Cristianismo primitivo ou anabatista por Piotr Kropotkin*

“No século XVI houve um movimento análogo no centro da Europa. Na Boêmia teve o nome de movimento hussita; e da anabatista, na Alemanha, na Suíça e nos Países Baixos. Pode afirmar-se que estes movimentos, além de constituírem uma revolta contra o senhor, tinham um outra característica:a revolta completa contra o Estado e contra o direito romano e contra direito canônico, em nome do cristianismo primitivo.

O santo e senha desta sublevação, resumem-se neste dois pontos: liberdade absoluta do indivíduo – que não devia obedecer senão aos ditames da sua consciência – comunismo. E só mais tarde, quando o Estado e a Igreja conseguiram exterminar os mais ardentes defensores deste movimento e escamoteá-lo em seu proveito, é que ele, reduzido e privado do seus caráter inicial, converteu-se na Reforma de Lutero.

Este movimento começou por ser anarquista-comunista, pregado e posto em prática em algumas comarcas. E, abstraindo as suas fórmulas religiosas, que constituíram um tributo pago à época, encontramos nele a mesma essência das idéias que nós, os anarquistas, representamos atualmente: negação de todas as leis do Estado ou divinas – a consciência de cada indivíduo é que deve ser a única lei aceitável; a comuna, dona e senhora absoluta dos seus destinos, recuperando, dos senhores, todas as terras, e negando ao Estado o tributo pessoal ou em dinheiro; enfim, o comunismo e a igualdade postos em prática.

Foi por isso que, quando perguntaram a Denck, um dos filósofos do movimento anabatista, se reconhecia a autoridade da Bíblia, ele respondeu que, somente a regra de conduta que um indivíduo encontra, para si, nessa mesma Bíblia, é que constitui a obrigação da sua consciência. E, todavia, estas mesmas fórmulas, de si tão vagas ,pedidas emprestadas à linguagem eclesiástica – esta a autoridade, e que são tão indecisas, quando se trata de afirmar nitidamente e verdade e a liberdade, – esta tendência religiosa não encerrava já, em si, a certeza da derrota da sublevação?

Nascido nas cidades, este movimento estendeu-se rapidamente ao campo. Os camponeses recusaram-se a obedecer fosse a quem fosse; e, cravando, em guisa de bandeira, um sapato valho na ponta de uma choupa, apoderavam-se da terra dos senhores, quebravam as algemas da escravidão, escorraçavam do seu seio o sacerdote e o juiz, constituindo-se, depois, em comunas livres. Unicamente com a fogueira, com o potro e com o cutelo, matando mais de cem mil camponeses em pouco anos, é que o poder real ou imperial, aliado ao poder da igreja ou do papa, ou poder da Igreja reformadora – Lutero impulsionou, açulou a matança dos camponeses ainda mais violentamente que o papa – pôde acabar com estas sublevações que, por um momento, ameaçaram a constituição dos Estado nascentes.

A reforma luterana, filha do anabaptismo popular e apoiada no Estado, massacrou o povo e esmagou o movimento de que extraiu a sua origem, as suas forças. O resto deste imenso movimento refugiaram-se nas comunidades dos “Irmãos Morávios” que, por seu turno, foram destruídas um século depois pela Igreja e pelo Estado. Só que não puderam ser exterminados, foram procurar asilo, uns no sudoeste da Rússia, e outros na Groelândia, onde puderam continuar a viver em comunidade até nossos dias, mas negando-se a prestar qualquer serviço ao Estado.”

Trecho do livro “O Estado e seu Papel Histórico” de Piotr Kropotkin.

* Título próprio.

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