Igreja Primitiva, Monasticismo por Kenneth Rexroth

Desde que o cristianismo se tornou igreja, enquanto estrutura de poder, os doutores da Igreja vem depreciando ou negando a natureza comunal do cristianismo primitivo. Por outro lado, os radicais sociais muitas vezes adotaram a visão de que havia íntimas conexões, ou mesmo identidade, da igreja primitiva com os essênios. Um leitor sem preconceitos, distante de toda essa controvérsia, lendo o Novo Testamento pela primeira vez, certamente formaria a impressão de que o cristianismo primitivo foi comunista e que sua “vida comunal” permaneceu firme ao longo do ministério de Paulo, e se aprofundasse sua pesquisa, concluiria que esse comunismo continuou ao longo do tempo dos pais apostólicos. Estas narrativas de Atos são categóricas.

Atos 2.44-47:

“Todos os crentes se reuniam constantemente e repartiam tudo uns com os outros, vendendo suas propriedades e dividindo com os que tinham necessidade. Regularmente eles adoravam juntos no templo todos os dias, reuniam-se em grupos pequenos nas casas para a Comunhão, e participavam das suas refeições com grande alegria e gratidão, louvando a Deus. A cidade inteira tinha simpatia por eles, e cada dia o próprio Senhor acrescentava à igreja todos os que estavam sendo salvos ”.

Atos 4.32-37 e 5.1-10:

“Todos os crentes eram um só na mente e no coração, e ninguém pensava que aquilo que possuía era seu próprio; todo mundo estava repartindo o que tinha. Os apóstolos pregavam sermões poderosos sobre a ressurreição do Senhor Jesus, e havia uma calorosa fraternidade entre todos os crentes. Não havia pobreza — pois todos os que possuíam terra, ou casas, vendiam tudo e traziam o dinheiro para que os apóstolos dessem aos outros em necessidade. Por exemplo, um deles foi José (aquele que os apóstolos apelidaram de ‘Barnabé, o Pregador’! Era da tribo de Levi, e natural da ilha de Chipre). Ele, pois, vendeu um campo que possuía e trouxe o dinheiro aos apóstolos ”.
“Porém, houve um homem chamado Ananias (com sua esposa Safira) que vendeu uma certa propriedade, e trouxe somente uma parte do dinheiro, afirmando que era o preço total (a esposa dele tinha concordado com essa mentira). Mas Pedro disse: ‘Ananias, Satanás encheu seu coração. Por que você deixou ? Quando você afirmou que este era o preço total, estava mentindo ao Espírito Santo. A propriedade era sua para vender ou não, como quisesse. E depois de vendê-la, estava com você decidir quanto ia dar. Como pôde inventar uma coisa destas? Não estava mentido a nós, e sim a Deus’. Logo que Ananias ouviu estas palavras, caiu morto no chão! Todo mundo ficou com medo. E os mais jovens cobriram o morto com um lençol, levaram para fora e sepultaram Ananias. Cerca de três horas depois entrou a esposa dele, sem saber o que tinha acontecido. Pedro perguntou: ‘Vocês venderam aquela terra por este preço assim, assim?’. ‘Sim’, respondeu ela, ‘vendemos’. Então Pedro disse: ‘como é que você e seu marido puderam até mesmo pensar em fazer uma coisa destas — conspirar juntos para pôr aprova a capacidade do Espírito de Deus de saber o que está acontecendo? Bem ali, do lado de fora daquela porta, estão os rapazes que sepultaram o seu marido, e levarão você também’. Imediatamente ela caiu morta no chão; os jovens entraram, e ao ver que Safira tinha morrido, carregaram o corpo para fora e sepultaram ao lado do marido ”.

Esta narrativa é completamente determinante porque constitui um ponto crucial. Essa narrativa certamente não deixa nenhuma dúvida de que a igreja apostólica foi de fato comunalista. Tanto a Carta de Tiago como a Carta de Judas situam bem este contexto e é significante que ambos documentos são dirigidos aos irmãos no Senhor. Ao longo das várias cartas paulinas há inúmeras observações que podem ser interpretadas como antagônicas à vida comunalista da chamada “Igreja de Jerusalém”. Supõe-se que Tiago, irmão de Jesus, tenha sido bispo dessa Igreja, ou segundo documentos posteriores, “bispo dos bispos”. Quando começaram os ataques à celebração da Eucaristia como parte de uma refeição comum de toda comunidade cristã, a passagem chave foi I Corintios 11:20-22, na qual Paulo aparenta, ou certamente sugere, rejeitar essa prática.

“Quando vocês se reúnem para comer, não é a Ceia do Senhor que estão comendo. Mas sim a de vocês mesmos. Disseram-me que cada um engole apressadamente toda a comida que pode, sem esperar para repartir com os outros, de tal maneira que um não consegue obter o suficiente e sai com f orne, enquanto outro tem demais para beber e até fica bêbado. Como é? Isso é verdade realmente ? Vocês não podem comer e beber em casa, para evitar desmoralização para a igreja e para não envergonhar aqueles que são pobres e não podem levar nenhuma comida? Que esperam que eu diga a respeito dessas coisas ? Ora, é claro que não vou elogiá-los ”.

Esses primeiros hereges preservadores da vida comunal, os ebionitas e os nazarenos, não apenas rejeitaram as epístolas paulinas, como também reivindicaram uma continuidade das práticas de Tiago, da Igreja de Jerusalém, e da vida judia, cumprindo a Lei Velha como também a Nova, sendo freqüentemente chamados de essênios-cristãos. “Ebionita” significa “homem pobre”, e o termo “nazareno” pode ter sido empregado referindo-se a seitas semelhantes a dos essênios até mesmo antes do ministério de Jesus.

Eusebius, Hippolitus, e Origen, que já haviam iniciado a eterialização e a escatologia dos Evangelhos, observaram um extremo milenarismo nos ebionitas. Aparentemente eles viveram em comunidades separadas e, como os essênios, tomavam freqüentes banhos de purificação. As obras Sermões e Reconhecimentos embora pseudo-clementinas, curiosamente expõem algumas de suas idéias. Séculos depois os menonitas recorreriam a Sermões e Reconhecimentos como primitivas autoridades cristãs que autenticavam a fé que possuíam. Nós lemos sobre os antigos fundadores das mais variadas seitas comunistas hereges mas não sabemos quase nada a respeito delas. Contudo, aparentemente se destacam por provocar divisões na Igreja não apenas em cima de questões doutrinárias mas também pela rejeição ao seu mundanismo, e pelo reavivamento do comunalismo da Igreja apostólica. Antes do surgimento da Igreja Estatal de Constantino e da definição de seus dogmas por concílios ecumênicos convocados pelo imperador, essas seitas comunistas hereges atravessaram os séculos. Uma coisa notável nos ebionitas é que eles sobreviveram enquanto comunidade nas terras marginais do Oriente Próximo até serem absorvidos ou aniquilados pelo Islã no século VIL

O comunismo na Igreja Ortodoxa se situou bem distante do homem laico, tornando-se privilégio de monges, um comunismo monástico, celibatário e autoritário. As comunidades monásticas cristãs surgiram pela primeira vez nos desertos do Egito, e depois na Síria, Palestina, e Sinai — locais bem semelhantes ao das comunidades essênias do Qumran e do therapeutae egípcio descritas por Philo. Em termos toynbee tais comunidades monásticas podem ser descritas como “evidentes sucessores” dos essênios.

Os primitivos monges ficaram conhecidos entre nós como ermitões que não viviam em comunidades organizadas mas, conforme consta, em bandos frouxamente associados na beira do deserto perto do Nilo e no Baixo Egito. Curiosamente eles não parecem ter sido sempre celibatários. Muitos deles, como a soror mystica, por exemplo, viviam em companhia feminina. O que isso significa, nós não temos condições de saber, mas essa prática sobreviveu na vida eremítica, reaparecendo na antiga Igreja Irlandesa.

Consta que foi São Pachomius quem estabeleceu os primeiros monastérios organizados no Alto Egito. Embora os primitivos bandos de ermitões provavelmente tivessem alguma coisa parecida com uma comunidade, aparentemente eles não viviam juntos, muito menos compartilhavam refeições, trabalho, ou uma base de acordo comum. Todos estes fatores foram introduzidos na vida monástica por Pachomius e suas fundações, que eventualmente alcançou o número de sete mil pessoas enquanto ele viveu. Todas as futuras ordens monásticas ortodoxas surgiram a partir de Pachomius.

Um aspecto significante sobre São Pachomius foi ter sido um oficial no exército de Constantino. O monasticismo organizado surge como um reflexo da Igreja Estatal. Mesmo sob o imperador mais tolerante as comunidades cristãs tinham interesses diametralmente opostos à sociedade dominante. Os cristãos ainda aguardavam a Segunda Vinda. Embora, com o passar dos anos, o chiliasmo extremista se extinguisse diante do ortodoxismo, e o apocalipcismo passasse do imediato para o futuro remoto, a Igreja ainda era a comunidade dos remanescentes que seria salva, em todos seus valores antagonística àquela sociedade secular. A vida apostólica era celebrada pela ligação de todos os seus membros, todavia, o comunismo primitivo acabou relegado à condição de simples ajuntamento de pessoas forçadas a viver no mundo. A contínua insistência dos Evangelhos à prática da caridade conduziu, em uma medida considerável, ao “comunismo de consumo”. O monasticismo pré-constantiniano foi simplesmente uma forma mais extremada de vida do que o cristianismo ordinário. O fato de não serem governados por qualquer disciplina comunal tendeu a empurrar aqueles ascetas a práticas cada vez mais extremadas.

O advento de Constantino mudou não apenas a própria natureza da Igreja, alterou completamente todo conceito de reino. A Igreja deixou de ser um remanescente, passando a se auto-conceber enquanto apêndice da própria sociedade. Seus bispos tornaram-se parte da estrutura estatal. Suas disputas teológicas passaram a ser resolvidas por conselhos de estado formados por funcionários nomeados pelo imperador. Suas congregações se tornaram paróquias fixas em determinado local, com seus bispos administrando um determinado território. A organização apostólica e paulina de intervisitação, correspondência, e missionários viajantes, cessara por completo. A partir dali, em todos os futuros regulamentos monásticos haveriam parágrafos condenando monges Q pregadores vagantes. O contraste é tão grande que é fácil ver porque os futuros hereges e seitas protestantes passaram a encarar a Igreja estabelecida como uma organização que visava suprimir o cristianismo, e cuja cabeça — imperador ou papa — era o próprio Anticristo.

A vida apostólica, segundo a Igreja estabelecida, era um concilio de perfeição exclusivo para aqueles que possuíam uma vocação especial — os monges e as freiras. Futuramente, o termo “religioso” seria aplicado apenas a eles, em distinção aos laicos. O dinamismo da vida apostólica era tão grande que se lhe fosse permitido correr solto na sociedade, ele logo derrubaria a Igreja estabelecida, o império, ou qualquer instituição política mundana, sendo necessário, portanto, o mais rápido possível, isolar esse dinamismo. O monasticismo era um método de aprisionar a vida cristã. Foi por isso que a Igreja sempre insistiu com o monasticismo celibatário. Houveram apenas algumas pouquíssimas ordens religiosas que juntaram monges, freiras, e pessoas casadas em uma comunidade, e quando isso acontecia era em oposição às associações heréticas. O monasticismo secular, uma comunidade de famílias compartilhando todas as coisas em comum, vivendo uma vida modelada na dos apóstolos, torna-se uma contracultura, o remanescente que espera a vinda do reino messiânico. O passar do tempo e o imperador postergam a Segunda Vinda para um futuro remoto — a Igreja estabelecida é o reino.

Estas idéias são usualmente atribuídas a Santo Agostinho, mas tais idéias funcionam apenas no contexto dos sistemáticos detalhes de sua Cidade de Deus, que se ajustava ao colapso do império no Oeste. É significante o detalhe de que Santo Ambrósio, o mestre de Agostinho, ainda acreditasse, ou acreditasse mais ou menos, no comunismo da vida apostólica, enquanto que Agostinho não apenas pregava contra esse comunismo, como também constantemente denunciava a refeição comunitária. Os dois ritos mais importantes do culto cristão deixaram de ser funções comunais para serem reorganizados e redirecionados em apoio à religião Estatal. A Eucaristia tornou-se um sacramento executado pelo padre onde o laico participava apenas como espectador. O significado importante na insistência no batismo infantil era que amarrava a família secular à paróquia, facilitando a administração territorial — futuramente tanto os anabatistas por um lado, como Lutero e os católicos por outro, insistiram nesse ponto, cada um deles com diferentes finalidades.

Nas áreas distantes do controle da Igreja e do Império como a Irlanda e, em menor grau, a Inglaterra, ou em paragens remotas e heréticas como a Igreja Nestoriana, que trocou o Império Romano pelo Império Persa, o monasticismo foi mais eremítico e mais socialmente efetivo. No que diz respeito à essa Igreja e à sociedade secular a sua volta, cristã ou paga — uma medida aparente de quarentena foi estabelecida por São Pachomius, São Basil, e São Benedito.

A efetividade social do monasticismo organizado ocorreu em virtude da insistência dos fundadores no trabalho, uma insistência que aumentou de Pachomius para Basil, e dele para Benedito. Os primitivos monges do deserto seriam parasíticos comparados com uma comunidade cristã ordinária. Considerando onde viviam, não haveria outra maneira pela qual pudessem sustentar a si mesmos. Eles devotavam a si mesmos à oração, meditação, jejum e outras austeridades. No que diz respeito às fundações de São Pachomius, elas eram governadas por um regulamento bem elaborado. Os membros moravam separadamente em dormitórios em vez de cavernas e cabanas e tinham suas refeições e orações em comum. O abade da casa das madres era hierarquicamente superior aos demais conventos de homens ou de mulheres, escolhendo seus dirigentes, visitando-os periodicamente, e presidindo um encontro geral que ocorria a cada ano na casa das madres. Um sistema tão firmemente organizado como esse não surgiria novamente até as reformas beneditinas no princípio da Idade Média. O tempo que não era dedicado à oração era dedicado ao trabalho. Cada monastério tinha suas próprias glebas cultivadas, seminários de ofícios e era largamente auto-suficiente. Em outras palavras, eles alcançaram uma grande medida de “comunismo de produção”. O monasticismo de Pachomian floresceu até a conquista muçulmana do Egito, entrando em longo declínio; com exceção da Etiópia, está quase extinto.

O avanço de São Basil, de estudante para padre, de padre para bispo e fundador monástico, é atribuído à sua força como polemista contra a heresia ariana que estava ameaçando a integridade da Igreja e do Império. A vida monástica na Grécia e na Ásia Maior tinha sido largamente eremítica e não sujeita a qualquer disciplina tanto no modo de vida quanto na teologia. São Basil adaptou as regras dos monges Pachomianos às condições do patriarcado de Constantinopla, o que permanece até hoje na ortodoxia oriental. Originalmente estas regras enfatizavam grandemente o trabalho e a obediência rígida à doutrina ortodoxa. Com o tempo o monasticismo no Oriente ficou mais economicamente parasitário. Os monges viviam em terras que não cultivavam, cediam algumas áreas aos camponeses e contratavam trabalhadores, enquanto se dedicavam à oração e contemplação. Talvez devido a esta atmosfera de estufa, as heresias, cismas, e movimentos entusiásticos que surgiram da ortodoxia, se originaram nos monastérios. Eventualmente surgiriam cidades monásticas como Monte Athos, não completamente autônomas, parasíticas, isoladas da sociedade secular.

O monasticismo no império Ocidental surgiu por iniciativa de Benedito de Nursia. Embora todo o propósito e significado da vida monástica concebida por ele estivesse centrado na oração, contemplação, no “trabalho de Deus”, nas oito “horas” do Divino Ofício quando a comunidade solenemente recitava salmos, cantava hinos, e orava juntos na capela, na realidade, havia uma ênfase muito maior no trabalho no campo, nas lojas, na compilação de manuscritos, do que no monasticismo Oriental. A razão para isso é simples. O que tinha sido o Império Romano no Ocidente estava em ruínas. As cidades estavam sendo abandonadas, as terras não estavam sendo cultivadas, a população declinava de uma forma inacreditável, talvez à quinta parte do que tinha sido sob Marcus Aurelius, e os afazeres da civilização, notadamente a literatura e as artes, cessaram de ser produzidas pela sociedade secular. O monasticismo irlandês era uma exceção especial, contrario de qualquer outro, provavelmente com fontes pré-cristãs.

Os beneditinos derrubaram florestas, drenaram terras pantanosas, reorganizaram culturas camponesas, esculpiram e pintaram estátuas e quadros religiosos, copiaram manuscritos, principalmente religiosos, mas também alguns da cultura clássica romana. Muitos líderes monásticos no Ocidente estavam bastante conscientes de seu papel como preservadores da civilização. Cassiodorus fundou um monastério dedicado a preservar a herança literária da civilização latina. No caso dos beneditinos a “quarentena” do monasticismo organizado teve um efeito inverso. A sociedade secular fora demolida pelo caos. A civilização sobreviveu dentro dos monastérios em um verdadeiro estado de preservação, protegida por sanções sobrenaturais, dentro do estado secular selvagem.

Cada monastério beneditino era por si mesmo uma entidade. Não havia nenhuma administração central. O beneditinismo primitivo não era uma ordem religiosa no sentido lato da palavra. Por uma razão muito simples. A centralização requer facilidade de comunicação, e a comunicação estava interrompida. O regulamento beneditino é em alguns aspectos mais rígido do que o monasticismo basiliano ou pachomiano, mas ainda é mais racional, mais flexível, e mais comunitarista. O abade funciona como presidente do capítulo, um conselho de monges no qual cada participante tem direito a um voto. Os monges juram obedecer o regulamento e o abade, dessa forma não é fácil modificar o regulamento. O abade funciona como dirigente de uma espécie de centralismo democrático. As decisões estão sujeitas à discussão e ao voto, mas àquilo que for decidido deve-se obediência absoluta. Existem funcionários delegados para as mais variadas atividades da comunidade, nos campos, no hospital, nos seminários, na cozinha, no escritório e na biblioteca, cada inspetor está sujeito ao controle do abade e do capítulo.

Ao contrário dos essênios do Qumran ou dos monges primitivos, os beneditinos não concebiam a si mesmos como um remanescente salvo, antagônico a um mundo condenado à perdição. Bem pelo contrário, eles eram chamados para salvar o mundo no sentido mais literal. Não apenas eram chamados para salvar e reabilitar uma civilização caída, mas também para esparramar o Evangelho aos pagãos além dos limites oficiais do Império. Os beneditinos, juntamente com os monges irlandeses da ordem de São Columba, inaugurou uma segunda onda de atividade missionária depois da igreja primitiva, sendo os responsáveis pela cristianização da Europa Central e Escandinávia. A importância estratégica de tal atividade missionária enquanto defesa da civilização latina foi óbvia.

A ordem beneditina, com seus regulamentos e medidas administrativas são um depósito inestimável de informações envolvendo técnicas e problemas do companheirismo comunal diante da relação dinâmica com uma sociedade desorganizada. Infelizmente, embora alguns historiadores da Igreja pensem o contrário, o exemplo da vida beneditina parece ter exercido pouca influência direta nos grupos religiosos comunalistas posteriores, nas seitas heréticas ou nos movimentos dentro da Igreja.

Há apenas uma ordem religiosa de alguma importância que inclui padres, monges, freiras, e pessoas casadas, todos vivendo em comunidade, usualmente em uma aldeia, com um monastério numa extremidade, um convento na outra, e as pessoas seculares no centro. Trata-se da ordem fundada na Inglaterra por São Gilbert de Sempringham. Essa ordem nunca ultrapassou os limites da Inglaterra, embora seu exemplo tenha influenciado algumas poucas fundações continentais muito pequenas. Considerando que a Igreja sempre tenha temido esse tipo de organização, é de se estranhar que os gilbertinos aparentemente tenham exercido tão pouca influência na sociedade permanecendo desconectados com qualquer tipo de monasticismo secular que havia se tornado tão popular na véspera da Reforma, especialmente os béghards, os béguines, os Irmãos da Vida Comum, e os gottesfreundes ou Amigos de Deus.

Essa relação dinâmica ocorreu com os frades, especialmente os franciscanos. É significante o fato do próprio São Francisco sempre ter recusado a ordenação sacerdotal. Tanto os franciscanos como os dominicanos eram laico-orientados. Isso pode ser visto no próprio nome da sociedade fundada por São Dominic, a Ordem dos Pregadores, enquanto que os franciscanos se dedicavam à pregação, ouvir confissões, e manifestar pobreza como expressão de virtude e como testemunho ao mundo. A vida de São Francisco, como a do Papa João XXIII, é um exemplo perfeito do que acontece com a Igreja quando ela acidentalmente permite a uma pessoa que modela sua vida próxima ao Jesus histórico atingir uma posição de influência ou poder.

A Idade das Trevas e o começo da Idade Média transcorreram notavelmente livres de grandes seitas milenárias, comunistas ou heréticas. A solução beneditina parece ter sido efetiva em satisfazer a demanda implícita no cristianismo por uma vida comunitária apostólica e de pobreza. A doutrina de Santo Agostinho de que a própria Igreja era o reino parece ter sido aceita quase que universalmente. Havia uma febre milenar endêmica que pregava um milênio literal, no ano mil, ou em suas proximidades (muitos historiadores modernos negam que isso tenha acontecido exceto na imaginação dos historiadores do século XIX que julgavam que essa febre precisava ocorrer); o ano mil passou, o fim do mundo não veio, e o milenarismo desapareceu, naqueles dias não haviam seitas separadas proclamando-se “remanescente salvo”, isso provocou um efeito na população como um todo. Desde a queda de Roma até o século XII as energias espirituais humanas foram direcionadas para a construção da civilização medieval, uma civilização com poucas diversões. A chamada “síntese medieval” foi uma estrutura notavelmente auto-suficiente na história das culturas, e na medida em que se desenvolvia foi capaz de absorver todas as atividades possíveis de sua sociedade. A Igreja não era apenas uma extensão da sociedade, a sociedade era uma extensão da Igreja. Como nas culturas primitivas, o catolicismo era uma religião antropológica, um método de definir a sociedade.

A única heresia importante, a dos paulicianos-bogomiles-cathari-albigenses, não foi propriamente uma heresia, mas uma religião diferente, o agnosticismo e o manichaeanicismo. Ou seja, ela teve uma origem Oriental e pré-cristã, ocupando-se com o progresso da alma através das fases de um drama cosmogônico, um progresso auxiliado pelo conhecimento dos mistérios ocultos. Uma religião absolutamente distante da prática comunalista, e apenas incidentalmente milenarista. O julgamento, o fogo, e o reino, foram interiorizados como fases na salvação da alma. A igreja albigense era governada por uma elite de adeptos iluminados e onde quer que chegasse, como ocorreu brevemente na Bulgária, estava bem disposta a se estabelecer como igreja. Quando pretendeu se estabelecer no sul da França ela foi esmagada na mais sangrenta de todas as cruzadas — numa disputa que tomou a forma, significativamente, de guerra territorial.

O agnosticismo nunca foi suprimido totalmente, aqui e ali sempre surgiram vestígios de mistérios ocultos nas heresias pós Idade Média, mas eles permaneceram ocultos, difíceis de localizar, e destituídos de qualquer importância em qualquer movimento popular, exceto possivelmente na Fraternidade do Espírito Livre. Isso não impediu a Igreja de ver Chatari em toda parte, desde o final da Idade Média até a Reforma. Verdadeiramente dualistas, as doutrinas Manichaean, ou agnósticas são sumamente raras em evidências, não há nenhuma maneira de provar ou de contestar as proclamações ocultistas relativas aos últimos dias, por tratar-se de um ensino esotérico com acesso limitado às elites internas dos vários movimentos heréticos.

Na medida em que pesquisamos os muitos minúsculos grupos heréticos que entram em choque com as autoridades entre os séculos X e XII, é perfeitamente possível ver o surgimento de uma ortodoxia a partir do heterodoxo, um consenso que formaria um corpo de doutrina típica da vertente mais radical da Reforma, os taboritas, os anabatistas, e os sectários extremistas da guerra civil inglesa são exemplos perfeitos. Por exemplo, oito seitas diferentes negaram a existência do purgatório e a eficácia das orações para o morto. O batismo de crianças foi rejeitado por quinze desses grupos; a realidade da humanidade de Cristo, por quatro; a ressurreição do corpo, por três. O sacramento da Santa Ceia foi abandonado, enquanto comunhão ou sacrifício, em doze casos distintos. Quase todos os hereges negaram a doutrina da transubstanciação que ainda iniciava seu processo de definição pela própria Igreja. As orações e veneração dirigidas aos santos foram igualmente rechaçadas. A confissão auricular foi rejeitada por um número infinito, embora muitos grupos praticassem a confissão pública à congregação, como na Igreja primitiva. Houve nove casos de vegetarianismo, dez ou mais admissões da prática do amor livre, sexo grupai, ou orgias cerimoniais, e um número bem grande de acusações desprovidas de substância. Os catharistas e agnósticos influenciaram alguns na rejeição ao Velho Testamento, mas a maioria dos grupos acabou colocando mais ênfase no Velho Testamento do que na Igreja, enquanto alguns adotaram os preceitos da Lei Judia. Sem exceção todos eles rejeitaram a Igreja estabelecida, condenando seu clero de simonia, adultério, pederastia, ignorância, e hipocrisia.

Apenas uma pequena minoria é conhecida por ter praticado a comunidade apostólica de bens. Um local onde essa prática se destacou de uma forma notável foi na comunidade de Monteforte, um castelo na arquidiocese de Milão. Quando o arcebispo descobriu sua existência, prendeu todo mundo, levando-os para julgamento em Milão. Toda a população do castelo e de seus domínios havia sido convertida por um homem que conhecemos apenas por Giardo. Sob sua direção, os acusados mais articulados transformaram o julgamento em uma manifestação de auto-propaganda, por causa disso possuímos um registro bem completo de suas convicções. Eles não acreditavam em sacerdócio ou sacramentos, mas viviam vidas guiadas e santificadas através do Espírito Santo. Eles eram vegetarianos e não comiam nada que tivesse sido procriado através de relações sexuais. Aqueles que podiam viviam em rígida castidade com seus cônjuges, ou não casavam. Quando o arcebispo perguntou como a raça humana poderia se perpetuar se todo mundo vivesse assim, Giardo respondeu que quando os homens se tornassem puros eles se reproduziriam assexuadamente como abelhas. Os anciões do grupo mantiveram uma cadeia contínua de oração, noite e dia, alternando-se uns aos outros. Eles interpretavam a Trindade alegoricamente — o Pai como Criador, o Filho como a alma do homem, o amado de Deus, e o Espírito Santo como a sabedoria divina em cada alma humana. Desde a condessa, nobres, até ao camponês mais humilde praticavam um comunismo completo, vivendo uma vida largamente autônoma, independente da economia circunvizinha. Eles reivindicaram possuir irmãos por toda parte da Europa. Eles também sustentavam uma convicção, bem peculiar, de que para serem salvos precisariam morrer em tormento. Eles estavam tão convictos disso que se algum deles começasse a morrer de morte natural, ele chamaria os outros para torturá-lo até a morte. O arcebispo montou uma cruz e uma estaca e exigiu que eles escolhessem entre submissão à Igreja ou morte na fogueira. Apenas alguns escolheram a cruz. Quase todos se regozijaram com suas mortes.

Esta foi apenas a segunda execução oficial por heresia na Igreja Ocidental. Os primeiros foram um grupo de hereges em Orléans por volta de 1015. Aparentemente eram agnósticos, na realidade mais agnósticos do que cathari, o que chamaríamos hoje de intelectuais boêmios da classe alta. Eles foram acusados por um espião, que tinha sido treinado com o propósito de expor suas orgias sexuais rituais e adoração a demônios. Até onde sabemos, eles não praticavam a comunidade de bens. Os julgamentos por heresia no princípio da Idade Média ocorreram em cima das mais diversas acusações.

Um fator importante nas heresias que se seguiram foi a expansão do conhecimento da Bíblia, especialmente depois de ter sido traduzida no vernáculo. O apelo ao comunismo dos apóstolos era um apelo à Bíblia, e a autoridade exclusiva da Bíblia não era um fator importante nas primeiras heresias. A riqueza não-cristã da Igreja, por sua vez, era um fator importante. Bastou uma leve familiaridade com os Evangelhos e com as epístolas que eram lidas na Missa para perceber que se o cristianismo tivesse como modelo de vida pessoal a vida de Cristo e de seus discípulos, então a Igreja era literalmente o Anticristo, ilustrado pela personificação apocalíptica como a grande figura do mal, o Anticristo. A acusação foi certamente justa. Nada era mais perigoso para o poder da Igreja estabelecida do que aqueles pequenos bandos de leigos devotados a uma pobreza voluntária, ao estudo da Bíblia, e a boas ações, que começaram a florescer no século XII no norte da Itália, na França Oriental, na Renolândia, e Boêmia.

Em 1176, uma geração antes de São Francisco, Peter Waldo, um rico comerciante de Lyons, vendeu tudo que tinha para doar aos pobres. Reuniu um grupo de leigos piedosos que desejavam retornar à vida apostólica da pobreza e do evangelismo. Logo entraram em contato com outros pequenos grupos e o movimento cresceu rapidamente. O Papa Alexandre III aprovou seus votos de pobreza e os submeteu à obediência dos bispos locais, que na maioria dos casos lhes proibiram de pregar, mas o simples fato de viverem uma vida apostólica representava uma negação do clero enquanto representantes dos apóstolos. Quando o bispo de Lyons lhes proibiu de pregar eles decidiram obedecer a Deus em vez de obedecer ao homem, foram excomungados e expulsos da cidade. Três anos depois foram condenados pelo Papa Lucius III e pelo Conselho de Lyons em 1184.

Assim começou a seita herética dos waldenses ou Homens Pobres de Lyons que rapidamente se esparramou por toda a Europa tornando-se a maior e mais difundida de todas as heresias medievais. Incansavelmente perseguidos pela Igreja, e objeto de várias cruzadas, eventualmente se refugiaram nos vales monteses da Lombardia, Savoy, Tirol, Boêmia e Moravia onde conseguiram sobreviver durante séculos. Os waldenses checos foram absorvidos pelos taboritas ou Irmãos Checos. Os waldenses lombardos foram redescobertos pelos Reformadores, especialmente pelos protestantes ingleses, depois do massacre imortalizado no soneto de Milton, e em menor grau, pela política externa de Cromwell. Eles ainda habitam os mesmos vales monteses e recentemente estabeleceram capelas em algumas das cidades no norte da Itália.

Os Homens Pobres originários de Lyons praticaram a comunidade de bens e em várias ocasiões, conjuntamente com grupos waldenses, adotaram uma espécie de comunismo de assédio. Contudo, apesar de todas as mudanças doutrinais da seita através dos séculos eles nunca abandonaram a prática da pobreza voluntária. Eles foram acusados originalmente de recusar prestar juramentos, possuir armas, ou aprovar a pena de morte. Eventualmente, eles acreditavam que qualquer leigo poderia ministrar o pão e o vinho da comunhão desde que não estivesse em pecado mortal, eles rejeitaram o sacrifício da Missa, negaram que a Igreja papal fosse a Igreja de Cristo, ao mesmo tempo em que apontaram a Igreja papal como sendo a mulher escarlate do apocalipse e que nenhum dos seus ensinos ou práticas poderiam ser seguidos sem pecado.

Durante a Reforma no século XVI os waldenses foram extensivamente convertidos pelos reformadores e doutrinariamente assimilados pelo corpo principal do protestantismo em sua versão calvinista suíça. Ao longo do século XIX os protestantes ingleses, conduzidos pelo Coronel Beckwith, resolveram gastar uma considerável quantia em dinheiro construindo escolas, hospitais, igrejas, e outros serviços sociais em suas comunidades. Embora doutrinariamente divirjam muito pouco dos protestantes suíços ao norte, seu modo de vida nas aldeias montesas é bem diferente. Embora não pratiquem mais o comunismo, eles não são competitivos nem consumistas. Eles permanecem bem mais pobres do que deveriam ser, dedicando suas vidas a uma ética social e ajuda mútua, cooperação, e unidade espiritual íntima, não muito diferente dos padrões estritos das comunidades menonitas ou amish na América do Norte.

Trecho de Kenneth Rexroth em ‘Comunalismo’.

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