em comum do que imaginam.

É verdade que a ditadura cubana, assim como das demais ditaduras socialistas foram introduzidas de forma diferente das ditaduras daqui da América Latina, juntamente com as europeias nazistas e fascistas. De fato foram diferentes, nas ditaduras daqui houve uma aclamação popular pela moral, o qual abriu as portas para as Forças Armadas aplicarem o golpe militar, seguido por uma ditadura. Já em Cuba, grupos de guerrilhas civis travaram uma guerra contra uma já estabelecida ditadura e tomaram o poder, implantando outra.

Mas será que houve libertação do povo cubano? Discordo sobre a questão da libertação. Pois esta não houve, apenas trocaram os ditadores. Alguns podem dizer que Fulgêncio era pior do que Fidel, mas eu não opto pelo menos pior, ainda mais para mencionar a palavra “libertação”, já que este conceito não pode ser fracionado.

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Material gráfico nas ruas de Cuba, o qual mostra Raúl Castro e Barack Obama, com as respectivas bandeiras de Cuba e EUA, apresentando uma união.

E toda a conclusão se resume com o fim da história, que ainda não fora escrito, mas podemos ver alguns detalhes e supor o que ocorrerá a partir de então. Pois a pauta da esquerda sobre o assunto sempre foi ao estilo de que o “fim justifica os meios”, ou seja, no fim, Fidel iria cumprir o princípio comunista proposto na revolução. Porém não foi isso que ocorreu. Depois de cinco décadas de ditadura, as negociações com os EUA estão sendo retomadas, e agora com Cuba está se curvando novamente ao Imperialismo Yankee, e nada de comunismo. Muito pelo contrário, o povo cubano está sedento por consumir o capitalismo.

Cabe agora os anarquistas cubanos se posicionarem, como já se posicionaram nos anos anteriores, condenando os desmandos do governo castrista, como também a introdução do capitalismo yankee na ilha, inclusive incentivado agora pelo governo dito socialista.

“Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.
Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna.”
1 Timóteo 1:15-16
abismo
Em todo tempo luto contra a minha natureza pecaminosa, contra a minha vaidade, meu egoísmo, orgulho, meu hedonismo, e a lista se estende. Mas é só eu me descuidar um pouco que vacilo. Os vacilos são constantes na vida cristã, apesar de que vão diminuindo conforme o passar do tempo, quando começa a ter mais compreensão e entender que certos comportamentos não são satisfatórios para caminhada, que desagradam a Deus ou que não provém de um fruto de amor ao próximo.
O meu conforto é que este sentimento que sinto, também foi sentido por uma das maiores referências do cristianismo, o apóstolo Paulo, o qual relata em Romanos 7:18-19 que quando ele queria fazer bem, fazia o mal, e que sucumbia aos desejos dele, e ele coloca isso como um hábito constante. O mesmo Paulo confessa-se ao seu discípulo Timóteo como pecador, e se conforta que através dele se manifesta a Graça de Jesus para salvar pecadores como ele, como relata em 1 Timóteo 1:15-16. Aquele que segue a Jesus compreende a Graça e o amor de Deus e se vê como um pecador que é constantemente perdoado. Mas já o que segue a religião e não a Cristo, se vê como um santo defensor do moralismo.
Daí partimos para entender o motivo que os fariseus eram tão pouco tolerados por Cristo. Hoje vemos dentro dos modelos religiosos uma estrutura que não tolera o pecador. Onde todos expressam como santos, como puros. Muito semelhante aos fariseus na época de Cristo. Fortes padrões sociais são estabelecidos sobre os membros, estes não penalizados até excluídos da congregação devidos seus erros. Os erros da liderança são ocultados. Tudo com o objetivo de dar exemplo àqueles que querem seguir um carreirismo. Isso mesmo, se trata de uma instituição privada, como uma empresa, que existe uma carreira, onde são oferecidos os melhores cargos aqueles mais aptos.
É impressionante como isto se afasta da proposta de Deus em nossa vida, e nos faz ao invés de seguidores de Jesus, meros seguidores de Caifás, zelosos pelo tradicionalismo, pela moral, pela ortodoxia, porém tão intolerantes quanto o pecador, sem misericórdia, sem graça, sem amor. Na verdade, isto é uma luta constante. Se trata de um ideal, no sentido literal da Palavra, que devemos empregar focando em nossas vidas, não na de terceiros. É como se fosse um alvo, mas que não conseguimos cumprir mediante a nossa condição egoísta, mas que nos faz experimentar dia após dia a misericórdia de Deus. A todo cristão permanece a condição natural de hipócrita.
Sei que tal alegação pode chocar, mas irei me explicar como cheguei a tal conclusão. O cristão fala de um amor que não ama, professar um perdão que não sente, e vive em um código de conduta o qual não consegue seguir. Para alguns, esta hipocrisia é maior, quando usa desse código de conduta para taxar a vida de terceiros. A hipocrisia é como um abismo entre o ideal cristão e a prática cristã. A minha vida prática deixa muito a desejar, e quando almejo o ideal, vejo a diferença disso em um enorme abismo.
Quanto mais lido com este fato e encaro que sou dependente da Graça, menor fica o abismo. Quando o fruto da minha vontade é voltado para mim, estou declarando minha independência de Deus e de sua criação e decretando a minha autossuficiência. Mesmo que os instintos de sobrevivência, naturais ao homem, apesar dos tempos modernos, façam atitudes egocêntricas serem comuns, quando mortificamos a nossa carne, quando nos colocamos na cruz com Cristo, o processo é de abdicar destas vontades.
A Graça vem e nos inunda, nos fazendo compreender que a falta dela é que nos coloca em evidência e quando estamos firmados nela, entendemos que necessitamos de Deus, do seu amor. Ambientes sem a Graça, não há misericórdia, as pessoas são duras, muitas usam como justificativa porque os demais são duros com elas, e isto perpetua um ciclo social.Cabe ao cristão quebrar este ciclo, e oferecer o que lhe foi oferecido, que apesar de suas falhas, ele é aceito pelo Pai, e da mesma forma deve aceitar os outros. Precisamos ser menos intolerantes.

“Os parlamentos, fiéis à tradição real e à sua transfiguração moderna, o jacobinismo, não fizeram senão concentrar os poderes nas mãos do governo. Funcionarismo para tudo – tal é a característica do governo representativo. Desde o princípio deste século se fala em descentralização, autonomia, e não se faz senão centralizar, matar os últimos vestígios de autonomia. A própria Suíça sofreu essa influência, e na Inglaterra deu-se o mesmo. Sem a resistência dos industriais e dos comerciantes, estaríamos ainda hoje a pedir a Paris licença para matar um boi em Brives-Guillarde. Tudo cai pouco a pouco sob a alçada do governo. Só lhe falta já a gestão da indústria e do comércio, da produção e do consumo, e os democratas socialistas cegos pelos preconceitos autoritários sonham já com o dia em que poderão regular no parlamento de Berlim o trabalho das fábricas e o consumo em toda a Alemanha.”

Trecho de Piotr Kropotkin em ‘O Governo Representativo’.

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Depois da icônica eleição do Rio, a disputa de segundo turno entre Marcelo Crivella e Marcelo Freixo, o qual o primeiro ganhou, mesmo sendo atacado por grandes mídias burguesas como a Globo e a Veja. Temos que tirar algumas lições a respeito.

Já explicamos aqui como os anarquistas encaram o voto por exatamente entenderem que a democracia burguesa é posta pela aristocracia que estabelece as suas regras. E até mesmo como eles veem como inútil qualquer tipo de apoio estratégico ou indireto. Mas queremos tratar de um fato específico, fazendo uma análise sobre o assunto.

Antes mesmo do domingo de eleição para o 2° turno, dia 30 de outubro, os partidaristas da esquerda já começaram a acusar anarquistas, alegando que quem votasse nulo, estava votando no Crivella. É interessante como este discurso muda conforme a necessidade deles. Quantas vezes o PSOL já orientou que seus membros deveriam votar nulo? Ou seja, é a conveniência que faz a orientação do voto para quem objetiva apenas o poder.

Quem dera que 41,5% dos eleitores do Rio de Janeiro fossem anarquistas. Eu levaria esta responsabilidade com um largo sorriso no rosto. Seguido claro, de uma tática de criar uma região autônoma, emancipar uma federação dentro do próprio município, e barrar através e luta popular a ação do próprio Estado, milícia e crime organizado (muitas vezes encarados como sinônimos). Pois de fato mais de 2 milhões de pessoa é muita gente. Quem dera se os militantes da Comuna de Paris, da Revolução Espanhola e da Ucraniana, tivessem essa população.

Só por aí vemos o quanto são infantis estes militantes partidários com seus argumentos dignos do fundamentalismo religioso, fazendo o discurso dicotômico de “quem não está conosco está com eles”. Esta análise bem equivocada, que nem pode ser chamada de análise, é bem a cara dessa militância ‘lacradora’, das cirandas e ‘bundaços’.

Não queria jogar areia no ‘bundalelê’ dos partidaristas, mas um dos conselheiros políticos do Crivella, César Benjamin, era do PSOL. Então vamos encarar que os orientadores políticos do Crivella tinham uma base bem agradável para a classe trabalhadora, pelo menos em termos de discurso.

Isto mostra o quanto os militantes do PSOL são carentes de autocrítica. Eles atribuem a culpa nos pobres que são burros em votar no Crivella, e nos anarquistas que votaram nulo. E se negam em analisar que o problema pode estar no colo deles.

A verdade está mais perto do que parece.

As queixas dos eleitores do PSOL explicam bem o motivo de que Freixo não foi aclamado no Rio. Bastou o resultado das eleições declararem o Crivella como novo prefeito do Rio que os militantes do PSOL começaram a xingar os pobres por serem burros e votarem no Crivella.

Me desculpem dizer isso, mas pobres costumam não ter tempo de ir na palestra da sua universidade, nem em suas passeatas e atos em pleno horário comerciais, quando tentam se informar, acabam caindo sempre nas mídias vendidas dos aristocratas. Se não compreenderem isso, vocês só repetirão as idiotices ditas pelos emergentes paulistas, que condenam os nordestinos por serem burros e votarem no PT.

O pobre não é burro, ele sabe o que quer, tem real noção de seu cotidiano. A questão é que vocês estavam muito ocupados com os seus discursos academistas para estar ao lado deles nas suas necessidades, a ponto deles não se verem representados pela esquerda. O mesmo não pode ser dito pela Universal e outras instituições religiosas.

Desculpas sobre a milícia a parte, mas a realidade é que os militantes do PSOL sempre estiveram longe das comunidades. Pois se tivessem trabalhando com a comunidade de base, com projetos sociais relevantes para a mesma, é certo que eles sentiriam mais representados pelo partido. E esta análise não serve apenas aos social-democratas, serve também aos anarquistas. Temos que sair da academia e da internet, para começarmos a compor a base da sociedade, e como dito por Bakunin, começar o trabalho de baixo pra cima.

Fora que o êxito de Crivella se deve a outros fatores além da Universal, e incluímos a Record, tal como anos de política sendo feita na plataforma do próprio PT e PMDB. Inclusive o sociólogo Roberto Dutra, em entrevista ao El País, já declarou que o Crivella tem se afastado do discurso religioso, e sua identidade ligada a Universal, pois tem se sentido prejudicado, já que o povo faz esta associação. Mesmo que a Universal faça ‘curral eleitoral’ para o Crivella, publicamente o candidato tem tentado se afastar deste estereótipo.

A BBC também abordou sobre o tema, que o crescimento a Bancada Evangélica não é responsável pela vitória do Crivella. E inclusive ele não corresponderá ao discurso mais moderado, discordando do posicionamento conservador da Bancada Evangélica, como alguns discursos dicotômicos dos partidarista de esquerda alegam, quase que retratando um mundo após apocalíptico pautado no conservadorismo religioso.

E isso deve ser encarado como ponto relevante. O político fez uma campanha onde justificou seus equívocos religiosos do passado. Também  sempre usou argumentos populistas, enquanto Freixo estava mais preocupado em se mostrar como um candidato de esquerda não tão radical quanto seus opositores tentavam pintar. O que agrada mais a população trabalhadora, que se preocupa mais com temas como saúde, educação, e programas sociais.

Inclusive este pode ser um ponto relevante. Sei que é uma análise um tanto prematura, mas este discurso aguado do Freixo, além de preocupante, por mostrar nos fazer questionar o quanto o candidato é capaz de mudar seu discurso em prol da aceitação popular, pode ter sido significativo para pessoas que esperavam uma posição mais a esquerda não se sentirem representados por Freixo. Parece tom esclarecido e de certa forma sofista de Freixo nos debates, não serviu muito para o seu objetivo final.

1-e-2-turno-eleicoes-rio-2016-crivella-e-freixoVale ressaltar que regiões onde no primeiro turno das eleições votaram no Freixo, no segundo, preferiram o Crivella. Como mostra o gráfico ao lado, onde as regiões em azul favorecem ao Crivella e em roxo ao Freixo. O que ocorreu que fez estas pessoas mudarem de opinião? Ainda insisto que se deve ao discurso feito pelo Freixo tentando bancar o garoto moderado.

Talvez a social-democracia deva começar a ser encarada como um espectro da direita ao invés da esquerda, assim como foi o liberalismo que um dia fora considerado de esquerda, quando se opunha a monarquia, e passou a se compor como direita quando tentou se reafirmar como defensor dos direitos individuais. Mas isto é papo para outra hora.