‘A Ameaça da Arquia Institucional Cristã’* por Vernard Eller

A história do cristianismo mostra claramente a luta sem fim, seja qual for o período, para determinar quais arquias, são realmente agentes sagrados de Deus.

Como vimos no capítulo anterior; a fé-arquia cristã teve seu começo na convicção absoluta de que as arquias eleitas de Deus eram duas – a Santa Igreja Católica e o Sacro Império Romano. Quaisquer outras arquias (sejam igrejas ou estados; sejam pagãs, cristãs hereges, ou qualquer outra coisa) são inimigas de Deus a serem impiedosamente conquistadas e exterminadas.

(No começo da história cristã, todo o poder das arquias era aparentemente compreendido como sendo institucionalizado na forma de igreja ou estados. Apenas recentemente temos visto que há toda uma gama de outras instituições – educação, negócios, mídia, etc – que apenas tendem a governar o pensamento e o comportamento humanos).

A divisão do império, com a sua divisão da igreja do ocidente e do oriente, não mudou o caráter da fé-arquia. Mas agora, dentro da cristandade, tínhamos dois conjuntos de arquias cristãs – cada uma absolutamente certa de que pertencia a Deus e que a outra era Maligna. Deste ponto em diante (ou para trás, dependendo da opinião de Deus sobre qual caminho a igreja está tomando), a disputa da arquia eleita vai tomar muito mais lugar dentro da igreja do que entre igreja e mundo.

A Reforma Protestante (a Reforma Magistral, excluindo os Anabatistas que não tomaram parte nesse desenrolar) novamente falha em alcançar qualquer mudança significativa. A palavra Magistral revela o quão fortemente essa reforma foi orientada pelas arquias. A única coisa nova é que agora temos um acúmulo nocivo de estados-igreja cristãos, somado à combates bélicos entre eles, lutando pela confirmação de que eram eleitos por Deus. Não é uma coisa boa.

É, então, somente quando nos movemos para dentro do pluralismo denominacional, o advento do secularismo, o desenvolvimento do governo democrático, e a quebra da união profana entre igreja e estado, que enxergamos alguma mudança significativa no todo. Embora não seja de maneira alguma um afastamento da fé-arquia diante da Anarquia Cristã. É simplesmente a fé-arquia tomando uma forma moderna.

Com o monopólio eclesiástico não sendo mais uma opção dentro da sociedade, cada igreja teve que aprender a tolerar a mistura – mesmo enquanto tem a convicção secreta (ou não tão secreta) de que é eleita de uma maneira que as outras não são. Um determinado estado não pode mais se apoiar em sua igreja consorte como prova de sua eleição divina. Mas não há obstáculos para que governos civis reivindiquem suas eleições do seu próprio jeito (como dizer que “esta nação pertence a Deus”).

Entretanto, com o novo pluralismo democrático impossibilitando a governabilidade eclesiástica de uma população inteira, as denominações tem que reformular a natureza e o propósito de seu poder árquico. Não dá mais pra ser uma dominação por decreto, mas sim por propaganda. Não dá mais pra ser o poder de garantir a salvação de populações inteiras através dos santos sacramentos ou da pregação da santa palavra (ou então, se recusarem, todos irão para o inferno). Agora, deve ser o poder dos programas institucionais de evangelizações, educação cristã, instrução moral e reforma social, que são tão sutis quanto poderosos para realizar a vontade de Deus na terra (ou então, se as pessoas recusarem, deixe-as ir para o inferno nuclear). Aqui, não há menos confiança do que antes para dizer qual arquia é a nomeada por Deus – e não há menos confiança do que antes em dizer qual arquia carrega o poder que pode salvar o mundo.

Atualmente, há evidências de que determinadas denominações estão começando a perder a escolha popular de serem “nomeadas por Deus”. Alguns cristãos enxergam os conselhos e agências ecumênicas como as maiores e melhores arquias (mais poderosas e eficazes), e estão pegando suas esperanças e aliando a elas. Alguns cristãos vêem as organizações paracristãs e grupos de causas (algo desde Jovens para Cristo até a Sojourners) como sendo as arquias do futuro de Deus. E alguns cristãos acreditam que, para os nossos dias, diferentes movimentos, causas e partidos seculares representam as arquias verdadeiramente eleitas. O que isso acrescenta, de Constantino até AGORA (esta capitalização acrônima não é acidental), é que a fé-arquia da igreja foi completamente realizada.

*Título próprio. Trecho de Vernard Eller em ‘Anarquia Cristã’.

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