‘Ciência, apoio mútuo e anarquia’ por Piotr Kropotkin

APOIO MÚTUO E A NATUREZA

A concepção de luta pela sobrevivência como um fator de evolução, introduzida na ciência por Darwin e Wallace, permitiu englobar uma faixa muito ampla de fenômenos numa única generalização, que logo se tornou a própria base de especulações filosóficas, biológicas e sociológicas.

Esses fatos eram compreendidos como esforços constantes — luta contra circunstâncias adversas — para que tal desenvolvimento de indivíduos, raças, espécies e sociedades resultasse na maior plenitude, variedade e intensidade de vida possível. Pode ser que, no início, nem mesmo Darwin tivesse plena consciência da universalidade do fator que ele foi o primeiro a invocar para explicar uma única série de fatos relativos à acumulação de variações individuais em espécies incipientes. Mas ele previu que o termo que estava introduzindo na ciência perderia seu significado filosófico, e único verdadeiro, se fosse usado apenas em seu sentido estrito: o de luta pura e simples entre indivíduos pelos meios de sobrevivência. E, logo no início dessa obra memorável, ele insistiu para que o termo fosse compreendido em seu “sentido amplo e metafórico, que incluía a interdependência entre os seres e (o que é mais importante ainda) não apenas a vida do indivíduo, mas também sua capacidade de deixar descendentes”.

Observo que, em inúmeras sociedades animais, a luta entre indivíduos pelos meios de subsistência desaparece, que essa luta é substituída pela cooperação e que essa substituição resulta no desenvolvimento de faculdades intelectuais e morais que assegura à espécie as melhores condições de sobrevivência. [Darwin] sugeriu que, nesses casos, os mais aptos não são os mais fortes fisicamente, nem os mais astuciosos, e sim aqueles que aprendem a se associar de modo a se apoiarem mutuamente, fossem fortes ou fracos, pelo bem-estar da comunidade.

Essas observações, que poderiam ter se tornado a base de pesquisas mais fecundas, infelizmente foram eclipsadas pela massa de fatos colhidos com o objetivo de ilustrar as consequências de uma competição pela vida.

O termo, que se originou da estreita concepção malthusiana — de competição de cada indivíduo contra todos os outros —, perdeu assim sua estreiteza na visão de alguém que conhecia a Natureza.

Aconteceu com a teoria de Darwin o que sempre acontece com teorias que exercem qualquer influência sobre as relações humanas. Em vez de ampliá-la de acordo com suas próprias intuições, seus seguidores a estreitaram ainda mais.Estes acabaram por conceber o mundo animal como um mundo de perpétua luta entre indivíduos semifamintos e sedentos do sangue uns dos outros. Fizeram a literatura moderna ressoar com o grito de guerra de “ai dos vencidos”, como se esta fosse a última palavra da biologia moderna. Elevaram a luta impiedosa por vantagens pessoais à condição de um princípio biológico ao qual também o homem deve se submeter à sobrevivência com seus braços, sob a ameaça de, caso contrário, sucumbir em um mundo baseado no extermínio mútuo.

Assim que começamos a estudar os animais não apenas em laboratórios e museus, mas nas florestas e nas pradarias, nas estepes e nas montanhas —, percebemos imediatamente que, apesar da magnitude das hostilidades e do extermínio entre as várias espécies, e principalmente entre as várias classes de animais, existe, ao mesmo tempo, a mesma quantidade — ou talvez mais — de apoio, ajuda e defesa mútuos entre animais da mesma espécie ou, pelo menos, da mesma sociedade. Mas, se nos valermos de uma prova indireta e perguntarmos à Natureza: “Quem são os mais aptos: aqueles que vivem em guerra ou aqueles que se apoiam mutuamente?”, veremos de imediato e sem sombra de dúvida que são estes últimos. Os que adquirem hábitos de apoio mútuo têm mais chances de sobreviver e atingem, em suas classes respectivas, o desenvolvimento mais elevado do intelecto e da organização corporal. Considerando os incontáveis fatos que podem ser apresentados para corroborar essa visão, podemos dizer com segurança que, tanto o apoio mútuo, quanto a luta de todos contra todos são uma lei da vida animal; mas, enquanto fator de evolução, a primeira tem provavelmente uma importância muito maior, na medida em que favorece o desenvolvimento dos hábitos e características que asseguram a manutenção e a evolução da espécie, além de maior bem-estar e melhor qualidade de vida para o indivíduo com o menor dispêndio de energia.

O apoio mútuo é a regra em muitas das grandes divisões do reino animal. Existe realmente entre os animais inferiores, e devemos estar preparados para um dia descobrir, com os estudiosos da microbiologia, casos de apoio mútuo inconsciente até mesmo na vida de microrganismos.

Felizmente, a competição não é a regra no mundo animal, nem na humanidade. Entre os animais, limita-se a períodos excepcionais, e a seleção natural encontra campos melhores para sua atividade: melhores condições são criadas eliminando a competição por meio da ajuda e do apoio mútuos. Na grande luta pela vida pela maior plenitude e intensidade possíveis com a menor perda de energia —, a seleção natural continua buscando precisamente os meios para evitar a competição. “Nada de competição! A competição é sempre prejudicial à espécie e vocês têm muitos recursos para evitá-la!” Essa é a tendência da natureza, nem sempre compreendida de todo, mas sempre presente. Essa é a palavra de ordem que nos vem do bosque, da floresta, do rio, do oceano. “Portanto, associem-se — pratiquem o apoio mútuo! Esse é o meio mais seguro de dar a cada um e a todos a máxima segurança, a melhor garantia de existência e de progresso, seja corporal, intelectual ou moral.”

Portanto, atribuir o progresso industrial de nosso século à guerra de um contra todos, como se tem proclamado, é raciocinar como o homem que, não conhecendo as causas da chuva, atribui-as à vítima que imolou perante seu ídolo de barro. Mas é principalmente no campo da ética que a importância dominante do princípio de apoio mútuo aparece em sua plenitude. Parece evidente que o apoio mútuo é o fundamento real de nossas concepções éticas. Mesmo as novas religiões que apareceram de tempos em tempos — sempre em épocas em que o princípio de apoio mútuo estava entrando em decadência nas teocracias e nos Estados despóticos orientais, ou no declínio do Império Romano — elas só reafirmaram o mesmo princípio. Encontraram seus primeiros discípulos entre os humildes, nas camadas mais baixas e oprimidas da sociedade, entre os quais o princípio de apoio mútuo é o fundamento necessário da vida cotidiana. E as novas formas de associação introduzidas nas comunidades budistas e cristãs primitivas, nas irmandades da Morávia e outros lugares, assumiram o caráter de um retorno aos melhores aspectos do apoio mútuo da vida tribal primitiva. Entretanto, toda vez que era feita uma tentativa de retornar a esse antigo princípio, sua própria ideia fundamental era ampliada. Do clã, ela se estendeu ao tronco familiar, à federação de troncos familiares, à nação e, por fim ao menos idealmente , a toda a humanidade.

Na prática do apoio mútuo, que remonta aos primeiros passos da evolução, encontramos a origem evidente e indubitável de nossas concepções éticas; e podemos afirmar que, no progresso ético do homem, o apoio mútuo e não a luta de uns contra os outros tem o papel principal. Em seu avanço, mesmo no momento presente, vemos também a melhor garantia de uma evolução ainda mais grandiosa de nossa espécie.

CIÊNCIA E EVOLUÇÃO

A ciência, hoje, demonstra-nos que a Terra deve sua origem a um núcleo de matérias cósmicas que se desprendeu primitivamente da nebulosa solar. Esse núcleo, pelo efeito de rotação sobre si mesmo em torno do astro central, condensou-se a ponto de a compressão dos gases levar a uma conflagração; e esse globo, filho do sol, teve, como aquele que lhe deu origem, de brilhar com sua luz própria na Via Láctea, como uma pequenina estrela. Tendo o globo resfriado, passou de estado gasoso ao estado líquido, pastoso, em seguida, cada vez mais denso, até sua completa solidificação. Mas nessa fornalha primitiva, a associação dos gases fez-se de modo que suas diferentes combinações dessem origem aos materiais fundamentais que formam a composição da Terra: minerais, metais, gases que permanecem livres, em suspensão na atmosfera.

O resfriamento, operando-se pouco a pouco, fez com que a ação da água e da atmosfera sobre os minerais tivessem ajudado a formar uma camada de terra vegetal; durante esse tempo, a associação do hidrogênio, do oxigênio, do carbono e do azoto conseguiram formar, no seio das águas, uma espécie de geleia orgânica, sem forma definida, sem órgão, sem consciência, mas já dotada de movimento, empurrando prolongamentos de sua massa para o lado que queria ir, ou melhor, do lado em que a atração fazia-se sentir sobre ela, e, da faculdade de assimilar os corpos estranhos que se agarravam à sua massa e deles nutrir-se. Enfim, a última faculdade: a um certo grau de desenvolvimento, poder cindir-se em duas e dar origem a um novo organismo semelhante a seu progenitor.

Eis os modestos começos da humanidade! Tão modestos que foi bem mais tarde, após um longo período de evolução, após a formação de um certo número de tipos na cadeia dos seres, que se chegou a distinguir o animal do vegetal.

Por isso, mais tarde, quando as relações entre o darwinismo e a sociologia me chamaram a atenção, não pude concordar com nenhuma das obras e panfletos escritos sobre esse tema tão importante. Todos eles tentavam provar que os seres humanos, devido à superioridade de sua inteligência e de seus conhecimentos, podiam mitigar entre si a dureza da luta pela vida. Mas, ao mesmo tempo, todos eles concordavam que a luta pelos meios de subsistência, a luta de todo animal contra seus semelhantes, e de cada ser humano contra todos os outros, era uma “lei da Natureza”. Eu não podia aceitar esse ponto de vista, porque estava convencido de que admitir uma implacável guerra interna pela vida no seio de cada espécie — e ver nessa guerra uma condição de progresso — era admitir algo que não só não havia ainda sido provado, como também não fora confirmado pela observação direta.

Os fatos não são novos, mas a maneira de concebê-los é que está em vias de evoluir, e se fosse preciso caracterizar esta tendência em poucas palavras, poder-se-ia dizer que, se outrora a ciência dedicava-se a estudar os grandes resultados e as grandes somas (as integrais, diria o matemático), hoje ela dedica-se, sobretudo, a estudar os infinitamente pequenos, os indivíduos que compõem essas somas, e das quais acabou por reconhecer a independência e a individualidade, ao mesmo tempo com sua íntima agregação.

É certo, com efeito, que, à medida que o cérebro humano liberta-se das ideias que lhe foram inculcadas pelas minorias de padres, chefes militares, juízes, empenhados em firmarem o seu domínio, e de homens de ciência pagos para o perpetuarem, surgiu uma concepção da sociedade em que não há lugar para aquelas minorias dominadoras; ela compreende no seu seio uma variedade infinita de capacidades, temperamentos, e energias individuais: não exclui ninguém.

O homem do povo não raciocina sobre abstrações, pensa em termos concretos, e por isso sente que a abstração ‘Estado’ revestiria para ele a forma de numerosos funcionários, escolhidos entre os seus camaradas de fábrica ou de oficina: excelentes camaradas hoje, seriam amanhã gerentes insuportáveis.

É somente pela abolição do Estado, pela conquista da liberdade inteira do indivíduo, pelo livre acordo, pela associação e pela federação absolutamente livres, que poderemos chegar ao comunismo.

O Estado é apenas uma das formas da vida social, ainda muito recente para as nossas sociedades. O homem viveu milhares de anos antes que se constituíssem os primeiros Estados. Conhecem-se os meios pelos quais essa associação entre o senhor, o padre, o mercador, o juiz, o soldado e o rei assentou o seu domínio. Foi pelo aniquilamento de todos os contratos livres: comunidades de aldeia, guildas, compagnonnages1, fraternidades, conjurações medievais. Foi pelo confisco das terras da comuna e das riquezas das guildas; foi pela proibição absoluta e feroz de toda a espécie de livre entendimento entre os homens; foi pelo massacre, pela roda, pela forca, pela espada, e pelo fogo que a Igreja e o Estado estabeleceram seu domínio, que conseguiram reinar doravante em aglomerações incongruentes de súditos.

Os que souberem despertar o espírito de iniciativa nos indivíduos e nos grupos, os que chegarem a criar nas suas relações mútuas uma ação e uma vida baseadas nestes princípios, os que compreenderem que a variedade, o próprio conflito, é a vida, e que a uniformidade é a morte, trabalharão não para os séculos futuros, mas verdadeiramente para a próxima revolução.

HARMONIA E ANARQUIA

Censuram-nos, com frequência, por aceitarmos como divisa esta palavra, que faz tanto medo a muitos espíritos: anarquia. “Vossas ideias são excelentes — dizem-nos — mas confessai que o nome de vosso Partido é uma escolha infeliz. Anarquia, na linguagem corrente, é sinônimo de desordem, caos; esta palavra desperta no espírito a ideia de interesses que se entrechocam, de indivíduos que fazem guerra entre si, que não podem conseguir estabelecer a harmonia.”

Tratemos, entretanto, de nos entender. De que ordem se trata? Aqueles que censuram a anarquia, dizendo ser ela a negação da ordem, não falam da harmonia do futuro; falam da ordem tal como é concebida pela sociedade atual! Vejamos, pois, o que é esta ordem que a anarquia quer destruir.

Reduzir nove décimos da Humanidade ao estado de besta de carga, vivendo o dia-a-dia, sem nunca ousar pensar nos prazeres proporcionados ao homem pelo estudo das Ciências, pela criação artística — eis a ordem!

A ordem é a miséria, a fome, tornadas estado normal da sociedade.

É o fantasma do operário insurreto às portas do rico, o fantasma do povo insurreto às portas dos governantes.

A ordem é uma minoria ínfima, educada nas cátedras governamentais, que se impõe, por esta razão, à maioria, e que prepara seus filhos para ocupar mais tarde as mesmas funções, a fim de manter os mesmos privilégios, pela astúcia, pela corrupção, pela força, pelo massacre.

A ordem é a guerra contínua de homem a homem, de profissão a profissão, de classe a classe, de nação a nação.

A ordem é a servidão, o acorrentamento do pensamento, o aviltamento da raça humana, mantida pelo ferro e pelo açoite.

A ordem, enfim, é o banho de sangue da Comuna de Paris. É a morte de trinta mil homens, mulheres e crianças, despedaçados pelos obuses, metralhados, enterrados na cal viva sob as ruas de Paris. É o destino da juventude russa, emparedada nas prisões, enterrada na neve da Sibéria, da qual, os melhores, os mais puros, os mais devotados representantes, morrem pela corda do carrasco.

Eis a ordem!

E a desordem — o que eles chamam de desordem?

É a insurreição do povo contra esta ordem ignóbil, quebrando seus grilhões, destruindo os obstáculos e caminhando para um futuro melhor. É o que a Humanidade tem de mais glorioso em sua História.

É a revolta do pensamento às vésperas das revoluções; é a derrubada das hipóteses sancionadas pela imobilidade dos séculos precedentes; é a eclosão de todo um fluxo de novas ideias, de invenções audaciosas, é a solução dos problemas da Ciência.

A desordem é a abolição da escravidão antiga, é a insurreição das comunas, a abolição da servidão feudal, são as tentativas de abolição da servidão econômica.

A desordem — o que eles denominam desordem — são as épocas durante as quais o gênio popular toma seu livre impulso e dá, em alguns anos, passos gigantescos, sem os quais o homem teria permanecido no estado de escravidão antiga, de ser rastejante, aviltado na miséria.

A desordem é a eclosão das mais belas paixões e das maiores dedicações, é a epopeia do supremo amor pela Humanidade!

Tomando a anarquia como ideal da organização política, não fazemos mais do que formular também outra pronunciada tendência da humanidade. E vemos na história que os períodos durante os quais foram derrubados os governos em consequência de revoluções parciais ou gerais, foram épocas de repentino progresso no terreno econômico e intelectual.

E se observamos o desenvolvimento presente das nações civilizadas, vemos um movimento cada vez mais acentuado em pró de limitar a esfera de ação do governo e deixar cada vez maior liberdade ao indivíduo. A humanidade tende a reduzir a zero a ação dos governos, isto é, a abolir o Estado, essa personificação da injustiça, da opressão e do monopólio. Certamente que a ideia de uma sociedade sem Estado provocará pelo menos tantas objeções como a economia política de uma sociedade sem capital privado. Todos nós fomos amamentados com preconceitos a respeito das funções providenciais do Estado.

Quanto à harmonia que o espírito humano descobre na natureza, e que, no fundo, não é mais do que a constatação de uma certa estabilidade dos fenômenos, o homem de ciência moderno reconhece-a sem dúvida hoje mais do que nunca. Mas ele não procura explicá-la pela ação das leis concebidas segundo um certo plano, preestabelecidas por uma vontade inteligente.

O que se chamava “lei natural” não é mais do que uma aproximação entre certos fenômenos, entrevista por nós; e cada ‘lei’ natural assume um caráter condicional, isto é: se tal fenômeno se produzir em tais condições, seguir-se-á tal fenômeno. Nada de leis existentes fora do fenômeno: é o fenômeno e não a lei que determina aquele que lhe sucede. Nada há de preconcebido no que nós chamamos a harmonia da natureza. Bastou para estabelecê-la o acaso dos choques e dos encontros.

A harmonia aparece assim como equilíbrio temporário, estabelecido entre todas as forças, como uma adaptação provisória; e este equilíbrio só durará com uma condição: a de se modificar continuamente, representando em cada instante a resultante de todas as ações contrárias. A força acumulará seu efeito, deve abrir caminho, deve exercer sua ação, e se outras forças impedem que se manifeste não se aniquilará por isso, mas acabará por romper o equilíbrio, por quebrar a harmonia, por reencontrar uma nova posição de equilíbrio, e trabalhar em uma nova adaptação. Tal como a erupção de um vulcão, cuja força aprisionada acabou por despedaçar as lavas petrificadas, que o impediam de projetar gases, lavas e cinzas incandescentes. Tais são as revoluções.

A GUERRA

A guerra permanente deve rebentar a favor do direito de primazia nos mercados. Guerras pelas possessões no Oriente, guerras pelo império dos mares, guerras para impor direitos de entrada e ditar condições aos vizinhos; guerras contra os que se revoltam! Na Europa o canhão nunca está calado, gerações inteiras são massacradas e os Estados gastam em armamentos o terço das suas receitas — e bem se sabe o que são os impostos e o que custam ao pobre.

Quando a guerra atual [1914] começou, envolvendo praticamente toda a Europa numa terrível batalha, e quando — naquelas partes da Bélgica e da França que foram invadidas pelos alemães — essa batalha assumiu uma escala nunca vista de destruição em massa da vida de civis e de pilhagem dos meios de subsistência da população em geral, “a luta pela vida” tornou-se a explicação favorita daqueles que tentaram achar uma desculpa para esses horrores.

Mas, se a importância da ajuda e do apoio mútuo entre os animais começa a ser reconhecida entre os pensadores modernos, ainda não se pode dizer que isso está acontecendo em relação à segunda parte de minha tese: a importância desses dois fatores na história do Homem, tendo em vista o crescimento de suas instituições sociais progressistas.

Os líderes do pensamento contemporâneo ainda tendem a afirmar que as massas têm pouco interesse pela evolução das instituições sociais do homem e que todo progresso feito nessa direção se deveu a líderes intelectuais, políticos e militares das massas inertes.

Não foram as massas das nações europeias que prepararam a presente guerra-calamidade, nem foram elas que forjaram seus métodos bárbaros: foram seus líderes, seus líderes intelectuais. Em parte alguma as massas do povo tiveram voz no preparo da carnificina atual, e menos ainda na criação dos métodos atuais da guerra, que representam uma desconsideração total pelo que julgávamos ser a melhor herança da civilização.

As camponesas que, ao ver prisioneiros de guerra alemães e austríacos arrastando-se exaustos pelas ruas de Kiev, colocam em suas mãos pão, maçãs e às vezes, uma moeda de cobre; os milhares de homens e mulheres que cuidam dos feridos, sem fazer qualquer distinção entre amigo e inimigo, oficial ou soldado; as mulheres e os velhos camponeses franceses e russos deixados para trás em suas aldeias, que decidem nas assembleias do povo de sua aldeia arar e semear os campos dos que estão “lá”, sob o fogo inimigo; as cozinhas cooperativas e popottes communistes que surgiram em toda a França; a ajuda espontânea da Inglaterra e dos Estados Unidos à nação belga e à Polônia devastada pelo povo russo, ambos esses empreendimentos implicando uma quantidade tão imensa de energia e trabalho voluntário, organizado com tanta liberdade que desaparece todo caráter de “caridade”, tornando-o mera ajuda de vizinhos, todos esses fatos e muitos outros parecidos são as sementes de novas formas de vida.

E o Estado não pode reconhecer no seu seio uma união livremente consentida, por esta simples razão: é que o Estado só quer súditos.

EDUCAÇÃO

O homem não é um ser que possa viver exclusivamente para comer, beber e procurar um abrigo. Desde que tenha satisfeito as exigências materiais, as necessidades a que se possa atribuir um caráter artístico se apresentarão tanto mais artísticas e ardentes. Tantos indivíduos, tantos desejos; quanto mais civilizada for a sociedade, mais a individualidade for desenvolvida, mais esses desejos serão variados.

Só uma grande ideia pode inspirar a arte. A arte é no nosso ideal sinônimo de criação. Deve lançar os seus ideais para frente, mas salvo algumas raras, muito raras exceções, o artista de profissão fica muito ignorante, muito burguês, para entrever os horizontes novos. Esta inspiração, além disso, não pode sair dos livros: deve ser exaurida na vida e a sociedade atual não a poderia dar.

Outros socialistas repudiam o Falanstério. Mas quando se lhes pergunta como se poderia organizar o trabalho doméstico, respondem: “Cada um fará o seu próprio trabalho”. “Minha mulher satisfaz bem o da casa: as burguesas que façam o mesmo”. E se é um burguês socializante que fala, ele atira à sua mulher, com um sorriso gracioso: “Não é assim, querida, que você passaria bem sem criada numa sociedade socialista? Você faria, não é? Como a mulher do nosso valente amigo Paulo, ou do João, o marceneiro, que você conhece?” E a mulher responde-lhe com um sorriso agridoce: “Sim, querido”, dizendo para si que, felizmente, isso virá para as calendas gregas. Criada ou esposa, é ainda e sempre com a mulher que o homem conta para se desencarregar dos trabalhos da casa. Mas a mulher também reclama — enfim — a sua parte de emancipação da humanidade. Não quer ser a besta de carga da casa.

Os anarquistas rejeitam a organização do casamento. Eles dizem que dois seres que se amam não precisam de permissão de um terceiro para se deitarem juntos; a partir do momento que sua vontade leva-os a tomar esta decisão, a sociedade nada tem a ver com isso, e menos ainda a interferir.

Os anarquistas dizem o seguinte: pelo fato de que se deram um ao outro, a união do homem e da mulher não é indissolúvel, não estão condenados a terminar seus dias juntos se acontecer de se tornarem antipáticos um ao outro. O que sua livre vontade formou, sua livre vontade pode desfazer.

Sob o império da paixão, sob a pressão do desejo, só viram suas qualidades recíprocas, e cerraram os olhos para seus defeitos; uniram-se, e eis que a vida em comum desfaz as qualidades, faz sobressair os defeitos, revela ângulos que eles não sabem arredondar. Vamos lá! Já é hora de voltar a noções mais sãs. O amor entre um homem e uma mulher não foi sempre mais forte do que as leis, do que todas as hipocrisias e todas as reprovações que quiseram ligar à realização do ato sexual?

Apesar da vergonha que se quis lançar sobre a mulher que enganava seu marido — não falamos do homem, que sempre soube ficar bem à vontade em matéria de moral e bons costumes —, malgrado o papel de pária reservado em nossas sociedades pudicas à mãe solteira, isso impediu, por um único momento, as mulheres de fazer seus maridos cornos; as moças de se entregar àqueles que lhes havia agradado, ou se aproveitar do momento em que os sentidos falavam mais forte que a razão?

O anarquista respeita a vida humana, luta pela abolição da pena de morte, da tortura e de qualquer forma de castigo imposta ao homem pelo homem. Todos os outros demonstram a cada dia seu mais total desrespeito pela vida humana. Matar o inimigo ou torturá-lo na prisão, eis os princípios que defendem. Eles apenas colhem os frutos de seus próprios ensinamentos.

A educação que todos nós recebemos na escola do Estado — na chamada escola oficial — vicia de tal modo os nossos cérebros que a própria noção de liberdade acaba por se extraviar, por se converter em servidão.

Triste espetáculo é o de ver aqueles que se julgam revolucionários consagrar o mais profundo ódio aos anarquistas — só porque as concepções dos anarquistas sobre a liberdade ultrapassam as concepções, mesquinhas e estreitas, que eles têm sobre o assunto, concepções essas que eles adquiriram na escola oficial do Estado! E, entretanto, este espetáculo é um fato real e positivo. É que o espírito de servidão voluntária foi sempre cultivado habilmente nos cérebros juvenis; e, atualmente, ainda segue a mesma norma, para perpetuar a submissão do indivíduo ao Estado.

AUTORIDADE E PROPRIEDADE

É o crescimento contínuo e a ampliação das funções do Estado, embasado nessa fundação bem mais sólida do que a religião ou o direito de hereditariedade — a lei. Enquanto dura o Estado, enquanto a lei permanecer sagrada aos olhos dos povos, enquanto as revoluções futuras trabalharem pela manutenção e ampliação das funções do Estado e da lei, os burgueses conservarão o poder e a dominação das massas. A constituição do Estado onipotente pelos juristas é a origem da burguesia, e é ainda o Estado onipotente que faz a força atual da burguesia. Pela lei e pelo Estado, os burgueses apoderaram-se do capital e constituíram sua autoridade. Pela lei e pelo Estado, eles a mantêm. Pela lei e pelo Estado, prometem ainda reparar os males que corroem a sociedade.

O líder do Estado não se separaria do chefe da oposição, e o promotor, do advogado, senão no dia em que aquele pusesse em dúvida a própria instituição do parlamento, e se o advogado tratasse o próprio tribunal como autêntico niilista, isto é, se negasse seu direito à existência. Então, mas só então, poderia separar-se. Enquanto isso estão unidos para consagrar seu ódio àqueles que minam a supremacia do Estado e destroem o respeito pela autoridade. Contra estes eles são implacáveis. E se os burgueses da Europa inteira consagram tanto ódio aos trabalhadores da Comuna de Paris, é porque criam ver neles autênticos revolucionários, prontos a lançar ao mar o Estado, a propriedade e o governo representativo. Compreende-se, assim, qual força esse culto comum do poder hierárquico dá à burguesia.

Hoje, na medida em que se desenvolve a capacidade de produção, o número dos ociosos e dos intermediários aumenta prodigiosamente. Tudo ao contrário do que se dizia antes entre socialistas, que o capital chegaria a concentrar-se em um tão pequeno número de mãos que não haveria mais senão expropriar alguns milionários para entrar na posse das riquezas comuns, o número dos que vivem à custa do trabalho alheio é cada vez mais considerável.

Todos nós fomos educados, desde as tradições romanas e as ciências professadas nas universidades, a crer no governo e no Estado-Providência. Para manter esse prejuízo elaboraram-se sistemas de filosofia; teorias da lei são redigidas com o mesmo fim. Toda a política se baseia neste princípio e cada político, de qualquer divisa, vem sempre dizer ao povo: “Dai-me o poder, eu quero e posso libertar-vos das misérias que vos oprimem”.

Sem a tese da origem sobrenatural do homem, a ideia segundo a qual a sociedade tal como existe, com sua divisão de ricos e pobres, governos e governados, decorrente de uma vontade divina, também não se sustenta mais. A autoridade que se apoiou por tanto tempo em sua origem supranatural, fábula que contribui — ao menos tanto quanto a força bruta — para mantê-la e, com ela, a propriedade que ela tinha por missão defender, vê-se, ela também, forçada a acantonar-se por trás das razões mais concretas e mais sustentáveis.

O proprietário, desejando transmitir a seus descendentes o fruto de suas rapinagens, modelou a família a fim de assegurar sua supremacia sobre a mulher e, para poder, em sua morte, transmitir seus bens a seus descendentes, foi preciso tornar a família indissolúvel. O casamento atual equivale à prostituição mais desavergonhada.

Todavia, um mal ainda mais profundo do sistema atual afirma-se cada vez mais. É que na ordem de apropriação privada, tudo o que serve para viver e produzir — a terra, a habitação, o alimento e a ferramenta — uma vez passados às mãos de alguns, estes impedem continuamente que se produza o que é necessário para dar o bem-estar a cada um.

Obrigatoriamente a abundância de uns será baseada na pobreza de outros, e o mal-estar da maioria deverá ser mantido a todo o custo, a fim de haver braços que se vendam por uma parte apenas daquilo que são capazes de produzir; sem isso, nada de acumulação privada do capital!

Esses traços característicos de nosso sistema econômico fazem dele sua própria essência. Sem eles, não pode existir; porque, quem venderia então a sua força de trabalho por menos daquilo que ela é capaz de produzir, se não fosse forçado a isso pela ameaça da fome? E esses traços essenciais do sistema são também a sua mais esmagadora condenação.

Cada nação acha vantagem em combinar entre si a agricultura com a maior variedade possível de oficinas e de manufaturas. A especialização que os economistas nos têm falado era boa para enriquecer alguns capitalistas, mas não tem nenhuma razão de ser, e há, pelo contrário, toda a vantagem em que cada país, cada bacia geográfica possa cultivar seu trigo e os seus legumes e fabricar em sua casa todos os produtos manufaturados que consome. Esta diversidade é o melhor penhor do desenvolvimento completo da produção pelo concurso mútuo e de cada um dos elementos do progresso: enquanto a especialização é a suspensão do progresso.

A agricultura não pode prosperar senão ao lado das oficinas. E desde que uma única oficina apareça, uma variedade infinita de outras oficinas de toda a espécie deve surgir em volta dela, a fim de que, ajudando-se mutuamente, estimulando-se umas às outras por suas invenções, se acrescentem juntas.

LEIS E PUNIÇÕES

Nos Estados atuais, uma nova lei é considerada como um remédio a todos os males. Ao invés de cada um mudar por si mesmo o que é ruim, começa-se por pedir uma lei que o modifique. Uma lei sobre as estradas, uma lei sobre os costumes, uma lei sobre os cães raivosos, uma lei sobre a virtude, uma lei para opor um dique a todos os vícios, a todos os males que são tão-somente o resultado da indolência e da covardia humanas!

Nossas sociedades parecem não mais compreender que se possa viver de outra forma senão sob o regime da lei, elaborada por um governo representativo e aplicada por um punhado de governantes; e, mesmo quando conseguem emancipar-se deste jugo, seu primeiro cuidado é o de retomá-lo de imediato.

O radical pede uma extensão maior das liberdades políticas, enquanto se apercebe que o sopro da liberdade rapidamente conduz ao levantamento dos proletários; e então recua, muda de opinião, e volta às leis de exceção e ao governo do sabre. Uma legião de autoridades é necessária para manter os privilégios e este mesmo conjunto torna-se a origem de todo um sistema de delações, mentiras, ameaças e de corrupção. Hipocrisia e sofisma tornam-se a segunda natureza do homem civilizado.

A um exame atento, as milhares de leis que existem para regular a humanidade parecem estar divididas em três categorias principais: proteção da propriedade, proteção dos indivíduos, proteção do governo. E, analisando cada uma dessas categorias, chegamos a uma única e inevitável conclusão lógica e necessária: a inutilidade e perniciosidade das leis.

E muitas das nossas leis criminais têm o mesmo objetivo em vista, tendo sido criadas para manter o trabalhador numa posição de subordinação em relação ao patrão, proporcionando a segurança necessária para que a exploração continue.

No dia da Revolução, os revolucionários sociais estarão firmemente decididos a acabar com todas elas. E, na verdade, nada mais justo do que fazer-se uma grande fogueira ao ar livre lançando nela todas as leis que tratassem dos assim chamados “direitos de propriedade”, todos os títulos de propriedade, todos os registros e escrituras…

Os socialistas sabem o que significa proteção da propriedade. As leis que regulam a propriedade não foram criadas para garantir, nem ao indivíduo nem à sociedade o gozo do produto do seu trabalho. Pelo contrário, elas foram criadas para despojar o produtor de uma parte daquilo que ele produziu e para garantir a outras pessoas a posse daquela porção do produto que foi roubado, ou do produtor em particular ou da sociedade em geral. E é precisamente porque essa apropriação — e todas as outras formas de propriedade que tenham as mesmas características — é uma injustiça gritante que é necessário todo um arsenal de leis e um exército de soldados, policiais e juízes para mantê-las contra o bom senso e o sentimento de justiça inerentes à humanidade.

As observações que acabamos de fazer a respeito das leis sobre a propriedade poderiam ser aplicadas também à segunda categoria de leis: aquelas destinadas a manter os governos, ou seja, as leis constitucionais. É outra vez um arsenal de leis, decretos, disposições, decisões de conselhos e o que mais houver criados com o fim de proteger as diversas formas de governo, seja ele representativo, delegado ou usurpado, sob cujo tacão a humanidade se contorce. Sabemos bem — e os anarquistas não cansam de demonstrá-lo em suas eternas críticas contra as várias formas de governo — que a missão de todos os governos, monárquicos, constitucionais ou republicanos, é proteger e manter através da força, os privilégios das classes dominantes: a aristocracia, o clero e os comerciantes.

Resta considerar a terceira categoria, aquela que diz respeito à proteção dos indivíduos e ao combate e prevenção do “crime”, a mais importante delas, já que a maior parte dos preconceitos a ela está vinculada; porque, se desfruta de uma consideração especial, é em consequência da crença de que este tipo de lei é absolutamente indispensável à manutenção da segurança em nossas sociedades.

Essas leis, criadas a partir das práticas mais úteis às comunidades humanas, foram mais tarde aproveitadas pelos governantes como um dos meios para justificar sua própria dominação. A autoridade dos chefes das tribos, das famílias mais ricas da cidade e do rei dependia da função de juízes que desempenham o mesmo nos nossos dias: sempre que é discutida a necessidade da existência de um governo é o seu papel como juiz supremo que está sendo posto em questão. “Se não houvesse governo, os homens acabariam por destruírem-se uns aos outros” — diz o orador da aldeia. “O principal objetivo de todos os governos é assegurar a cada acusado o direito de ser julgado por doze homens honestos”, afirmou Burke. Pois bem, apesar de todos os preconceitos que ainda existem em torno do tema, já é tempo de os anarquistas declararem, em alto e bom som, que esta categoria de lei é tão inútil e injuriosa quanto as precedentes.

Em primeiro lugar, quanto aos assim chamados “crimes” — assaltos contra pessoas — é sabido que pelo menos 2/3 e frequentemente 3/4 deles são instigados pelo desejo de apossar-se da fortuna alheia. Esta imensa classe de “crimes e delitos” desaparecerá no dia em que a propriedade privada deixar de existir. “Mas, dirão alguns, se não tivermos leis para contê-los e castigos para detê-los, sempre haverá bandidos para tentar contra a vida de seus semelhantes, que levarão a mão à faca em todas as lutas nas quais se envolverem e vingarão a mais insignificante ofensa com a morte”. Este refrão é repetido sempre que se põe em dúvida o direito que a sociedade tem de punir os criminosos.

Entretanto, há um fato relacionado a este assunto que hoje já foi suficientemente provado: a severidade da pena não diminui a quantidade de crimes. Enforque e esquarteje os criminosos se quiser, e o número de crimes continuará igual. Elimine a pena de morte e não terá um crime a mais, eles diminuirão até. As estatísticas o provam. Mas se a colheita for boa, o pão barato e fizer bom tempo, o número de crimes cairá imediatamente. Isso também pode ser provado pelas estatísticas. A quantidade de crimes sempre aumenta ou diminui em proporção direta aos preços dos alimentos e ao estado do tempo. Não que a fome seja a causa de todos os crimes. Não é este o caso. Mas se a colheita é boa, e os alimentos podem ser comprados a um preço acessível; quando o sol brilha os homens, de corações mais leves e menos infelizes que de costume, não se entregam a paixões sombrias, nem mergulham a faca no peito de seu semelhante por motivos banais.

Além do mais, é também sabido que o medo do castigo nunca impediu que qualquer crime fosse cometido. Somos continuamente lembrados dos benefícios que a lei confere e dos efeitos benéficos do castigo, mas terão aqueles que nos falam tentado alguma vez fazer um balanço entre os benefícios atribuídos às leis e castigos e os efeitos degradantes que esses castigos tiveram sobre a humanidade? Tente calcular todas as perversas paixões que os atrozes castigos infligidos em nossas ruas despertaram na humanidade. O homem é o animal mais cruel que existe na face da Terra. E quem terá estimulado e desenvolvido esses instintos cruéis, desconhecidos mesmo entre os macacos, senão o rei, o juiz e os padres apoiados em leis que permitiam que a pele fosse arrancada em tiras, o breu fervente derramado sobre as feridas, os membros arrancados, os ossos esmagados, os homens despedaçados para que sua autoridade fosse mantida?

Tente avaliar a torrente de depravação libertada entre a sociedade humana pela política de delação encorajada pelos juízes e paga em dinheiro vivo pelos governos, a pretexto de auxiliar na descoberta de “crimes”. Basta apenas que entre nas prisões e veja no que se transforma um homem privado da liberdade e encerrado com outros seres depravados, mergulhados no vício e na corrupção que escorre das próprias paredes das nossas prisões. Basta lembrar que, quanto mais reformas sofrem estas prisões, mais detestáveis se tornam.

Nossas modernas prisões-modelo são mil vezes mais abomináveis do que as masmorras da Idade Média. Finalmente, basta lembrar a corrupção e a depravação que existem entre os homens, alimentadas pela ideia da obediência — que é a própria essência da lei — da punição; da autoridade arrogando-se o direito de punir, de julgar sem considerar nem a nossa consciência, nem a estima de nossos amigos; da necessidade de que haja carrascos, carcereiros e informantes — em uma palavra, de todos os atributos da lei e da autoridade.

Pense em tudo isto e certamente concordará conosco quando afirmamos que uma lei que inflige punições é uma abominação que deveria deixar de existir.

Na próxima revolução, esperamos que o grito de guerra seja: “Queimem as guilhotinas, destruam as prisões, expulsem os juízes, os policiais e os informantes — a raça mais imunda que existe sobre a face da Terra; tratem como a um irmão o homem que foi levado pela paixão a praticar o mal contra seu semelhante; e, sobretudo, retirem dos ignóbeis produtos da ociosidade da classe média a possibilidade de exibir seus vícios sob cores atraentes, e estejam certos de que apenas uns poucos crimes violentos virão perturbar a nossa sociedade”.

Chega de leis! Chega de juízes! Liberdade, igualdade e solidariedade humana são as únicas barreiras efetivas que podemos opor aos instintos antissociais de alguns seres que vivem entre nós.

PRISÃO

A origem da supressão sistemática da vontade individual dos prisioneiros, a sistemática redução de homens à condição de máquinas irracionais, executada durante os longos anos de encarceramento, é facilmente explicável: ela surgiu do desejo de impedir qualquer quebra da disciplina e da necessidade de manter o maior número possível de prisioneiros sob o controle do menor número possível de carcereiros. E, ao examinar a volumosa literatura que trata das prisões-modelo, podemos verificar que os maiores elogios são reservados exatamente àqueles sistemas que obtiveram resultados utilizando menos carcereiros.

A prisão que mata no homem toda vontade e toda força de caráter, que encerra nas suas paredes mais vícios do que se pode encontrar em qualquer outro ponto do globo, não foi ela sempre a universidade do crime? Não é a sala de um tribunal uma escola de ferocidade?

E assim sucessivamente.

É tão cômodo punir uma criança quando pratica uma travessura: isso acaba com toda a discussão!

Houve um tempo em que os loucos — que se julgava, fossem possuídos pelo demônio — eram tratados de maneira mais abominável que se possa imaginar. Acorrentados como animais eram temidos mesmo por aqueles que cuidavam deles. Abrir suas correntes e deixá-los em liberdade seria considerado então uma total insensatez. Então surgiu um homem — Pinel — que teve a coragem de abrir as suas correntes e oferecer-lhes palavras amigas e um tratamento fraterno. E aqueles homens que eram vistos como seres selvagens, sempre prontos a devorar qualquer ser humano que deles se aproximasse, cercaram seu libertador e provaram que ele estava certo quando mantinha a fé nas melhores características da natureza humana, afirmando que elas continuavam a existir mesmo entre os seres cuja inteligência fora ofuscada pela doença. A partir daquele momento, vencera a causa da humanidade. O louco deixou de ser tratado como uma besta selvagem, os homens reconheceram nele um irmão.

As correntes despareceram, mas os asilos — um novo nome para designar prisão — permaneceram e entre suas quatro paredes surgiu, aos poucos, um sistema tão terrível quanto o anterior. Foi então que os camponeses de um vilarejo belga, levados pelo bom senso e pela bondade que existia em seus corações, mostraram aos sábios e estudiosos das doenças mentais um novo caminho. Eles libertaram os doidos — abriram-lhes as portas de suas casas pobres, ofereceram-lhes um lugar a sua mesa, uma cama onde pudessem dormir, um lugar em suas fileiras para que cultivassem a terra, deixaram que frequentassem suas festas e bailes. E logo se espalhou a fama das “curas milagrosas” obtidas pelo santo a cujo nome fora consagrada a igreja de Ghell. O remédio aplicado pelos camponeses era tão antigo e tão simples — a liberdade —, que as pessoas cultas preferiam atribuir a cura à influência divina em lugar de aceitar a realidade. Mas não faltavam homens honestos e bondosos que compreendiam a força do tratamento criado pelos camponeses de Ghell, defendiam-no e dedicavam toda a sua energia à tentativa de vencer a inércia mental, a covardia e a indiferença do meio.

A liberdade e os cuidados fraternos provaram ser a melhor cura no nosso lado da supracitada e ampla fronteira “entre a insanidade e o crime”. O progresso fica naquela direção.

Diante da pergunta “o que fazer para melhorar o sistema penal?”, só há uma resposta: nada. É impossível melhorar uma prisão. Não se pode fazer absolutamente nada além de demoli-la.

A COMUNA DE PARIS

Durante cinco longos meses, Paris esteve cercada pelos alemães. Durante cinco meses, ela precisou lançar mão de seus próprios recursos vitais e de toda a força moral de que dispunha. Teve então a ideia de sua capacidade de resistência e percebeu o que ela significava. Percebeu também que o bando de tagarelas que havia tomado o poder não tinha a menor ideia sobre como organizar a defesa da cidade ou sobre como promover seu desenvolvimento interno. Viu um governo que se opunha a todas as manifestações de inteligência daquela metrópole poderosa. Entendeu, finalmente, que qualquer governo é importante para proteger-se das grandes catástrofes e incapaz de preparar o caminho para revolução. Durante o cerco, a cidade vira seus defensores, os operários, sofrendo as mais terríveis privações, enquanto os ociosos se regalavam em meio a um luxo insolente e, graças aos esforços do governo central, presenciara o fracasso de todas as tentativas de acabar com essa situação escandalosa. E cada vez que o povo demonstrava sinais de um desejo de libertar-se, o governo colocava novos grilhões na corrente. Essas experiências fizeram com que se chegasse naturalmente à conclusão de que Paris precisava libertar-se, tornar-se uma comunidade independente, capaz de satisfazer sozinha todas as aspirações de seus cidadãos.

No dia 18 de março de 1871, o povo de Paris levantou-se contra o governo que desprezava e detestava e declarou que Paris era agora uma cidade independente, livre e dona do seu destino.

Esta derrubada do poder central aconteceu sem a costumeira encenação teatral que normalmente acompanha as revoluções. Não houve tiros e o sangue não chegou a correr sobre as barricadas. Quando o povo armado saiu às ruas, os governantes fugiram, as tropas abandonaram a cidade e os funcionários civis refugiaram-se apressadamente em Versalhes, levando tudo o que podiam. O governo se evaporou como uma poça de sangue estagnado em meio à brisa da primavera, e no dia 19 de março Paris se viu livre da sujeira que havia maculado, sem que tivesse corrido quase nenhuma gota de sangue de seus filhos. Sob o nome de “Comuna de Paris”, nasceu uma nova ideia que havia de se tornar o ponto de partida para as revoluções futuras.

Depois de ter cercado o povo de Paris e fechado todas as vias de saída, o governo soltou sobre eles um bando de soldados embrutecidos pelo vinho e pela vida na caserna, homens que haviam sido publicamente instruídos para “acabar logo com os lobos e suas crias”.

Derribada dessa orgia louca, dos corpos empilhados após esse extermínio em massa, veio a vingança mesquinha, o chicote, os ferros, os golpes e insultos dos carcereiros, a quase-morte pela fome, enfim, todos os requintes da crueldade. Poderá o povo esquecer esses fatos?

Assim como nos parece desnecessária a existência de um governo fora da Comuna, deveríamos também perceber a inutilidade de um governo dentro dela.

Na Comuna a luta era pela conquista e manutenção da liberdade do indivíduo, pelo triunfo do princípio federativo, pelo direito de se unirem para a ação — enquanto que as guerras dos Estados tinham, e tem por objetivo anular estas liberdades, submeter o indivíduo, aniquilar a livre iniciativa, jungir os homens a uma mesma servidão perante o rei o juiz, o sacerdote e o Estado.

É neste ponto que reside toda diferença: há as lutas e os conflitos que matam; e há as lutas e os conflitos que impulsionam a humanidade pelos verdadeiros caminhos do progresso.

REVOLTA

Cidadãos e cidadãs, enquanto a sociedade reivindicar a lei de talião, enquanto a religião e a lei, a caserna e o tribunal, a prisão e a galé industrial, a imprensa e a escola continuarem a ensinar o desprezo supremo pela vida do indivíduo, não peçam aos revoltados que respeitem essa sociedade! Se quiser, como nós, que seja respeitada a liberdade inteira do indivíduo, e, consequentemente, a sua vida, deveis forçosamente repudiar o governo do homem pelo homem, seja qual for a sua forma; é-se forçado a aceitar os princípios da Anarquia. Deveis procurar, então, conosco, as formas da sociedade que melhor possam realizar este ideal, e por fim a todas as violências que nos revoltam.

E, hoje, a anarquia tem de carregar sobre seus ombros um fardo bem maior do que aquele de seus começos. Já não é uma simples luta contra camaradas de oficinas que se arrogam uma autoridade qualquer num agrupamento operário. Não é mais uma simples luta contra chefes de outrora, nem mesmo uma simples luta contra um patrão, um juiz ou um policial.

É tudo isso, sem dúvida, pois sem a luta de todos os dias, para que chamar-se revolucionário? A ideia e a ação são inseparáveis, se a ideia tem ascendência sobre o indivíduo; mas, sem ação, a própria ideia atrofia-se.

O anarquista deve apoiar a luta e a agitação de todos os dias contra opressores e preconceitos, manter o espírito de revolta em toda a parte onde o homem sente-se oprimido e possui a coragem de revoltar-se.

É aos jovens que quero falar. Que os velhos — os velhos de coração e de espírito, bem entendido — ponham o livro de lado para não fatigarem inutilmente seus olhos com uma leitura que nada lhes dirá.

Uma primeira questão, sei disso, apresenta-se. “O que eu me tornarei?” Você se perguntou muitas vezes. Com efeito, quando se é jovem, compreende-se que, após ter estudado uma profissão ou uma Ciência durante vários anos — à custa da sociedade, observe bem —, não é para fazer dela um instrumento de exploração, e seria preciso ser bem depravado, bem carcomido pelo vício, para nunca ter sonhado, um dia, aplicar sua inteligência, sua capacidade, seu saber, para ajudar a libertação daqueles que pululam hoje na miséria e na ignorância. Você é daqueles que sonharam, não é verdade? Bem, o que fará para que seu sonho se torne uma realidade?

Basta sair deste meio do qual você se encontra e onde é usual dizer que o povo nada mais é senão um monte de ignaros; venha para este povo e a resposta surgirá por si mesma.

De vez em quando chega um jovem, que sonha com tambores e barricadas e vem procurar cenas de sensação, mas deserta a causa do povo tão logo percebe que o caminho da barricada é longo, que o trabalho é penoso e que, neste caminho, nas coroas de louros que ele conquistar estarão misturados a espinhos. Com maior frequência, são ambiciosos insaciados, que, após terem fracassado em suas primeiras tentativas, procuram captar os votos do povo, porém mais tarde serão os primeiros a bradar contra ele, assim que este quiser aplicar os princípios que eles próprios professaram; talvez apontem os canhões contra a “vil multidão”, se ela ousar se mover antes que eles, os chefes, tenham dado o sinal.

Vocês, amadores de Ciência pura, se fossem tocados pelos princípios do socialismo, se compreenderam todo o alcance da revolução, que se anuncia, não observam que toda a Ciência deve ser refeita para que seja colocada de acordo com os novos princípios; que se trata de realizar neste domínio uma revolução cuja importância deve ultrapassar de muito aquela que se realizou nas Ciências no século XVIII? Não compreendem que a História — hoje “fábula convencionada”, sobre a grandeza dos reis, das grandes personagens e dos parlamentos — deve ser toda reformulada do ponto de vista popular, do ponto de vista do trabalho realizado pelas massas nas evoluções da Humanidade? Que a Economia social — hoje, consagração da exploração capitalista — deve ser toda elaborada de novo, tanto em seus princípios fundamentais quanto em suas inumeráveis aplicações? Que a Antropologia, a Sociologia, a Ética devem ser por inteiro remanejadas e que as próprias Ciências Naturais, encaradas sob um novo ponto de vista, devem sofrer uma profunda modificação quanto à maneira de conceber os fenômenos naturais e ao método de exposição? Pois bem, faça! Coloque sua inteligência a serviço de uma boa causa! Sobretudo, porém, venha nos ajudar com sua lógica rigorosa para combater os preconceitos seculares, para elaborar, pela síntese, as bases de uma organização melhor; sobretudo, ensine-nos a aplicar em nossos raciocínios a ousadia da verdadeira investigação científica e, dando o exemplo, mostre-nos como se sacrifica à vida pelo triunfo da verdade!

Enfim, vocês todos, que possuem conhecimentos, talentos, se têm coração, venham, pois, vocês e seus companheiros, colocá-los a serviço daqueles que mais precisam. E saibam que, se vierem não como senhores, mas como camaradas de luta; não para governar, mas para se inspirar em um novo meio; menos para ensinar do que para conceber as aspirações das massas, adivinhá-las e formulá-las, e depois trabalhar, sem descanso, continuamente, com todo o ímpeto da juventude, a fazê-los entrar na vida — saiba que, então, mas só então, você viverá uma vida completa, uma vida racional. Verá que cada um de seus esforços feitos neste sentido produz amplamente seus frutos — e este sentimento de acordo, estabelecido entre seus atos e mandamentos de sua consciência, lhe dará forças que você não suspeitava existir em você mesmo.

É fácil para mim ser mais breve falando aos jovens do povo. O socialismo moderno saiu das próprias profundezas do povo. Se alguns pensadores, oriundos da burguesia, vieram trazer-lhe a sanção da Ciência e o apoio da Filosofia, o fundamento das ideias que eles anunciaram não deixa de ser um produto do espírito coletivo do povo trabalhador. Este socialismo racional da Internacional, que é hoje nossa melhor força, não foi ele elaborado nas organizações operárias, sob a influência direta das massas? E os poucos escritores, que ofereceram seu concurso a este trabalho de elaboração, não fizeram outra coisa senão encontrar a fórmula das aspirações, que já emergiam entre os operários?

Todos vocês, jovens sinceros, homens e mulheres, camponeses, operários, empregados e soldados, compreendam seus direitos e venham conosco; venham trabalhar com seus irmãos para preparar a revolução que, abolindo toda escravidão, quebrando todas as correntes, rompendo com as velhas tradições e abrindo a toda Humanidade novos horizontes, virá enfim estabelecer nas sociedades humanas a verdadeira Igualdade, a verdadeira Liberdade, o trabalho para todos, e também para todos os plenos gozos dos frutos de seu trabalho, o pleno gozo de todas suas faculdades; a vida racional, humanitária e feliz!

REVOLUÇÃO

É, precisamente, sobre a questão do Estado que os socialistas se encontram divididos. Assim, no conjunto das facções que existem entre nós e que correspondem aos diferentes temperamentos, às diversas maneiras de pensar, e, sobretudo, ao grau de confiança na próxima revolução, esboçam-se duas grandes correntes.

Uma é composta de indivíduos que procuram fazer a revolução social dentro do Estado, mantendo a maior parte das suas atribuições, ampliando-as, inclusive para utilizá-las em benefício daquilo que preconizam. A outra é composta de criaturas que, como nós, vemos no Estado — não apenas na sua forma atual, mas até na sua própria essência e sob todas as fórmulas de que possa revestir-se –—um obstáculo à revolução social, um tropeço, por excelência, ao desenvolvimento de uma sociedade baseada na igualdade e na liberdade. E, mais ainda: os anarquistas veem no Estado a fórmula histórica elaborada para impedir o florescimento da sociedade norteada por esses dois princípios. Consequentemente, os anarquistas trabalham para abolir o Estado, e não para reformá-lo.

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