O perigo de ícones políticos exaltados pelo moralismo religioso

Publicado: 19 de julho de 2016 por Plínio em Cristianismo, Política
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“E digo isto, para que ninguém vos engane com palavras persuasivas.
Porque, ainda que esteja ausente quanto ao corpo, contudo, em espírito estou convosco, regozijando-me e vendo a vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo.
Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele,
Arraigados e edificados nele, e confirmados na fé, assim como fostes ensinados, nela abundando em ação de graças.
Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo;”
Colossenses 2:4-8

moralismo-religioso-na-política

Tenho muito receio com a conjuntura atual, principalmente se referindo ao meio religioso cristão. Tenho visto congregações tomando partido em favor de grupos políticos, e inclusive usando o nome de Deus nisso.

Para selar a opinião política, se tem até profecias, e ‘moveres’, ambos totalmente duvidosos. Este clamor por uma, ordem social que venha destronar a atual, me lembra o Movimento Cristão Alemão, liderado por Ludwig Müller, e todo o Movimento Cristianismo Positivo, o qual apoiavam Hitler e o Nazismo. Lá o Terceiro Reich era considerado uma resposta de Deus para a nação. Correspondendo anseios morais de família, tradição, segurança, desenvolvimento econômico pós-crise, dentre outros que costumamos ver a classe conservadora expressar.

Claro que hoje já não temos mais esta perspectiva, e nem os cristãos alemães. E Hitler passou de um arauto para um anticristo. Principalmente depois das guerras que a influência nos meios cristãos protestantes se concentrou mais nos Estados Unidos, junto com o processo desta nação se tornar potência econômica.

Não é irônico como alguém tão exaltado pelas instituições, apontado como uma resposta de Deus para a sociedade alemã, passou a ser uma figura endemoniada? Leon Tolstoi em ‘Minha Religião’ explora muito bem esta questão, mostrando que as instituições religiosas deixam o Estado pautar a moral da sociedade, anulando os ensinos de Cristo, só reafirmando as decisões do governo como divinas, até mesmo as decisões erradas e anticristãs:

“A Igreja reconhece teoricamente a doutrina de Jesus, mas a nega na prática.Em vez de orientar a vida do mundo, a Igreja, por amor ao mundo, expõe a doutrina metafísica de Jesus de tal modo que não decorre dela nenhuma obrigação quanto ao modo de vida, nenhuma necessidade para os homens viverem de modo diferente daquele que viveram até agora. A Igreja se rendeu ao mundo e simplesmente faz parte do séquito do vencedor. O mundo faz o que quer e deixa à Igreja a tarefa de justificar seus atos com explicações sobre o significado da vida. O mundo organiza a vida de maneira totalmente oposta à doutrina de Jesus, e a Igreja faz de tudo para demonstrar que os homens que vivem contrariamente à doutrina de Jesus vivem, na verdade, de acordo com esta doutrina. O resultado final é que o mundo vive uma existência pior do que a pagã e a Igreja, além de aprová-la, também afirma que essa existência está em exata conformidade com a doutrina de Jesus.”

Mas o que aconteceu com Hitler acontece hoje, com ícones como Temer, Bolsonaro, Feliciano, Malta, assim como o Lula, teve muita popularidade entre os líderes religiosos, inclusive tinha a Bancada Evangélica como aliada.

Vernard Eller, em seu livro ‘Anarquia Cristã’ pontua alguns aspectos entre esta interferência das instituições religiosas com o governo. Ele atribui que a oficialização das religiões são a raiz desse mal, que isso ocorre com a predominância de uma fé ou instituição, em detrimento das outras, e que a solução disso é o pluralismo, como podemos ver no trecho a seguir:

“É, então, somente quando nos movemos para dentro do pluralismo denominacional, o advento do secularismo, o desenvolvimento do governo democrático, e a quebra da união profana entre igreja e estado, que enxergamos alguma mudança significativa no todo. Embora não seja de maneira alguma um afastamento da fé-arquia diante da Anarquia Cristã. É simplesmente a fé-arquia tomando uma forma moderna.
Com o monopólio eclesiástico não sendo mais uma opção dentro da sociedade, cada igreja teve que aprender a tolerar a mistura – mesmo enquanto tem a convicção secreta (ou não tão secreta) de que é eleita de uma maneira que as outras não são. Um determinado estado não pode mais se apoiar em sua igreja consorte como prova de sua eleição divina. Mas não há obstáculos para que governos civis reivindiquem suas eleições do seu próprio jeito (como dizer que “esta nação pertence a Deus”).
Entretanto, com o novo pluralismo democrático impossibilitando a governabilidade eclesiástica de uma população inteira, as denominações tem que reformular a natureza e o propósito de seu poder árquico. Não dá mais pra ser uma dominação por decreto, mas sim por propaganda. Não dá mais pra ser o poder de garantir a salvação de populações inteiras através dos santos sacramentos ou da pregação da santa palavra (ou então, se recusarem, todos irão para o inferno). Agora, deve ser o poder dos programas institucionais de evangelizações, educação cristã, instrução moral e reforma social, que são tão sutis quanto poderosos para realizar a vontade de Deus na terra (ou então, se as pessoas recusarem, deixe-as ir para o inferno nuclear). Aqui, não há menos confiança do que antes para dizer qual arquia é a nomeada por Deus – e não há menos confiança do que antes em dizer qual arquia carrega o poder que pode salvar o mundo.”

O que mais me preocupa são as pessoas enganadas nestes discursos, que esperam uma ação de Deus, mas apoiam o diabo. Temos visto isto se repetir constantemente, desde que Constantino resolveu oficializar o cristianismo como fé estatal de Roma. E toda vez que a fé se mistura com a coerção estatal, ocorre o que em Apocalipse João sinalizou como Babilônia, com Jezabel matando os profetas, no caso os verdadeiros profetas, pois Jezabel aliciava os falsos.

E é então que eu sinto pelos enganados. Aqueles que caem neste discurso e colocam esperanças em homens, corrompidos, que agem em seus próprios interesses, por concupiscência diabólica, e que no futuro mergulhará o país no caos infernal.

Uma reflexão de Jacques Ellul em ‘Anarquia e Cristianismo’ me faz refletir sobre esta questão e ver como a proposta cristã é tão diferente de algo imposto. Então qual o sentido de cristãos, se aparelharem com governos para impor a moral cristã a terceiros? Ellul aborda muito bem a questão ressaltando que vivemos sob o que ele chama de “poder do amor”, pautada na liberdade do indivíduo e não na heteromia do governo:

“Obviamente, a idéia de “poder” vai no mesmo sentido de “arquia”; os dois são inseparáveis. De fato, toda fez que Paulo usa “arquia” no sentido de “principados”, ele junta o termo com uma das palavras gregas para “poder”. Ainda falando tanto de “poder” e “arquia” devemos fazer uma especificação crucial: estamos sempre supondo um poder ou governo que é imposto sobre seu eleitorado. Obviamente, isto é apropriado ao falarmos de, digamos, “o poder do amor”. Já que esse é um poder em um sentido completamente diferente da palavra, à medida em que não carrega indícios de imposição. Olhando apenas para a frase em si; “o reino de Deus” não parece ser uma “arquia” diferente das demais. Ainda vamos ver que não é assim. Quando Jesus disse “Meu reino não é desse mundo”, Ele dizia que, embora todas as arquias mundanas devem ser imposicionais, a dEle é radicalmente diferente no quesito de não ter que ser – e de fato não é.”

Mas isso já ocorreu aqui no país. Em 64 muitos religiosos foram para as ruas com devaneios políticos, prezar pela moralidade hipócrita, que na verdade serve apenas aos seus interesses mesquinhos, sua preocupação quanto a seus privilégios e sua propriedade. Então o país ficou imerso em uma ditadura por 21 anos.

Não, eu não sou a favor deste governo, e até desejo construir um modelo novo de sociedade. Mas tal modelo não vem de um grupo de cima para baixo, mas vem através da democracia direta, começando pela base. E estou aberto à colaboração de pessoas que compreendem também sob o momento delicado em que vivemos e que queiram unir forças em prol da sanidade. Manifestando o Reino de Deus, que não se trata de nossas necessidades materiais mesquinhas, mas sim justiça, paz e alegria.

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