‘As forças que destruíram a revolução’ por Emma Goldman

A revolução russa, como troca social e econômica, que tratou de remover o capitalismo e estabelecer o Comunismo, deve considerar-se em falência.

Ao analisar os diferentes fatores que destruíram a revolução, não é demais apreciar o papel que desempenharam os elementos contrarrevolucionários. Ao dizer a verdade, seus crimes são o suficientemente odiosos para condená-los por toda a vida. O patriotas russos (Monárquicos, Democratas-constitucionalistas), encheram o mundo com seus clamores de intervenção. O que os importava se milhões de conterrâneos e milhões de trabalhadores em outros países morressem vitimas de uma guerra contra a Rússia?

Eles viviam seguros e a salvo das balas dos soldados, da prisão, da Tcheca e da fome devastadora. Podiam, pois, jogar com o patriotismo. Mas deixemos isso por ser demais conhecido. O que não se sabe é que os intervencionistas russos e aliados não foram os únicos fatores do grande drama social que terminou com a morte da revolução russa. Os outros fatores foram os bolcheviques. E é acerca disso que escrevemos.

Talvez a revolução da Rússia nasceu já sentenciada. Chegando arrastada por quatro anos de guerra, que haviam aniquilado seus melhores valores e devastado suas melhores e mais ricas comarcas, é possível que a revolução não tivesse tido suficientes forças para resistir aos loucos arrebates do resto do mundo. Os bolcheviques afirmam que foi culpa do povo russo que não teve suficiente perseverança para resistir ao lento e doloroso processo de troca operado pela revolução. Eu não acredito nisso.

Aceitando que isso fosse certo, eu insisto, sem ressalvas em que não foram tanto os ataques do exterior como os insensatos e cruéis métodos que no interior estrangularam a revolução e a converteram em um jogo odioso posto no pescoço do povo russo. A politica Marxista dos Bolcheviques, elogiada num princípio como indispensável a revolução para ser abandonada depois de ter introduzido o descontentamento, o antagonismo e a miséria, foram os verdadeiros fatores que destruíram o grande movimento e fizeram perder a fé do povo.

Sem dúvida nenhuma pode haver sobre o que constitui o maior perigo para revolução (ataques exteriores, revoltas internas) a experiência russa as tem dissipado todas. Os contrarrevolucionários, apoiados pelo dinheiro e o exército do Capitalismo estrangeiro, fracassaram, nem tanto pelo heroísmo do Exército Vermelho, quanto pelo entusiasmo revolucionário do próprio povo, repeliu todos os ataques. Contudo, a revolução caiu destruída. Como, então, podemos explicar esse fenômeno?

As razões principais não são difíceis de explicar. Se a Revolução tem que sobreviver apesar de todos os obstáculos é necessário que seu fogo se mantenha sempre vivo diante do povo. Em outras palavras: é necessário que a população sinta constantemente que a revolução é sua obra, que estão participando ativamente na tarefa de construir uma nova vida social.

Durante um breve período da revolução de Outubro, os trabalhadores rurais e urbanos, soldados e marinheiros foram de verdade os donos da situação. Mas de pronto a invisível mão de ferro do bolchevismo começou a manejar os assuntos do Estado e separou a revolução do povo; e o povo se separou da Revolução. Daquele momento começou o Estado Bolchevique.

Os Bolcheviques formaram a Ordem dos Jesuítas de Marx. Não quero dizer com isto que os bolcheviques não sejam sinceros. Foi seu marxismo que determinou sua atuação. Os diversos métodos empregados destruíram a realização de seu fim. Comunismo, Socialismo, Liberdade, Igualdade, por tudo o que o povo russo suportou de sofrimento e fez a revolução caíram no descrédito pelos meios empregados, pela jesuitística desculpa de que o fim justifica os meios.

O cinismo mais desenfreado tomou o lugar do Idealismo que distinguiu a revolução de Outubro. A inspiração caiu paralisada, o interesse popular desapareceu; a apatia e a indiferença suprimiram o entusiasmo e a energia criadora. Não foi nem a intervenção, nem o bloqueio. Pelo contrário: a politica interna do Estado Bolchevique é a única responsável do fracasso da revolução e a única responsável também do ódio que o povo russo sente por tudo o que ela emana.

“Para que servem as trocas? – Perguntam os camponeses -. Todas a leis iguais: o povo deve sofrer”.

Foi esse fatalismo, afirmado por centúrias de submissão, que vestiu o povo com a indiferença de sua própria obra e a sua resistência passiva contra o Bolchevismo. Aprenderam agora os Comunistas que nem sempre o fim justifica os meios?

É bem verdade que Lênin se arrepende um pouco. Em cada novo Congresso traz um novo mea culpa e em cada nova assembleia apresenta seu “eu tenho pecado”. Um jovem comunista me disse um dia: “Não me estranharia que a qualquer dias destes, Lênin afirme que a Revolução de Outubro foi um erro”.

Verdadeiramente, Lênin reconhece seus erros, o que não implica que continue com a mesma politica. Cada novo experimento que se trata de impor ao povo é proclamado por Lênin e seus sequazes como a panaceia derradeira que trará paz e a prosperidade a Rússia, e ai de quem contradizê-los! Este será um contrarrevolucionário, um traidor, e como tal, será encarcerado.

Depois de ter enganado a Rússia e ao mundo inteiro dizendo que a estrutura social na Rússia era o Comunismo, agora Lênin vêm salientando no último Congresso Pan-Russo que era um erro tal crença, que na Rússia não existia o Comunismo. Por dizer tal coisa, há milhares de camaradas nas prisões, e nas prisões continuam apesar de Lênin reconhecer que esses camaradas afirmavam e por isso foram sentenciados .

Interessante seria explicar os diferentes métodos empregados pelos Bolcheviques em seu intento de enganar o povo; mas não é objeto desse artigo enumerá-los em detalhes. Me concentrarei simplesmente a expor os principais:

A paz de Brest-Litvosk marcou o começo de todas as posteriores calamidades. Foi a negação deliberada de tudo o que os bolcheviques tinham proclamado: paz sem indenização; livre determinação de todos os povos; abolição da diplomacia secreta. Sem ressalvas, eles compactuaram com tudo isso como se fossem um governo burguês qualquer.

O preço desta paz foi a traição a Latavia, Finlândia, Ucrânia e BieloRússia, ou a Rússia Branca, e como resultado, vários anos de guerra civil, a desagregação das forças revolucionárias e o começo do terror vermelho, que continua ainda.

Os camponeses da Ucrânia souberam expulsar o invasor alemão, e souberam também não ouvir as perfídias bolcheviques. A presença constante de um milhão de soldados para limpar a Ucrânia dos bandidos, testemunha o carinho dos camponeses da Ucrânia com o Estado Bolchevique. A ratificação do tratado de paz que Trotsky se negou a firmar, que Radek (então em uma prisão alemã) declarou com a falência da revolução, foi o sinal de uma larga resistência secreta dos camponeses contra o Estado.

Os camponeses que estiveram unidos aos trabalhadores urbanos até a traição de Brest, se separaram deles e do partido comunista, que dizia representar os camponeses e trabalhadores urbanos. Lênin exigiu a ratificação como uma aspiração e um meio de afirmar a revolução. Foi um dos seus erros; mas o mais grave foi que estrangulou a revolução.