Que lições sobre política aprendemos com o profeta Daniel?

Publicado: 4 de janeiro de 2017 por Plínio em Cristianismo, Política
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“Quando há em um Estado uma constituição qualquer, o poder se mantêm pela violência, poder que pode ser monopolizado por alguns homens, por meios diferentes. De qualquer forma, sempre haverá probabilidade de ocorrer os mesmos acontecimentos que agora ocorrem na Rússia – a guerra e a repressão dos revoltosos.”
Trecho de Leon Tolstoi em ‘Anarquismo e Cristianismo’.

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Daniel desempenhou um importante papel na política Babilônica. Fora levado para uma terra desconhecida, por um povo que atacou a sua nação, levou cativo os seus conterrâneos e continuaria por anos oprimindo a sua nação. Mas a Graça manifestou de forma surpreendente, que Daniel nunca causou mal àquele povo que facilmente poderíamos considerá-lo como infiel.
Na verdade só por isto mostra o quanto que Daniel compreendia o conceito de graça e misericórdia de Deus. Em uma sociedade cristã como a de hoje, em que mergulhamos em dicotomias, como lidaríamos com um povo que invade nossas terra e leva a população cativa e a escraviza? Facilmente consigo imaginar discursos com apelos religiosos, alegando que Deus vai trazer a sua Justiça e vai cortar a cabeça da serpente ou coisa do tipo.
Porém o que mais me surpreende na postura de Daniel, é o seu posicionamento diante legalistas que legislavam contra ele. O livro do profeta, relata algumas leis eram feitas para incriminar e perseguir especificamente Daniel e seus companheiros, não se relata que era para benefício da sociedade, mas sim perseguição política de uma classe de aristocratas querendo eliminar Daniel e companheiros.
Mas mesmo assim, Daniel em nenhum momento legislou contra os seus oponentes e nem mesmo para defender seu grupo de afinidade, no caso, os judeus perseguidos e cativos. Também nunca precisou elaborar leis que restringisse os atos pecaminosos daquele povo, que não eram poucos. Ele entendia o conceito coercitivo do governo, assim como Tolstói, na obra citada acima, aborda sobre o posicionamento do cristão diante o Estado:
“O cristão rechaça a lei do Estado porque não tem necessidade dela nem para ele nem para os demais, posto que julga a vida humana mais garantida pela lei do amor que professa, que pela lei sustentada pela violência.
Para o cristão que conhece as necessidades da lei do amor, as necessidades da lei da violência não somente não podem ser-lhe obrigatórias, como se apresentam diante dele como erros que devem ser denunciados e destruídos.
A essência do cristianismo é o cumprimento da vontade de Deus que não pode ser possível pela atividade exterior que consiste em estabelecer e aplicar formas exteriores de vida, a vontade de Deus é apenas possível pela atividade interior, pela mudança da consciência, e consequente melhora da vida humana. A liberdade é a condição necessária da vida cristã. A profissão do cristianismo livra o homem de todo poder exterior, e ao mesmo tempo lhe dá a possibilidade de esperar o melhoramento da vida que busca em vão pela mudança das formas exteriores da vida.
Os homens acham que sua situação melhora graças às mudanças das formas exteriores da vida, e, sem embargo essas mudanças nem sempre resultam em uma modificação da consciência.
Todas as mudanças exteriores das formas que não são consequência de uma modificação da consciência, não somente não melhoram a condição dos homens, como com frequência a agravam. Não são os decretos do governo que tem abolido a matança de crianças, as torturas, a escravidão, é a evolução da consciência humana que tem provocado a necessidade destes decretos; e a vida não melhora em passo mais rápido do que o passo do movimento da consciência, ou seja, a vida melhora na medida em que a lei do amor ocupa na consciência do homem o lugar antes ocupado pela lei da violência.”
Aliás, vale frisar este discurso moralista dos conservadores de serem os reguladores, ou como eles colocam, aqueles que preservam a moral da sociedade, em nada combina com o Daniel bíblico. O profeta em nada fez para legislar leis cujo o intuito era aplicar a força estatal os seus valores religiosos sobre um povo que ele não seguia tais valores.
O objetivo do Daniel era específico e assertivo, ele apenas deu testemunho e ganhou a alma do rei Dario. Seus atos eram para o benefício do povo babilônico, ele era conhecido por sua sabedoria e justiça, a ponto dos reinados passarem, três reis reinaram sobre Babilônia na época de Daniel, mas o profeta permanecia firme, e era bem visto por todos.
Os atos de Daniel foram tão marcantes que a própria bíblia relata o quanto que o rei ficou tocado com a postura de Daniel e sua fidelidade a Deus, a ponto do próprio Deus o guardar:
“Então o rei Dario escreveu a todos os povos, nações e línguas que moram em toda a terra: A paz vos seja multiplicada. Da minha parte é feito um decreto, pelo qual em todo o domínio do meu reino os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel; porque ele é o Deus vivo e que permanece para sempre, e o seu reino não se pode destruir, e o seu domínio durará até o fim. Ele salva, livra, e opera sinais e maravilhas no céu e na terra; ele salvou e livrou Daniel do poder dos leões. Este Daniel, pois, prosperou no reinado de Dario, e no reinado de Ciro, o persa.” Daniel 6:25-28
Com isso analiso o nosso comportamento. Tão ávidos a regular a posição do outro. Em embutir nossos conceitos morais aos demais. Ao mesmo tempo tão deficientes de Graça e testemunho. Tão fracos em nosso posicionamento, mas forte em exigir dos outros.
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