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Por que os “AnarcoCapitalistas”, não são Anarquistas.

Publicado: 3 de agosto de 2017 por franciscgiselle em Anarquismo, Economia, Política

O AnarcoCapitalismo, defende a iniciativa privada, agências privadas, e o capitalismo. Delegam a favor do capital no qual o pensamento Libertário/Anarquista se coloca como anticapitalista.

Entre as correntes do Anarquismo, temos coletivistas, individualistas, mutualistas, e outras. Correntes que posicionam contra esse pensamento falacioso que ancaps defendem. A Anarquia é baseada na negação do princípio da autoridade, do estado, onde não se tem mais governo, apenas indivíduos livres. A falácia dos ancaps, caí quando os mesmos demonstram seu comportamento extremo, mais parecido com conservadores, onde  a ideologia como algo místico, religioso. E são incapazes de aceitarem que admitir que seu sistema econômico levará ao acúmulo do monopólio pela classe dominante. E até mesmo o controle total de suas agências privadas, já que as mesmas segundos eles assumindo contratos “voluntários” são meios de garantir a ordem das coisas.

O AnarcoCapitalismo defende aquilo que o pensamento libertário e os Anarquistas desde o princípio são contra: O CAPITAL, a PROPRIEDADE PRIVADA, E SEUS FETICHES EM COLOCAR NAS MÃOS DE TERCEIROS (AGÊNCIAS, E TRIBUNAIS PRIVADOS, coisa que o estado já faz.) AS DECISÕES A SEREM TOMADAS SOBRE OS PROBLEMAS QUE PODEM OCORRER NA SOCIEDADE

Os Ancaps defendem feudos privados despóticos corporativos . Cidades Privadas, se fundamentam na falácia da hierarquia voluntária por contratos, ignoram a história social do mundo e da formação do estado, gostam de uma corporação, capitalistas e banqueiros. Defendem um conceito de propriedade lockeano, que foi refutado por proudhon que na prática fomenta a positivação da mesma acima até mesmo do individuo e sua auto propriedade, tratam o capital como essencial, são contra a autogestão, são deterministas sociais e econômicos, (os hoppeanos e blockanos) são anti-egoistas, coletivistas morais e aristocráticos, e vivem de punhetação mental, e nenhuma prática.

Não são anarquistas, no máximo voluntaristas lockeanos baseados um sistema extremo de conservadorismo liberal.

Sendo assim, os Ancaps são parte daquilo que Anarquistas posicionam-se contra: O Capitalismo e seus defensores.

1. – Por que somos contra as agências privadas, e tribunais.

A iniciativa privada, junto a seus tribunais, irão delegar a favor daqueles que tiverem condições de pagar por suas leis e formas de resolver os problemas que colocados em contratos irão agir contra aqueles que lesionarem seus titulares. Criando aí, uma punição entre os que não são participantes deste acordo, cria-se aí, uma classe dominante. Já, que se meu vizinho, não possuindo meios, ou condições para recorrer contra uma agência privada. Como posso eu, alegar que isto é liberdade? Como posso, pedir intervenção de um tribunal privado que ira punir aqueles que sequer podem recorrer.

Proudhon ampliou sua análise para além das instituições políticas, argumentando em “O que Propriedade?”, que o “proprietário” é “sinônimo” de “soberano”.

Para Proudhon:

“Capital”… no campo político é análogo a “governo”… A ideia econômica de capitalismo, as políticas de governo ou de autoridade, e a ideia teológica de igreja são três ideais idênticos, de várias formas, vinculados. Atacar uma delas é o equivalente a atacar todas elas… o que o capital faz ao trabalho, e o Estado à Liberdade, a Igreja faz com o espírito. Esta trindade do absolutismo é tão perniciosa na prática quanto o é na filosofia. O meio mais efetivo de oprimir os povos seria simultaneamente escravizar seu corpo, sua vontade e sua razão.

Sendo assim, o pensamento libertário não entraria em acordo com as agências e tribunais privados, assim, como não entra em acordo com os estatais, já que todos irão legislar a favor do proprietário, do opressor. As agências, reforçam o absolutismo dos donos do monopólio, escravizando de forma privada os trabalhadores. A diferença é a mudança no termo, retirar o estado, e dar a agência este poder. Pressionado dentro desta situação, o trabalhador sem saída, delega autoridade a um contrato, que os ancaps afirmam ser voluntário. Se a voluntariedade é delegar a autoridade a terceiros precisamente é uma deixa para permanecer o estado.

2. – Por que os Ancaps pensam com o feudalismo.

O feudalismo é o modo de organização social e político baseado nas relações servo-contratuais (servis). Sua origem aparece na decadência do Império Romano.

Quando referimos que o Ancap pensa como um senhor feudal, é pelo mesmo, basear os serviços contratuais naquilo que o feudo prega. As trocas que o Ancap pensa ser voluntária, não passa de mera exploração, entre alguém que domina e possuí toda a produção contra aquele que ganha somente por aquilo que produz, e no final acaba retomando este valor recebido para comprar pela mesma mercadoria que produz. Se o trabalhador está preso a terra, devendo obrigações ao senhor daquela terra isto, não é voluntário. No feudalismo o trabalhador é preso ao senhor feudal, no capitalismo é preso ao capitalista. O poder econômico que é concentrado nas mãos dos senhores feudais, é ganho através da exploração do trabalhador que para sobreviver submete-se a exploração. No Capitalismo, o poder econômico está nas mãos da burguesia comercial, financeira e industrial. Essa classe dominante que é dona do poder econômico, dita as formas e horários que o trabalhador deve produzir. O Ancap esquece-se que tanto os meios de produção, como as trocas voluntárias não são baseadas naquilo que é o capitalismo que fomenta e fortalece a prevalência do sistema visando o lucro, acúmulo de capital e enriquecimento daqueles que retém o Monopólio.

“Confiar ao monopólio capitalista a organização política da sociedade,é se submeter á lógica do poder monopolístico que é a do Estado governamentalista – quer seja o Estado oficial e real da ditadura proletário,quer seja o Estado real e oficioso da ditadura plutocrática ( agindo sob a cobertura de um Estado oficial reduzindo á impotência) .”
Trecho do livro: “Jean Bancal – Pierre Joseph Proudhon – Pluralismo e Autogestão”.

3. – Por que a Anarquia e o Capitalismo não se juntam.

O capitalismo tem como nas suas base a propriedade privada, liberdade de contrato, onde as trocas nos valores das moeda pela produtos é importante para a existência desse sistema, no anarquismo com suas várias formas o ideal é de ser igual para todos, os Anarquistas lutam pelo fim do Capitalismo, Estado por essas autoridades imporem o monopólio através da força. O anarquismo tem várias correntes mais com o propósito: lutar contra a opressão, é anticapitalista, e a liberdade, igualdade e fraternidade para todos. Isso muitas vezes é julgado impossível e poucos compreendem. Sendo impossível a união de Anarquismo e Capitalismo, já que ambos os dois são extremamente diferentes, de um lado o capital com seus governante onde visa o lucro material e privado, e no outro o anarquismo que preza a ausência de governo e propriedade privada.

 

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“Quando há em um Estado uma constituição qualquer, o poder se mantêm pela violência, poder que pode ser monopolizado por alguns homens, por meios diferentes. De qualquer forma, sempre haverá probabilidade de ocorrer os mesmos acontecimentos que agora ocorrem na Rússia – a guerra e a repressão dos revoltosos.”
Trecho de Leon Tolstoi em ‘Anarquismo e Cristianismo’.

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Daniel desempenhou um importante papel na política Babilônica. Fora levado para uma terra desconhecida, por um povo que atacou a sua nação, levou cativo os seus conterrâneos e continuaria por anos oprimindo a sua nação. Mas a Graça manifestou de forma surpreendente, que Daniel nunca causou mal àquele povo que facilmente poderíamos considerá-lo como infiel.
Na verdade só por isto mostra o quanto que Daniel compreendia o conceito de graça e misericórdia de Deus. Em uma sociedade cristã como a de hoje, em que mergulhamos em dicotomias, como lidaríamos com um povo que invade nossas terra e leva a população cativa e a escraviza? Facilmente consigo imaginar discursos com apelos religiosos, alegando que Deus vai trazer a sua Justiça e vai cortar a cabeça da serpente ou coisa do tipo.
Porém o que mais me surpreende na postura de Daniel, é o seu posicionamento diante legalistas que legislavam contra ele. O livro do profeta, relata algumas leis eram feitas para incriminar e perseguir especificamente Daniel e seus companheiros, não se relata que era para benefício da sociedade, mas sim perseguição política de uma classe de aristocratas querendo eliminar Daniel e companheiros.
Mas mesmo assim, Daniel em nenhum momento legislou contra os seus oponentes e nem mesmo para defender seu grupo de afinidade, no caso, os judeus perseguidos e cativos. Também nunca precisou elaborar leis que restringisse os atos pecaminosos daquele povo, que não eram poucos. Ele entendia o conceito coercitivo do governo, assim como Tolstói, na obra citada acima, aborda sobre o posicionamento do cristão diante o Estado:
“O cristão rechaça a lei do Estado porque não tem necessidade dela nem para ele nem para os demais, posto que julga a vida humana mais garantida pela lei do amor que professa, que pela lei sustentada pela violência.
Para o cristão que conhece as necessidades da lei do amor, as necessidades da lei da violência não somente não podem ser-lhe obrigatórias, como se apresentam diante dele como erros que devem ser denunciados e destruídos.
A essência do cristianismo é o cumprimento da vontade de Deus que não pode ser possível pela atividade exterior que consiste em estabelecer e aplicar formas exteriores de vida, a vontade de Deus é apenas possível pela atividade interior, pela mudança da consciência, e consequente melhora da vida humana. A liberdade é a condição necessária da vida cristã. A profissão do cristianismo livra o homem de todo poder exterior, e ao mesmo tempo lhe dá a possibilidade de esperar o melhoramento da vida que busca em vão pela mudança das formas exteriores da vida.
Os homens acham que sua situação melhora graças às mudanças das formas exteriores da vida, e, sem embargo essas mudanças nem sempre resultam em uma modificação da consciência.
Todas as mudanças exteriores das formas que não são consequência de uma modificação da consciência, não somente não melhoram a condição dos homens, como com frequência a agravam. Não são os decretos do governo que tem abolido a matança de crianças, as torturas, a escravidão, é a evolução da consciência humana que tem provocado a necessidade destes decretos; e a vida não melhora em passo mais rápido do que o passo do movimento da consciência, ou seja, a vida melhora na medida em que a lei do amor ocupa na consciência do homem o lugar antes ocupado pela lei da violência.”
Aliás, vale frisar este discurso moralista dos conservadores de serem os reguladores, ou como eles colocam, aqueles que preservam a moral da sociedade, em nada combina com o Daniel bíblico. O profeta em nada fez para legislar leis cujo o intuito era aplicar a força estatal os seus valores religiosos sobre um povo que ele não seguia tais valores.
O objetivo do Daniel era específico e assertivo, ele apenas deu testemunho e ganhou a alma do rei Dario. Seus atos eram para o benefício do povo babilônico, ele era conhecido por sua sabedoria e justiça, a ponto dos reinados passarem, três reis reinaram sobre Babilônia na época de Daniel, mas o profeta permanecia firme, e era bem visto por todos.
Os atos de Daniel foram tão marcantes que a própria bíblia relata o quanto que o rei ficou tocado com a postura de Daniel e sua fidelidade a Deus, a ponto do próprio Deus o guardar:
“Então o rei Dario escreveu a todos os povos, nações e línguas que moram em toda a terra: A paz vos seja multiplicada. Da minha parte é feito um decreto, pelo qual em todo o domínio do meu reino os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel; porque ele é o Deus vivo e que permanece para sempre, e o seu reino não se pode destruir, e o seu domínio durará até o fim. Ele salva, livra, e opera sinais e maravilhas no céu e na terra; ele salvou e livrou Daniel do poder dos leões. Este Daniel, pois, prosperou no reinado de Dario, e no reinado de Ciro, o persa.” Daniel 6:25-28
Com isso analiso o nosso comportamento. Tão ávidos a regular a posição do outro. Em embutir nossos conceitos morais aos demais. Ao mesmo tempo tão deficientes de Graça e testemunho. Tão fracos em nosso posicionamento, mas forte em exigir dos outros.

“Mas então uma dificuldade se apresenta inevitavelmente. Se é verdade que o governo é, necessariamente e sempre, o instrumento daqueles que possuem os meios de produção, por que milagre um governo socialista, nascido em pleno regime capitalista, poderá alcançar seu objetivo: abolir o capital? Será, como o querem Marx e os blanquistas, por meio de uma ditadura imposta revolucionariamente, por um golpe, e que decreta e impõe revolucionariamente o confisco das propriedades privadas em favor do Estado enquanto representante dos interesses coletivos? Ou será, como querem aparentemente todos os marxistas e a maioria dos blanquistas modernos, por meio de uma maioria socialista, enviada ao parlamento pelo sufrágio universal?

Proceder-se-á de uma só vez a expropriação da classe dominante pela classe economicamente subjugada? Ou se procederá gradualmente, obrigando os proprietários e os capitalistas a se deixarem privar pouco a pouco de todos os seus privilégios? Tudo isso parece estranhamente em contradição com a teoria no “materialismo histórico”, dogma fundamental para os marxistas. Não queremos aqui analisar estas contradições nem procurar saber o que pode haver de verdadeiro na doutrina do materialismo histórico.

Suponhamos, portanto, que o poder tenha, de um modo ou de outro, caído nas mãos dos socialistas e que um governo socialista tenha se constituído, e solidamente. Isto significaria que teria chegado a hora do triunfo do socialismo? Pensamos que não.

Se a instituição que é a propriedade individual está na origem de todos os males que conhecemos, não é porque tal ou qual terra traz este ou aquele nome em seus registros de propriedade; é porque esta inscrição dá, ao indivíduo em questão, o direito de usar a terra como bem lhe convém, e o uso que ele faz dela é ordinariamente mau, ou seja, traz prejuízo a seus semelhantes. Todas as religiões disseram, em sua origem, que a riqueza é um fardo que obriga aqueles que o possuem a zelar pelo bem-estar dos pobres e a ser, para eles, como um pai. E o direito civil precisa, desde sua origem, que o senhor da terra está sujeito a tantas obrigações cívicas que ele é mais o administrador dos bens no interesse público do que o proprietário no sentido moderno do termo. Mas o homem é feito de tal forma que, quando possui os meios de dominar e impor aos outros sua própria vontade, ele os usa e abusa até reduzir os outros indivíduos à escravidão e a um grau extremo de envilecimento. Foi o que aconteceu e acontecerá sempre com os governantes.”
Trecho de Errico Malatesta em ‘O Estado Socialista’

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Há dias muita discussão tem sido feita sobre a morte de Fidel. Parece que com ele o socialismo do estilo século XX foi morto. Até mesmo a Nova Esquerda prestou sua homenagem ao ditador, adotaram até mesmo o discurso do “fim justificam os mesmos”. Mas aí que quero chegar, que fim?

Ao contrário do que nós anarquistas fomos todos estes dias acusados, não queremos fazer coro com a direita. Mas também não vamos fingir que concordávamos com o regime de Cuba, as perseguições, exílios e execuções feitas por socialistas que não concordavam com o regime cubano, incluindo socialistas libertários, ou seja, nós anarquistas.

Apesar das discordâncias óbvias sobre as propostas e práticas, a Revolução de Cubana pode ter tido um papel importante na história, isto de certa forma é um fato. Mas agir como a esquerda age, de forma fundamentalista e dicotômica, negando o quanto que o povo cubano sofreu nestes anos, em prol de deificar um ídolo, é irresponsabilidade e infantilidade.

Mas convenhamos, estes comportamentos não são novidade para os socialistas autoritários. Afinal, defender a necessidade de uma ditadura; relativizar fracassos; justificar violações aos direitos humanos; apelo para militância armada; atribuir o papel de um salvador a um grupo ou indivíduo; acreditar em dados facilmente forjados que alegam que a sociedade é melhor neste modelo do que em outro; dicotomia ideológica a ponto de se achar melhor e mais correto que seus opositores; determinar prisões, exílios e execuções a indivíduos que se oponham aos seus ideais só confirmamos que marxistas e fascistas têm mais em comum do que imaginam.

É verdade que a ditadura cubana, assim como das demais ditaduras socialistas foram introduzidas de forma diferente das ditaduras daqui da América Latina, juntamente com as europeias nazistas e fascistas. De fato foram diferentes, nas ditaduras daqui houve uma aclamação popular pela moral, o qual abriu as portas para as Forças Armadas aplicarem o golpe militar, seguido por uma ditadura. Já em Cuba, grupos de guerrilhas civis travaram uma guerra contra uma já estabelecida ditadura e tomaram o poder, implantando outra.

Mas será que houve libertação do povo cubano? Discordo sobre a questão da libertação. Pois esta não houve, apenas trocaram os ditadores. Alguns podem dizer que Fulgêncio era pior do que Fidel, mas eu não opto pelo menos pior, ainda mais para mencionar a palavra “libertação”, já que este conceito não pode ser fracionado.

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Material gráfico nas ruas de Cuba, o qual mostra Raúl Castro e Barack Obama, com as respectivas bandeiras de Cuba e EUA, apresentando uma união.

E toda a conclusão se resume com o fim da história, que ainda não fora escrito, mas podemos ver alguns detalhes e supor o que ocorrerá a partir de então. Pois a pauta da esquerda sobre o assunto sempre foi ao estilo de que o “fim justifica os meios”, ou seja, no fim, Fidel iria cumprir o princípio comunista proposto na revolução. Porém não foi isso que ocorreu. Depois de cinco décadas de ditadura, as negociações com os EUA estão sendo retomadas, e agora com Cuba está se curvando novamente ao Imperialismo Yankee, e nada de comunismo. Muito pelo contrário, o povo cubano está sedento por consumir o capitalismo.

Cabe agora os anarquistas cubanos se posicionarem, como já se posicionaram nos anos anteriores, condenando os desmandos do governo castrista, como também a introdução do capitalismo yankee na ilha, inclusive incentivado agora pelo governo dito socialista.

“Os parlamentos, fiéis à tradição real e à sua transfiguração moderna, o jacobinismo, não fizeram senão concentrar os poderes nas mãos do governo. Funcionarismo para tudo – tal é a característica do governo representativo. Desde o princípio deste século se fala em descentralização, autonomia, e não se faz senão centralizar, matar os últimos vestígios de autonomia. A própria Suíça sofreu essa influência, e na Inglaterra deu-se o mesmo. Sem a resistência dos industriais e dos comerciantes, estaríamos ainda hoje a pedir a Paris licença para matar um boi em Brives-Guillarde. Tudo cai pouco a pouco sob a alçada do governo. Só lhe falta já a gestão da indústria e do comércio, da produção e do consumo, e os democratas socialistas cegos pelos preconceitos autoritários sonham já com o dia em que poderão regular no parlamento de Berlim o trabalho das fábricas e o consumo em toda a Alemanha.”

Trecho de Piotr Kropotkin em ‘O Governo Representativo’.

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Depois da icônica eleição do Rio, a disputa de segundo turno entre Marcelo Crivella e Marcelo Freixo, o qual o primeiro ganhou, mesmo sendo atacado por grandes mídias burguesas como a Globo e a Veja. Temos que tirar algumas lições a respeito.

Já explicamos aqui como os anarquistas encaram o voto por exatamente entenderem que a democracia burguesa é posta pela aristocracia que estabelece as suas regras. E até mesmo como eles veem como inútil qualquer tipo de apoio estratégico ou indireto. Mas queremos tratar de um fato específico, fazendo uma análise sobre o assunto.

Antes mesmo do domingo de eleição para o 2° turno, dia 30 de outubro, os partidaristas da esquerda já começaram a acusar anarquistas, alegando que quem votasse nulo, estava votando no Crivella. É interessante como este discurso muda conforme a necessidade deles. Quantas vezes o PSOL já orientou que seus membros deveriam votar nulo? Ou seja, é a conveniência que faz a orientação do voto para quem objetiva apenas o poder.

Quem dera que 41,5% dos eleitores do Rio de Janeiro fossem anarquistas. Eu levaria esta responsabilidade com um largo sorriso no rosto. Seguido claro, de uma tática de criar uma região autônoma, emancipar uma federação dentro do próprio município, e barrar através e luta popular a ação do próprio Estado, milícia e crime organizado (muitas vezes encarados como sinônimos). Pois de fato mais de 2 milhões de pessoa é muita gente. Quem dera se os militantes da Comuna de Paris, da Revolução Espanhola e da Ucraniana, tivessem essa população.

Só por aí vemos o quanto são infantis estes militantes partidários com seus argumentos dignos do fundamentalismo religioso, fazendo o discurso dicotômico de “quem não está conosco está com eles”. Esta análise bem equivocada, que nem pode ser chamada de análise, é bem a cara dessa militância ‘lacradora’, das cirandas e ‘bundaços’.

Não queria jogar areia no ‘bundalelê’ dos partidaristas, mas um dos conselheiros políticos do Crivella, César Benjamin, era do PSOL. Então vamos encarar que os orientadores políticos do Crivella tinham uma base bem agradável para a classe trabalhadora, pelo menos em termos de discurso.

Isto mostra o quanto os militantes do PSOL são carentes de autocrítica. Eles atribuem a culpa nos pobres que são burros em votar no Crivella, e nos anarquistas que votaram nulo. E se negam em analisar que o problema pode estar no colo deles.

A verdade está mais perto do que parece.

As queixas dos eleitores do PSOL explicam bem o motivo de que Freixo não foi aclamado no Rio. Bastou o resultado das eleições declararem o Crivella como novo prefeito do Rio que os militantes do PSOL começaram a xingar os pobres por serem burros e votarem no Crivella.

Me desculpem dizer isso, mas pobres costumam não ter tempo de ir na palestra da sua universidade, nem em suas passeatas e atos em pleno horário comerciais, quando tentam se informar, acabam caindo sempre nas mídias vendidas dos aristocratas. Se não compreenderem isso, vocês só repetirão as idiotices ditas pelos emergentes paulistas, que condenam os nordestinos por serem burros e votarem no PT.

O pobre não é burro, ele sabe o que quer, tem real noção de seu cotidiano. A questão é que vocês estavam muito ocupados com os seus discursos academistas para estar ao lado deles nas suas necessidades, a ponto deles não se verem representados pela esquerda. O mesmo não pode ser dito pela Universal e outras instituições religiosas.

Desculpas sobre a milícia a parte, mas a realidade é que os militantes do PSOL sempre estiveram longe das comunidades. Pois se tivessem trabalhando com a comunidade de base, com projetos sociais relevantes para a mesma, é certo que eles sentiriam mais representados pelo partido. E esta análise não serve apenas aos social-democratas, serve também aos anarquistas. Temos que sair da academia e da internet, para começarmos a compor a base da sociedade, e como dito por Bakunin, começar o trabalho de baixo pra cima.

Fora que o êxito de Crivella se deve a outros fatores além da Universal, e incluímos a Record, tal como anos de política sendo feita na plataforma do próprio PT e PMDB. Inclusive o sociólogo Roberto Dutra, em entrevista ao El País, já declarou que o Crivella tem se afastado do discurso religioso, e sua identidade ligada a Universal, pois tem se sentido prejudicado, já que o povo faz esta associação. Mesmo que a Universal faça ‘curral eleitoral’ para o Crivella, publicamente o candidato tem tentado se afastar deste estereótipo.

A BBC também abordou sobre o tema, que o crescimento a Bancada Evangélica não é responsável pela vitória do Crivella. E inclusive ele não corresponderá ao discurso mais moderado, discordando do posicionamento conservador da Bancada Evangélica, como alguns discursos dicotômicos dos partidarista de esquerda alegam, quase que retratando um mundo após apocalíptico pautado no conservadorismo religioso.

E isso deve ser encarado como ponto relevante. O político fez uma campanha onde justificou seus equívocos religiosos do passado. Também  sempre usou argumentos populistas, enquanto Freixo estava mais preocupado em se mostrar como um candidato de esquerda não tão radical quanto seus opositores tentavam pintar. O que agrada mais a população trabalhadora, que se preocupa mais com temas como saúde, educação, e programas sociais.

Inclusive este pode ser um ponto relevante. Sei que é uma análise um tanto prematura, mas este discurso aguado do Freixo, além de preocupante, por mostrar nos fazer questionar o quanto o candidato é capaz de mudar seu discurso em prol da aceitação popular, pode ter sido significativo para pessoas que esperavam uma posição mais a esquerda não se sentirem representados por Freixo. Parece tom esclarecido e de certa forma sofista de Freixo nos debates, não serviu muito para o seu objetivo final.

1-e-2-turno-eleicoes-rio-2016-crivella-e-freixoVale ressaltar que regiões onde no primeiro turno das eleições votaram no Freixo, no segundo, preferiram o Crivella. Como mostra o gráfico ao lado, onde as regiões em azul favorecem ao Crivella e em roxo ao Freixo. O que ocorreu que fez estas pessoas mudarem de opinião? Ainda insisto que se deve ao discurso feito pelo Freixo tentando bancar o garoto moderado.

Talvez a social-democracia deva começar a ser encarada como um espectro da direita ao invés da esquerda, assim como foi o liberalismo que um dia fora considerado de esquerda, quando se opunha a monarquia, e passou a se compor como direita quando tentou se reafirmar como defensor dos direitos individuais. Mas isto é papo para outra hora.

 

“De vez em quando chega um jovem, que sonha com tambores e barricadas e vem procurar cenas de sensação, mas deserta a causa do povo tão logo percebe que o caminho da barricada é longo, que o trabalho é penoso e que, neste caminho, nas coroas de louros que ele conquistar estarão misturados a espinhos. Com maior frequência, são ambiciosos insaciados, que, após terem fracassado em suas primeiras tentativas, procuram captar os votos do povo, porém mais tarde serão os primeiros a bradar contra ele, assim que este quiser aplicar os princípios que eles próprios professaram; talvez apontem os canhões contra a “vil multidão”, se ela ousar se mover antes que eles, os chefes, tenham dado o sinal.”
‘Ciência, apoio mútuo e anarquia’ por Piotr Kropotkin

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Esta frase de Kropotkin resume bem o pensamento de alguns militantes que militam pela autonomia do povo, porém depois acabam cedendo ao discurso paternalista do governo ‘menos pior’.

Seja outrora apenas por uma identificação de um grupo, buscando aceitação do mesmo, ou por uma revolta contra o sistema, estes militantes acabam virando as costas para o que um dia lutaram, e adotam argumentos reformista, como se através deles fossem possível lutar contra o sistema que tanto os revoltou.

É daí que permeia o pensamento do tal “voto crítico” ou “voto tático”. Discorda do político em questão, mas vota nele, em detrimento de um pior que é o seu concorrente. Então para este pior não assumir, apoia o ‘menos pior’, para que ele garanta um mínimo de direitos à sociedade. Ou pelo menos para livrar a consciência de um peso, e dar um senso de dever cumprido no sufrágio.

Diversos autores anarquistas já reforçaram estes conceitos. Autores que experimentaram regimes “democráticos” como Pierre-Joseph Proudhon ou Voltairine de Cleyre, como regimes socialistas, como Emma Goldman e Piotr Kropotkin. Todos eles foram categóricos em esclarecer o quanto é ilusório apoiar determinado governo, por mais que ele pareça se preocupar com os interesses sociais, tudo não passa de uma farsa que pretende perpetuar a feudalidade da sociedade, com uma estrutura piramidal da mesma, dividida por classes e plataformas.

Estas propostas governistas não consistem, ou melhor, não se encaixam nas propostas anarquistas. O indivíduo pode discordar das propostas anarquistas de não-governo, defender que é preciso passar por um período recessivo, um governo provisório até a implantação de uma sociedade livre e justa, porém tais conceitos em nada tem relação com o anarquismo, que sempre teve como proposta implantar de imediato uma sociedade sem hierarquias, como esclarece Emma Goldman em ‘O indivíduo, a sociedade e o Estado e outros ensaios’:

“Não se trata de substituir um partido por um outro a fim de que ele controle o governo, nem de camuflar um regime autocrático sob slogans proletários, nem mascarar a ditadura de uma nova classe sobre uma classe mais antiga, nem se entregar a manobras quaisquer nos bastidores do teatro político. Trata-se sim, de suprimir completamente todos os princípios autoritários para servir a revolução.”

Muitas vezes sou questionado sobre o que a minha opção de não voto beneficiou a sociedade. Mas o que as pessoas não entendem é que não é a minha opção de não votar que tem que convencer a sociedade por seus benefícios, mas sim é a opção de votar em um político que tem que me convencer a sair de casa e votar em um indivíduo acreditando que terei um mínimo de vantagem.

A questão é que o posicionamento radical dos anarquistas possuem como base todo um histórico político, onde perceberam que todas as experiências governistas, ditas sociais ou livres, só resultam em exploração e alienação. Pierre-Joseph Proudhon é bem categórico quanto a isso, e esclarece em ‘Sociedade Sem Autoridade’ que todas estas propostas só resultam em um governo mais centralizador:

“Todo esforço para dar ao Poder uma aparência mais liberal, tolerante, social, falhou invariavelmente; tais esforços foram ainda mais em vão quando tentaram dar ao Povo uma parcela maior do Governo; como se as palavras, Soberania e Povo, as quais tentavam acorrentar, fossem tão naturalmente antagônicas quanto essas outras duas Liberdade e Despotismo.”

Então qual o sentido em apoiar um governo ou político, mesmo que ele replique em seus discursos  valores como liberdade e igualdade? Basta analisar a máquina pública e entender que todo o processo serve para perpetuar os poderes, no mínimo apresentar à sociedade a necessidade de um corpo político que paute suas necessidades e direitos. Gerando a sensação da eterna dependência de um corpo parlamentar. Em sua obra ‘A Política Parlamentar no Governo Socialista’, Errico Malatesta detalha bem o processo das leis no sistema, citando seus vícios e ilusões:

“Se considerarmos também os canais por onde passa um projeto antes de se tornar lei, as concessões e as transações às quais são levados os deputados para poder chegar a um acordo; se fizermos um balanço das mil e uma considerações de partido e de clientela estrangeira ao que deve fazer objeto de uma lei e que não têm também uma influência determinante sobre o voto dos deputados, não será nada difícil compreender que a lei, uma vez elaborada, não representa mais os interesses nem a vontade nem as idéias de ninguém. E isto sem falar nos novos obstáculos que são os votos dos senadores e a aprovação do rei ou do presidente que complicam a um grau mais ou menos grande todas as constituições que existem.”

Para nós anarquistas, entendemos que a estruturação dos poderes só servem para perpetuar o mesmo modelo social, muda-se algumas coisas, algumas alterações que o povo pode tirar como benefícios, porém são só para evitar que a sociedade se revolte e derrube o poder de vez.

Piotr Kropotkin, entende que em muitos casos, na verdade, na maioria deles, é usados conceitos de liberdade e autonomia, quando na realidade a prática é a contrária. São apenas plataformas para chamarem a atenção e cativarem o povo, como vanguardistas que se colocam a disposição para trazer as soluções que o povo necessita, porém, tudo o que fazem é colocar uma coleira no povo, como é explicado em ‘O Governo Representativo’:

“Os parlamentos, fiéis à tradição real e à sua transfiguração moderna, o jacobinismo, não fizeram senão concentrar os poderes nas mãos do governo. Funcionarismo para tudo – tal é a característica do governo representativo. Desde o princípio deste século se fala em descentralização, autonomia, e não se faz senão centralizar, matar os últimos vestígios de autonomia. A própria Suíça sofreu essa influência, e na Inglaterra deu-se o mesmo. Sem a resistência dos industriais e dos comerciantes, estaríamos ainda hoje a pedir a Paris licença para matar um boi em Brives-Guillarde. Tudo cai pouco a pouco sob a alçada do governo. Só lhe falta já a gestão da indústria e do comércio, da produção e do consumo, e os democratas socialistas cegos pelos preconceitos autoritários sonham já com o dia em que poderão regular no parlamento de Berlim o trabalho das fábricas e o consumo em toda a Alemanha.”

 

Não há como encarar de outra forma. Todos os anarquistas encaram os jogos de poder, inclusive através do voto, e o suposto governo democrático de direito, como meras ilusões. Que se apropriando de discursos populares, penetram em movimentos, e usam destes para se promoverem. Todo o discurso resulta em apenas aplacar a revolta do povo o que Mikhail Bakunin em ‘A ilusão do sufrágio universal’ chama de radicais:

“Os homens acreditavam que o estabelecimento do sufrágio universal garantia a liberdade dos povos. Mas infelizmente esta era uma grande ilusão e a compreensão da ilusão, em muitos lugares, levou à queda e à desmoralização do partido radical. Os radicais não queriam enganar o povo, pelo menos assim asseguram as obras liberais, mas neste caso eles próprios foram enganados.

Eles estavam firmemente convencidos quando prometeram ao povo a liberdade através do sufrágio universal. Inspirados por essa convicção, eles puderam sublevar as massas e derrubar os governos aristocráticos estabelecidos. Hoje depois de aprender com a experiência, e com a política do poder, os radicais perderam a fé em si mesmos e em seus princípios derrotados e corruptos. Mas tudo parecia tão natural e tão simples: uma vez que os poderes legislativo e executivo emanavam diretamente de uma eleição popular, não se tornariam a pura expressão da vontade popular e não produziriam a liberdade e o bem estar entre a população?

Toda decepção com o sistema representativo está na ilusão de que um governo e uma legislação surgidos de uma eleição popular deve e pode representar a verdadeira vontade do povo. Instintiva e inevitavelmente, o povo espera duas coisas: a maior prosperidade possível combinada com a maior liberdade de movimento e de ação. Isto significa a melhor organização dos interesses econômicos populares, e a completa ausência de qualquer organização política ou de poder, já que toda organização política se destina à negação da liberdade. Estes são os desejos básicos do povo. Os instintos dos governantes, sejam legisladores ou executores das leis, são diametricamente opostos por estarem numa posição excepcional.”

Lembrando que o conceito abordado por Bakunin não se refere aos partidos políticos, regulados pelo Estado, que possuem o objetivo de conquistar o poder. Que é o entendimento mais comum do termo hoje. Mas sim, um grupo de militantes com um único propósito. No caso a emancipação do povo.

Da mesma forma Voltairine de Cleyre compartilhava da opinião dos companheiros mensurados anteriormente. E ela constata em ‘Ação direta’ que até as leis que beneficiem os trabalhadores, caso consigam ser aprovadas, servem apenas como parâmetro para obrigar a sua prática:

“Os ativistas políticos nos dizem que as cadeias econômicas só serão quebradas pela ação dos partidos de trabalhadores no poder mediante eleições; o voto colocará os meios de produção e de vida nas mãos do proletariado; que também assumirá o comando das florestas, das minas, das fazendas, das bacias hidrográficas, das fábricas, dos silos; da mesma forma, terá sob seu controle o poder militar para defender seus interesses, todo esse domínio será e estará a serviço do povo.

E depois?

Depois, haverá paz, criatividade, obediência à lei, paciência, e sobriedade (como Madero disse aos peões mexicanos após vendê-los a Wall Street)! Até mesmo se alguns de vocês forem privados de direitos civis ou de privilégios, não é necessário revoltar-se nem mesmo contra essas coisas, pode deixar que “o partido tomará as devidas providências”.

Bem, eu já declarei que, ocasionalmente, algumas coisas boas podem resultar da ação política — e não necessariamente da ação de partidos proletários. Mas estou plenamente convencida de que cada benefício alcançado é mais do que anulado pelo malefício que traz a tiracolo; também estou plenamente convencida de que, ocasionalmente, cada malefício resultante da ação direta é mais do que anulado pelo benefício que traz a tiracolo.

Quase todas as leis que foram moldadas originalmente com a intenção de beneficiar os trabalhadores, viraram armas nas mãos dos seus inimigos, ou se tornaram letra morta a menos que os trabalhadores pelas suas organizações obriguem diretamente sua observância. De forma que no final das contas, e de todas as maneiras, é na ação direta que devemos depositar nossa confiança. Como exemplo da ineficácia de uma lei, basta observar a lei antitruste que supostamente beneficiava o povo em geral e o proletariado em particular. Cerca de duas semanas depois que a lei entrou em vigor, 250 líderes sindicais foram citados para responder processo acusados de truste. Esse foi o efeito da lei aos grevistas de Illinois.”

Um exemplo deste é a lei em que permite que o pai falte o trabalho para levar o seu filho ao médico uma vez ao ano, como consta no art. 473, da CLT, o inciso XI. O que foi motivo de comemoração de mais uma conquista trabalhista, na verdade é a oficialização de que o filho tem o direito de ficar doente uma única vez ao ano para que seu pai possa levar para que ele seja atendido por um médico. Para quem é pai sabe que as vezes que o filho necessita de atendimento médico são bem maiores.

Assim concluímos que o pensamento anarquista passa longe de qualquer conceito governista, de qualquer coisa que envolva o “voto crítico” ou “voto tático”, e qualquer ilusão. Que todas as conquistas trabalhistas se devem unicamente a luta popular, explicado no texto de Voltairine de Cleyre. A emancipação acontece fora das urnas!

“E o que é a democracia? A soberania do povo, ou melhor, da maioria nacional. Sempre que a soberania do homem, em vez de a soberania da lei, a soberania da vontade e não a soberania da razão, em uma palavra, as paixões em vez do direito. Quando as pessoas passaram da monarquia para a democracia, há, sem dúvida, o progresso, porque o multiplicam soberano, o mais provável é que a razão prevaleça sobre a vontade, mas o fato é que nenhuma revolução é realizada no governo e subsistente o mesmo princípio. E isso não é tudo: o povo rei não pode exercer a sua soberania em si: é obrigado a delegar os gestores de energia. Isto é o que aqueles que procuram assiduamente repetiu sua aprovação. Estes funcionários são cinco, dez, cem, mil, o que importa o número ou o nome? Será sempre a regra do homem, o Estado de vontade e favor.”
‘O que é democracia?’ por Pierre-Joseph Proudhon

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Primeiramente, parafraseando Elisee Reclus: “votar significa abrir mão do próprio poder.”

Não acredito nas urnas. Nem se precisa explicar muito a respeito, caso desconheça há centenas de vídeos e artigos que abordam o quão frágil é a segurança de nossas urnas eletrônicas. Fora a própria desconfiança que tenho no processo eleitoral, já que houve tantas críticas de pessoas que foram impedidas de votar, por alguém já ter votado usando sua identidade. Fora que o próprio modelo constrói uma metodologia em que apenas os piores sejam indicados, e as coligações e financiamentos, garantem que apenas os mais comprometidos com a aristocracia sejam eleitos.

Todo poder emana no povo? É corretíssimo, chegar a esta conclusão. Até porque um governo estabelecido pela minoria só se sustenta com a aprovação, mesmo que através da ignorância, da sociedade. A Revolução Francesa caracteriza bem isso. Mas é bem diferente do que acreditar que é o povo quem governa. Errico Malatesta, em ‘O Estado Socialista’ por

“De nada serve dizer que, quando o governo tiver saído do povo, ele servirá os interesses do povo. Todos os poderes saíram do povo porque é somente o povo que pode dar a força, e todos oprimem o povo. De nada serve dizer que, quando não houver mais classes privilegiadas, o governo será forçosamente o órgão da vontade coletiva: os próprios governantes constituem uma classe e se desenvolve entre eles uma solidariedade muito mais poderosa do que a existente entre as classes fundadas sobre o privilégio econômico.

É exato dizer que o governo é hoje o escravo da burguesia. Mas isto tem menos a ver com o fato de que é um governo do que com o fato de que seus membros são burgueses. De resto, desde que se trate de um governo, ele odeia seu senhor, como todos os escravos, e o engana e rouba. Não era para servir a burguesia que Crispi colocava os bancos sob regulamentação, e também não era para servi-la que ele violava o Estatuto.

Aquele que está no poder quer nele permanecer e quer, a qualquer preço, fazer triunfar sua própria vontade. Por sinal, a riqueza é um instrumento de poder extremamente eficaz, e mesmo que ele não abuse dela e não roube pessoalmente, o governo engendra em torno dele uma classe que lhe deve seus privilégios e que está interessada em que ele permaneça no poder. Os partidos do governo são, no plano político, o que as classes proprietárias são no plano econômico.”

Abordado tais conceitos básicos, declararei aqui as minhas razões de não-voto. Não espero que vá surtir algum efeito no voto de alguém, mas apenas para esclarecer que acredito em outras possibilidades.

O poder para o povo não vem do voto:

Acredito que somos todos agentes políticos, e isso vai muito além das eleições. Se quiserem viver em uma democracia, acho melhor pensarem sobre isso, pois a democracia só existe quando o povo participa das decisões a serem tomadas. Então pense em formas de participar mais ativamente, seja através de organizações, grupos políticos ou até movimentos sociais. Mas é necessário entender que não basta apenas votar para construir uma sociedade democrática.

Em ‘Ação Direta’, Voltairine de Cleyre descreve uma crítica as lutas populares que visam estabelecer um governo, e que elas em nada favorecem o proletariado, muito pelo contrário, eles continuam enganados:

“Eles (os trabalhadores) têm que aprender que seu poder não está na força do seu voto, mas na sua habilidade de parar a produção. É um grande engano supor que os assalariados constituem a maioria dos eleitores.”

A sociedade tem que entender de uma vez por todas que quem trabalha e produz é explorado, e não recebe os benefícios de seu trabalho, e ainda é governado por alguém que só tem a contribuir com este fator. Que quando pauta a luta popular, garante alguns programas sociais, mas não muda muita coisa. Isso quando não transfere a propriedade privada, para estatal, e perpetua a Mais Valia, explorando o trabalhador da mesma forma.

Eles não dão ao trabalhador opção de interferir de fato na política. A organização política é imposta à sociedade, não é uma organização de baixo para cima, mas sim de cima para baixo. Mikhail Bakunin, deixou isso bem claro no ‘Discurso no Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores’:

“Detesto a comunhão, porque é a negação da liberdade e porque não concebo a humanidade sem liberdade. Não sou comunista, porque o comunismo concentra e engole, em benefício do Estado, todas as forças da sociedade; porque conduz inevitavelmente à concepção da propriedade nas mãos do estado, enquanto eu proponho a abolição do estado, a extinção definitiva do princípio mesmo da autoridade e tutela , próprios do Estado, o qual , com o pretexto de moralizar e civilizar os homens, conseguiu até agora somente escravizá-los, persegui-los e corrompê-los. Quero que a sociedade e a propriedade coletiva ou social estejam organizadas de baixo para cima por meio da livre associação e não de cima para baixo mediante da autoridade , seja de que classe for. Proponho a abolição da propriedade pessoal recebida em herança, a qual não é senão uma instituição de Estado, uma consequência direta dos princípios do Estado. Eis aí senhores por que eu sou coletivista e não comunista.”

Não existe representação:

Não acredito na representação. Se você compreender o que é necessário para se candidatar, entenderá que este processo é cercado por alianças, como em ambientes do tipo são propícios para os mais variados tipos desprovidos de ética. Estes acordos sempre atendem os requisitos daqueles que ofereceram favores. E geralmente estes são: empresas que querem lucrar mais e mais e políticos corruptos.

Para anarquistas este conceito já é bem conhecido, não tem nem o que ficar detalhando. Quase todos os teóricos anarquistas abordaram o tema do sufrágio e esclareceram o motivo que o voto não funciona. Elisee Reclus, por exemplo, em ‘Por que os Anarquistas não votam’, explica a inutilidade de acreditar que há uma representatividade:

“O poder exerce uma influência enlouquecedora sobre quem o detém e os parlamentos só disseminam a infelicidade.

Nas assembleias acaba sempre prevalecendo a vontade daqueles que estão, moral e intelectualmente, abaixo da média.

Votar significa formar traidores, fomentar o pior tipo de deslealdade.

Certamente os eleitores acreditam na honestidade dos candidatos e isto perdura enquanto durar o fervor e a paixão pela disputa.

Todo dia tem seu amanhã. Da mesma forma que as condições se modificam, o homem também se modifica. Hoje seu candidato se curva à sua presença; amanhã ele o esnoba. Aquele que vivia pedindo votos, transforma-se em seu senhor.

Como pode um trabalhador, que você colocou na classe dirigente, ser o mesmo que era antes já que agora ele fala de igual para igual com os opressores? Repare na subserviência tão evidente em cada um deles depois que visitam um importante industrial, ou mesmo o Rei em sua ante-sala na corte!

A atmosfera do governo não é de harmonia, mas de corrupção. Se um de nós for enviado para um lugar tão sujo, não será surpreendente regressarmos em condições deploráveis.”

Este trecho de Reclus exemplifica muito bem o sistema que é o modelo representativo, onde automaticamente é selecionado os políticos capazes de negar o próprio povo para sustentar o poder, as classes, e o formato de uma sociedade piramidal.

O governo não propõe soluções efetivas:

Não acredito em soluções sociais vindas do Governo. Pode até chocar no início, mas se você pensar no volume que é os impostos arrecadados no país verá a migalha que é estes programas assistencialistas promovidos por um governo paternalista. Nem vou entrar no debate dos reaças que alegam que tais projetos oneram a máquina pública. Pensamento idiota e egoísta de quem nunca soube fazer conta para avaliar o quão é pesado o nosso imposto para avaliar o quanto recebemos disso em serviços públicos.

Toda a carga tributária e gestão pública serve apenas para sustentar o sistema. Os benefícios sociais são meios para evitar a revolta popular. O reformismo não leva a nada, são pílulas homeopáticas, considerando a emancipação de fato. Algo descrito por Piotr Kropotkin em ‘O Governo Representativo’:

“Semelhante neste ponto aos déspotas, o governo representativo – chame-se ele Parlamento, Convenção, Conselho da Comuna, ou tenha outro nome mais ou menos ridículo, seja nomeado pelos prefeitos de um Bonaparte ou arqui-livremente eleito por uma cidade insurgida, – o governo representativo procurará sempre alargar a sua legislação, reforçar sempre o poder, interferindo em tudo, matando a iniciativa do indivíduo e do grupo para as suplantar pela lei. A sua tendência natural, inevitável, será apoderar-se do indivíduo desde a sua infância e levá-lo de lei em lei, da ameaça a punição, do berço a cova, sem nunca o liberta-lo da sua vigilância. Viu-se alguma vez uma Assembleia declarar-se incompetente ela para o que for? Quanto mais revolucionária for, mais tratará de se meter em tudo o que não for da sua competência. Legislar sobre todas as manifestações da atividade humana, intervir nas menores particularidades da vida dos “seus súditos” – é a própria essência do Estado, do Governo. Criar um governo, constitucional ou não, é constituir uma força um fatalmente procurará apoderar-se de tudo, regulamentar todas as funções da sociedade, sem reconhecer outro freio além do que nós lhe poderemos opor de tempos a tempos pela agitação ou insurreição. O governo parlamentar – ele próprio disso deu a prova – não faz exceção á regra.”

A legislação, “a conquista por direitos”, tão propagada pelos reformadores, não passam de ilusão. Se trata apenas do governo tentando se posicionar como fundamental para a vida do homem. Quem entra neste ciclo, jamais sairá até entendê-lo de fato. Ficará sempre inerte, buscando políticos para sentarem nas cadeiras, e assim fornecerem suas migalhas.

A representatividade anula nosso poder de decisão:

Creio que a representatividade só serve para tirar a nossa autonomia. Se o objetivo da representatividade fosse a democracia, ela não seria tão aparelhada por cargos políticos e burocracias, seria algo mais horizontal e cíclica. O objetivo daqueles que estão no poder é tirar a autonomia da sociedade, sempre, e a obrigando a participar apenas se estiver envolvida com grupos, e estes grupos com interesses diversos, estruturam as partes políticas, e a cumplicidade e corrupção cresce de acordo com que sobre a pirâmide. E lá em cima se encontra as grandes empresas, colocando todos para trabalharem para eles. Logo, quanto mais em cima na pirâmide mais longe está dos interesses do povo.
Espero ter ajudado em algo com minha opinião. Não quero influenciar ninguém, mas apenas fazê-los refletir nestes pontos que considero importantes. Como sempre, estou aberto a ouvir o que pensam. Espero construir uma sociedade melhor juntamente com todos.

Alguns reformadores vão propor meios diferentes, vão criticar o financiamento de empresas, e colocar que a representatividade funcionaria bem sem eles. Nem me atenho a estas ilusões, pois as críticas ao sufrágio vem de um período em que não existia financiamento como se tem hoje. As críticas são pautadas na relação do homem pelo homem, e que aquele que subir ao poder, irá sim, querer explorar os demais. E que por estarem em uma camada superior, os governantes não irá se preocupar com os interesses do povo, como relatado por Bakunin em ‘A ilusão do sufrágio universal’:

“Toda decepção com o sistema representativo está na ilusão de que um governo e uma legislação surgidos de uma eleição popular deve e pode representar a verdadeira vontade do povo. Instintiva e inevitavelmente, o povo espera duas coisas: a maior prosperidade possível combinada com a maior liberdade de movimento e de ação. Isto significa a melhor organização dos interesses econômicos populares, e a completa ausência de qualquer organização política ou de poder, já que toda organização política se destina à negação da liberdade. Estes são os desejos básicos do povo. Os instintos dos governantes, sejam legisladores ou executores das leis, são diametricamente opostos por estarem numa posição excepcional.

Por mais democráticos que sejam seus sentimentos e suas intenções, atingida uma certa elevação de posto, vêem a sociedade da mesma forma que um professor vê seus alunos, e entre o professor e os alunos não há igualdade. De um lado, há o sentimento de superioridade, inevitavelmente provocado pela posição de superioridade que decorre da superioridade do professor, exercite ele o poder legislativo ou executivo. Quem fala de poder político, fala de dominação. Quando existe dominação, uma grande parcela da sociedade é dominada e os que são dominados geralmente detestam os que dominam, enquanto estes não têm outra escolha, a não ser subjugar e oprimir aqueles que dominam. Esta é a eterna história do saber, desde que o poder surgiu no mundo. Isto é, o que também explica como e porque os democratas mais radicais, os rebeldes mais violentos se tornam os conservadores mais cautelosos assim que obtêm o poder. Tais retratações são geralmente consideradas atos de traição, mas isto é um erro. A causa principal é apenas a mudança de posição e, portanto, de perspectiva.”

Um governante se achará mais evoluído, instruído, uma vanguarda da sociedade, acredita que irá traçar o caminho que a sociedade deverá tomar, o que expressa o espírito paternalista do Estado, tutelando os seus súditos, o seu povo.

Assim concluo a minha opinião sobre o voto. Ilusão, não teria uma palavra melhor para ilustrar, um povo que elegendo seus representantes, que depois de assentados nas cadeiras da aristocracia, irão usar a burocracia, para proporcionar uma vida melhor a eles. E quando este trabalho será concluído? Quando a sociedade será livre, será que almejam isto, para assim então descer de suas cadeiras e se juntarem ao povo? Creio que não, se farão sempre necessários. Fomentarão entre a sociedade, como um bando de néscio, incapazes de se organizarem se não for por eles. Este é o princípio do poder.

Textos citados:

‘O que é democracia?’ por Pierre-Joseph Proudhon

‘O Governo Representativo’ por Piotr Kropotkin

‘O Estado Socialista’ por Errico Malatesta

‘A ilusão do sufrágio universal’ por Mikhail Bakunin

“Eles fizeram reis, mas não por mim; constituíram príncipes, mas eu não o soube; da sua prata e do seu ouro fizeram ídolos para si, para serem destruídos.
Oséias 8:4

nero autoridade cristãos

Vamos agora avaliar sobre o respaldo que as instituições religiosas declaram sobre a submissão às autoridades humanas. É comum vermos discursos religiosos, sobre que o homem deve se submeter aos governantes e que todo governo é estabelecido por Deus, e ainda é para o bem de todos, e serve para punir o mal.

Deixo claro aqui que não creio que um pescador como Pedro, homem simples, analfabeto, compreenda de fato as ciências sociais a ponto de desmembrar como se forma o poder, e como funcionava os mecanismo políticos de Roma. Já Paulo, que era mais instruído poderia até compreender estes fatores, até porque ele era cidadão romano, e claramente mostrava conhecer seus direitos, então há grande possibilidade de entender mais de política que os demais discípulos.

Também fica difícil compreender como cristãos, tão martirizados tanto pelos judeus quanto pelos romanos, onde homens bons e tementes a Deus eram torturados e mortos só por serem cristãos, acreditem que os governos representam a vontade de Deus e punem apenas quem é mal. Até mesmo Paulo, um dos responsáveis da morte de Estevão, homem íntegro segundo a Palavra, acreditasse de fato isso. Vale lembrar Paulo viveu ainda no governo do Imperador Nero, César conhecido por martirizar cristão, que possivelmente tenha ordenado a execução do apóstolo.

Apesar disso o teólogo Vernard Eller em ‘Anarquia Cristã’ atribui a esta descrição de Paulo que quando ele escreveu Romanos, provavelmente entre os anos 47 a 57 d.C., eram anos um tanto pacíficos quanto a perseguição contra os cristãos:

“Penso agora em usar o livro do Apocalipse como uma representação do entendimento da igreja primitiva sobre a Anarquia Cristã e como meio de documentar os cinco pontos acima. Ainda que, com certeza, muitas pessoas possam pensar que esse livro que mostra uma grande batalha de arquias, seria o último lugar que alguém esperaria encontrar qualquer vestígio de anarquismo. Talvez então a melhor maneira de fazer essa transição é encontrar a raiz do problema, abordando a comparação entre Romanos 13 e Apocalipse 13, que normalmente se encontra na literatura da esquerda cristã.

A comparação que mais freqüente é feita para estabelecer a natureza contextual da relação cristã com o Estado: quando um Estado é bem comportado, então cristãos devem respeitar, obedecer e honrá-lo; quando um Estado é mau, os cristãos então tem a obrigação de denunciar, resistir e tentar a revolução. A resposta cristã ao governo depende de como este se comporta no momento.

Deste ponto de vista, Romanos 13 é extremamente legitimador. A explicação é que, no momento em que Paulo escreve, o Império Romano estava em uma de suas fases mais benevolentes, tornando natural que o apóstolo dissesse aos cristãos romanos que estes deveriam obedecer às autoridades, pagar seus impostos e tudo mais. Apocalipse 13,então, é visto como o caso oposto. Aqui o Império é pintado como a Besta do Abismo –o que é tomado como indicativo de que, no tempo que o profeta escreveu, o comportamento do império era bem diferente dos dias de Paulo. Vou deixar a cargo do leitor pensar se seria em Romanos 13 ou em Apocalipse 13 que esses intérpretes encaixariam o atual governos dos EUA.”

Eller, na mesma obra, explora que os zelotes eram um grupo político que faziam oposição ao Império Romano, e que Jesus não apoiara eles, não pelo motivo, mas sim pelo método aplicado, o que explica um pouco sobre o posicionamento dos seus dicípulos:

“Começando mal, o zelotismo inevitavelmente piora. Nós o definimos como “zelo moral por uma causa sagrada” – mas isso foi para colocar a questão de uma maneira mais caridosa possível. Com alguma regularidade, o zelotismo começa a se tornar mais fortemente um “zelo moral contra causas profanas”. Embora que os Zelotes do século I afirmassem (sem dúvida com honestidade suficiente) que a sua motivação era a libertação dos pobres, a sua especialidade tornou-se furar as costelas dos ricos (por esse contexto que eles se tornaram conhecidos como os “homens do punhal”). Fiéis à forma, os zelotes contemporâneos se mostram muito mais eficientes em denunciar aqueles os quais eles escolhem chamar de entusiastas da guerra, do que eles se tornarem pacíficos.

Agora, pode ser pensado que esses dois – amando o bem e odiando o mal – vêm na mesma direção, que eles são simplesmente dois lados da mesma moeda, mas não é assim. Jesus nos mostrou que não são – mostrando ao mesmo tempo que Ele não era um Zelote. Ele amou o pobre – mas fez isso sem odiar o rico. Ele amou ao pobre, de fato, enquanto demonstrava amor diante de diferentes pessoas ricas ao mesmo tempo. Na verdade, em seu livro Dinheiro e Poder, Ellul bem argumenta que Jesus nem mesmo desenhou a distinção bom-pobre/mau-rico nos mesmos termos simplistas que nós fazemos. Nada disso, é claro, é negar que Jesus reconheceu uma importante, porém relativa, distinção entre pobres e ricos. Como Ele conduziu isso? Ele conduziu ao manter os alinhamentos relativos anarquicamente relativos, recusando-Se a torná-los absolutos. É somente essa certeza absoluta, de absoluta certeza que pode se dar ao luxo de sair depois daqueles que sabem estar absolutamente errados.”

William Barclay em ‘Romanos’, chegam a uma conclusão semelhante a Eller:

“Além disso, havia os zelotes, que estavam convencidos de que não existia outro rei para os judeus a não ser Deus; e que não devia pagar-se tributo algum, a não ser a Deus. Eles não se conformavam com uma resistência passiva. Criam que Deus não os ajudaria se não se embarcavam em uma ação violenta para proteger-se a si mesmos. Estavam juramentados e empenhados em uma carreira de morte e assassinatos. Seu propósito era fazer impossível todo governo civil. Eram conhecidos como “os portadores de adagas”. Eram nacionalistas fanáticos entregues aos métodos terroristas. Não só utilizavam esse terrorismo para com o governo romano, também destruíam as casas e queimavam o grão, assassinando as famílias de seus próprios compatriotas judeus que pagavam tributo ao governo romano.

Paulo não via que isto tivesse propósito algum. Era, com efeito, a negação direta de toda conduta cristã. E contudo, ao menos em uma parte da nação judaica, era a conduta normal judaica. Poderia ser que Paulo tivesse escrito aqui tão categoricamente, porque desejasse dissociar ao cristianismo do judaísmo insurrecional, e deixar claro que o cristianismo e a boa cidadania iam necessariamente de mãos dadas.”

Outro fator relevante é olharmos para governos que temos consciência que foram regimes cruéis, fica impossível aplicar textos domo Romanos 13 e 1 Pedro 2 que estes regimes são determinados por Deus, para punir homens que praticam o mal, e que os bons não devem se preocupar. Podemos citar Hitler, Stalin, Vlad Tepes, Mao Tse Tung, Genghis Khan e Kublai Khan. Nem se dão conta nem que o nascimento do Messias, foi regado de sangue inocente. O que estas crianças fizeram de tão mal para sucumbir pela mão de Herodes? Aliás, o próprios Jesus fora martirizado, seria ele alguém que praticava o mal?

Creio que já passou da hora de aceitarem estes argumentos rasos em favor de tiranos que querem manter a todos calados e conformados.
Vamos continuar com o nosso estudo de caso sobre a questão da autoridade. Temos a Coreia do Norte, um governo extremamente opressor, inclusive perseguindo cristãos. Vamos fazer o exercício se faz sentido aplicar este governo no contexto de Romanos 13:

“Todos devem sujeitar-se a Dinastia Kim, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas. Portanto, aquele que se rebela contra Dinastia Kim está se opondo contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos. Pois a Dinastia Kim não devem ser temida, a não ser por aqueles que praticam o mal.

Você quer viver livre do medo da Dinastia Kim? Pratique o bem, e ela o enaltecerá. Pois são de Deus para o seu bem. Mas, se você praticar o mal, tenha medo, pois eles não portam a espada sem motivo. São servos de Deus, agentes da justiça para punir quem pratica o mal.

Portanto, é necessário que sejamos submissos a Dinastia Kim, não apenas por causa da possibilidade de uma punição, mas também por questão de consciência. É por isso também que vocês pagam imposto, pois eles estão a serviço de Deus, sempre dedicadas a esse trabalho. Deem a cada um deles o que lhe é devido: se imposto, imposto; se tributo, tributo; se temor, temor; se honra, honra.”

E o que dizer de 1 Pedro 2?

“Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana por amor do Senhor; quer ao Imperador Kim, como superior;
Quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem.
Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo bem, tapeis a boca à ignorância dos homens insensatos;
Como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus.
Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai ao Imperador Kim.”

Na sequência do texto em 1 Pedro 2, como também em outros textos como Tito 3:1-3 e 1 Timóteo 2:1-3, vemos que não se trata de uma forma simplista de alegar que toda autoridade que é constituída por Deus para bem dos homens. Mas sim como um clamor para que os cristãos se portem de forma pacífica diante governos. Vale lembrar que os romanos possuíam um poderio militar muito mais poderoso que os judeus. E que o ocorrido com os judeus com o episódio recente dos rebeldes macabeus contra os gregos, estava recente na mente dos judeus na época. Apesar dos zelotes fazerem semelhante, o resultado de seus levantes culminou na Primeira Guerra judaico-romana, com destruição do Segundo Templo Jerusalém, e mais martírio do povo judeus. Então é natural que os cristãos tenham tomado um papel pacífico quanto a se rebelar com o governos. Mas pacifismo não é o mesmo que passividade.

Então o que quero dizer é que a vontade de Deus se trata mais da vontade permissiva, do que a vontade de eleger o rei. Em Oséias 8:4 temos um caso que Deus declara que não elegeu os reis, mas sim os homens. Outro caso bem esclarecedor, é em 1 Samuel 8, que o povo queria eleger um rei, e ser como as outras nações. Deus se mostrou contrário a ideia, alertou sobre os perigos em ter governantes, mas permitiu que o povo se organizasse como queria, pois Ele não interferiria.

A realidade é que desde que Roma declarou que o cristianismo é a religião oficial do Império, foi muito conveniente discursos do tipo para atrelar cada vez mais a religião e o governo. Brennan Lester escreveu a respeito, apontando diversos motivos que levaram a esta interpretação de tais textos como temos hoje, principalmente o de Romanos. Um dos mais fortes pontos usados por Lester é que Romanos dos capítulos 12 ao 15 se trata de um único contexto e não deve ser interpretado individualmente. E que em Romanos 12, assim como em 1 Pedro 2, os textos indicam para que o cristão deve se sacrificar pelo próximo, inclusive nos dois textos, eles citam a possibilidade dos cristãos serem perseguidos ou martirizados. Em Romanos 12 também cita que não devemos nos conformar com este mundo, onde a palavra “mundo” (αιωνι) tem a conotação de “presente século” ou até de “sistema de governo”. O mesmo governo relatado em Efésios 1:20-21. Assim como também o mesmo governo em que Jesus, em João 12:31, determina que será julgado e atribui ao inimigo, que é chamado de príncipe ou governante.

Lester também resgata os termos em original, e trabalha possíveis interpretações para o texto em Romanos 13. Com o que seria “ordenado” ou “estabelecido”, na verdade se trata de “colocar em ordem” ou “estabelecer”, no particípio passivo. Dando um sentido que Deus não estabelece os governante, mas sim que eles com coordena, permanecendo no controle, com um propósito final para cada um deles, independente se são bons ou ruins.

Vale ressaltar que em Romanos 8:38-39, Paulo foi categórico em dizer que Jesus despojou e os expôs ao desprezo. Assim compreendemos que a submissão passiva ao Estado, disseminada pelas instituições religiosas ligadas a ele, não condiz com que fora ensinado. Mostra que os textos assim interpretados, fogem, primeiramente da Palavra, também da realidade vivida pelos discípulos na época, assim como também do que sabemos de historicamente governantes maus.

Assim tomamos a ideia que tais autoridades podem ser espirituais, como muitas vezes reforçadas no Novo Testamento, e como também apontada pelo teólogo Jacques Ellul em ‘Anarquia e Cristianismo’:

“Chegamos agora ao ponto final. Não poderia fechar essas reflexões dessa passagem, que infelizmente deu uma guinada errada à igreja e ao cristianismo após o século III, sem relembrar um estudo de trinta anos atrás. A palavra usada nessa linha de pensamento era o grego exousiai, que podia significar autoridades públicas, mas que também no Novo Testamento tinha outro significado, sendo usada para poderes abstratos, espirituais, religiosos. Embora Paulo nos diga para lutar contra os exousiai celestes (cf. Efésios 6:12). É pensado, por exemplo, que os anjos são exousiai. Oscar Cullmann e Gunther Dehn concluem que, desde que a mesma palavra é usada ali, deve haver alguma relação. Em outras palavras, o Novo Testamento nos leva a supor que o poder terreno e autoridades militares têm sua base na aliança com poderes espirituais, que não chamarei de celestiais, pois podem ser igualmente más e demoníacas. A existência desses exousiai espirituais explicaria a universalidade dos poderes políticos e o fato assombroso de as pessoas os obedecerem como se fossem evidentes. Essas autoridades espirituais poderiam então inspirar governantes.

Essas autoridades poderiam ser boas ou más, angelicais ou demoníacas. Autoridades terrenas refletem os poderes daqueles cujas mãos elas caíram. Podemos então ver porque Paulo em Romanos 13 refere-se às autoridades que atualmente “existem” como sendo instituídas por Deus e também o porque alguns teólogos protestantes diziam depois de 1933 que o governo de Hitler era “demonizado”, que tinha caído nas mãos de um poder demoníaco. Se digo isso, não é simplesmente porque quero dizer que a atitude da primeira geração cristã não foi unânime, que juntamente com a linha principal, conforme a qual o Estado deveria ser destruído, havia uma linha mais matizada (embora nenhuma exigisse obediência incondicional). O ponto principal para mim é quando Paulo em Colossenses 2:13-15 diz que Jesus venceu o mau e a morte, e também diz que Cristo “despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo”. No pensamento cristão, a crucificação de Cristo é a Sua verdadeira vitória sobre todos os poderes, tanto celestes quanto infernais (não estou dizendo que existem, mas expressando a convicção diária), pois somente Ele foi perfeitamente obediente à vontade de Deus, inclusive aceitando o escândalo de sua própria condenação e execução (sem entender totalmente isso: “Deus meu, por que me abandonaste?”) Embora Ele tivesse dúvidas sobre sua interpretação e missão, Ele não tinha dúvidas sobre a vontade de Deus e obedeceu perfeitamente.”

Então assim concluímos nossa reflexão sobre o contexto de autoridade relatada na bíblia. Que para o cristão, além dos reinos humanos, haviam um governo celeste, o que Eller atribuía como ‘anarquia de Deus’, que agia contra as ‘arquias’ dos homens. Mas que o cristão deve manter o papel pacífico, não-violento, mesmo quando se opõe as injustiças do Estado. Porém que o espírito profético deve se opor aos governos déspotas, assim como João Batista fez com Herodes, e assim como Jesus e os discípulos fizeram.