“O livre comércio, isto é, o livre monopólio, é a santa aliança dos grandes feudatários do capital e da indústria, a argamassa monstra que deve terminar em cada ponto do globo a obra começada pela divisão do trabalho, pelas máquinas, pela concorrência, pelo monopólio e pela política econômica; esmagar a pequena indústria e submeter definitivamente o proletariado. É a centralização em toda face da terra desse regime de espoliação e de miséria, produto espontâneo de uma civilização que começa, mas que deve perecer logo que a civilização tiver adquirido consciência de suas leis; é a propriedade em sua força e sua glória. E é para introduzir o consumo desse sistema que tantos milhões de trabalhadores estão famintos, tantas criaturas inocentes ainda amamentando atiradas no nada, tantas jovens e mulheres prostituídas, tantas almas vendidas, tantos caracteres emurchecidos! Se ao menos os economistas soubessem de uma saída para esse labirinto, de um fim para essa tortura. Mas não, sempre! Nunca! Como o relógio dos condenados, é um refrão do apocalipse econômico. Oh! Se os condenados pudessem queimar o inferno!”

Trecho do livro:”Sistema das Contradições Econômicas ou Filosofia da Miséria” – Proudhon

anarquismo como combate ao capitalismo

Proudhon chamava este livre-mercado, ao que se referem os liberais, como livre-monopólio. Uma multinacional engoliria uma pequena empresa qualquer em um modelo de Capitalismo sem intervenção estatal. Digo sem intervenção estatal, pois é ilusão imaginar um mundo capitalista sem Estado, devido a questão do direito a propriedade, que necessita de um governo para existir. O que proponho é fazer um exercício de reflexão sobre o assunto.

Quem entende de economia e mercado sabe que um acumulador de bens possui vantagens que os demais não teriam. Tais vantagens eliminariam qualquer chance de concorrência, fazendo com que as menores concorrentes quebrassem ou fossem engolidas pelas maiores.

Uma empresa com uma produção maior compra insumos a preços mais baixos devido ao alto volume. Também devido ao mesmo volume, faz pressão no ponto de venda para posicionar a marca em locais estratégicos, garantindo mais visibilidade para os consumidores. Tem recursos para investir em melhores maquinários e em melhores mão-de-obra, o que aumenta a qualidade do produto. Tem condições para ter um grande sistema de distribuição abrangendo ainda mais a sua atuação geográfica, atingindo mercados diversos. Possui recursos para investir pesado em propaganda, o que favorece e muito nas vendas.

Vale ressaltar que por ter uma atuação em um âmbito geograficamente maior. Ela pode manter a sua indústria onde a mão-de-obra é ainda mais barata, ou qualquer outra vantagens. O que as pequenas concorrentes não podem, pois ficam presas as suas pequenas regiões de atuação. Quem sabe as grandes empresas, possam até regiões onde a fiscalização trabalhista não é tão efetiva, e poderia usar de mão-de-obra escrava.

Se ainda isso tudo não for suficiente, como se fosse pouco, ela pode reduzir os preços abaixo do valor de custo, que já é mais baixo, forçando todas as concorrentes a fazerem o mesmo. A questão é que a multinacional teria capital de reserva para manter-se por um bom tempo no prejuízo, enquanto as outras não.

Depois das concorrentes quebradas, o monopólio estabelecido. A tal multinacional poderia aumentar seus preços e colocar onde quisessem, já que ela controla o mercado. E caso surja novas concorrentes, basta repetir o processo.

Assim, chego a conclusão que mesmo sem um Estado intervencionista, se não houver oportunidades reais de concorrência, e isto inclui capital armazenado, não existe livre-mercado.

Então o que seria livre-mercado de fato. Proudhon jamais usara este termo, mas a sua proposta mutualista era um mercado e ele era livre, não só do governo, mas também dos acumuladores. E sobre isso, ele diz em um trecho de “O Que É Propriedade?”:

“Se os bens são propriedades, os proprietários são reis, e reis despósticos, reis em proporção de suas faculdades de ganância. E se cada proprietário é soberano na esfera de sua propriedade, rei inviolável em toda a extensão de seu domínio, como um governo de proprietários não seria um caos e uma confusão?”
Portanto, não há governo, não há economia pública, não há administração possível com a propriedade por base.
A comunidade procura a igualdade e a lei: a propriedade, fruto da autonomia da razão e do sentimento do mérito pessoal, almeja acima de tudo a independência e a proporcionalidade.
Mas a comunidade, tomando a uniformidade por lei e o nivelamento por igualdade, torna-se tirânica e injusta: a propriedade, por seu despotismo e suas invasões, não tarda a mostrar-se opressiva e insociável.
O que a comunidade e a propriedade querem é bom: o que produzem é mau. E por quê? Porque ambas são exclusivas e ignoram, cada uma por seu lado, dois elementos da sociedade. A comunidade rejeita a independência e a proporcionalidade; a propriedade não satisfaz a igualdade e a lei.
Ora, se concebemos uma sociedade fundada nos quatro princípios, igualdade, lei, independência, proporcionalidade, encontramos:
1.° – Que a igualdade, consistindo apenas na igualdade das condições, isto é, dos meios, e não na igualdade de bem-estar, a qual, com meios iguais, deve ser obra do trabalhador, não viola de nenhuma maneira a justiça e a equidade;
2° – Que a lei, resultando da ciência dos fatos, conseqüentemente apoiando-se na própria necessidade, não fere jamais a independência;
3.° – Que a independência respectiva dos indivíduos, ou autonomia da razão privada, derivando da diferença dos talentos e capacidades, pode existir sem perigo nos limites da lei;
4.° – Que a proporcionalidade, só admissível na esfera da inteligência e do sentimento, não na das coisas físicas, pode ser observada sem violar a justiça ou a igualdade social.
Essa terceira forma de sociedade, síntese da comunidade e da propriedade, nós a chamaremos LIBERDADE.
Para determinar a liberdade, não juntamos sem discernimento a comunidade e a propriedade, o que seria um ecletismo absurdo. Buscamos, graças a um método analítico, o que cada uma delas possui de verdadeiro, em conformidade com o anseio da natureza e as leis da sociabilidade, eliminando todos os seus elementos estranhos; e o resultado fornece uma expressão adequada à forma natural da sociedade humana, numa palavra, a liberdade.
A liberdade é igualdade, pois liberdade só existe no estado social e fora da igualdade não existe sociedade.
A liberdade é anarquia, pois não admite o governo da vontade, apenas a autoridade da lei, isto é, da necessidade.
A liberdade é variedade infinita, pois respeita todas as vontades nos limites da lei.
A liberdade é proporcionalidade, pois deixa um caminho aberto à ambição do mérito e à emulação da glória.”

Antes de concluir, precisamos reforçar que no mutualismo o trabalho assalariado não é encarado como troca voluntária, mas sim uma relação opressora entre empregador empregado, já que a troca voluntária seria uma relação entre os dois, mas o trabalho assalariado é uma hierarquização do empregador sobre o empregado.

Sendo assim, na proposta de Proudhon, ninguém poderia explorar do trabalho para enriquecimento. E um sujeito trabalhando sozinho não conseguiria enriquecer, e se trabalhasse cooperativado teria que repartir os ganhos.

Então chegamos a conclusão que liberdade é igualdade, anarquia, variedade infinita, e proporcionalidade. Entendemos que para ter um livre-mercado, é necessário se ater a estas características, no balanço entre comunidade e propriedade.

Logo, qualquer tipo de monopólio, acúmulo de bens, seria uma ameaça para a liberdade. Garantindo a liberdade do mercado com reais chances de concorrência entre os trabalhadores.

Anúncios

“Mas então uma dificuldade se apresenta inevitavelmente. Se é verdade que o governo é, necessariamente e sempre, o instrumento daqueles que possuem os meios de produção, por que milagre um governo socialista, nascido em pleno regime capitalista, poderá alcançar seu objetivo: abolir o capital? Será, como o querem Marx e os blanquistas, por meio de uma ditadura imposta revolucionariamente, por um golpe, e que decreta e impõe revolucionariamente o confisco das propriedades privadas em favor do Estado enquanto representante dos interesses coletivos? Ou será, como querem aparentemente todos os marxistas e a maioria dos blanquistas modernos, por meio de uma maioria socialista, enviada ao parlamento pelo sufrágio universal?

Proceder-se-á de uma só vez a expropriação da classe dominante pela classe economicamente subjugada? Ou se procederá gradualmente, obrigando os proprietários e os capitalistas a se deixarem privar pouco a pouco de todos os seus privilégios? Tudo isso parece estranhamente em contradição com a teoria no “materialismo histórico”, dogma fundamental para os marxistas. Não queremos aqui analisar estas contradições nem procurar saber o que pode haver de verdadeiro na doutrina do materialismo histórico.

Suponhamos, portanto, que o poder tenha, de um modo ou de outro, caído nas mãos dos socialistas e que um governo socialista tenha se constituído, e solidamente. Isto significaria que teria chegado a hora do triunfo do socialismo? Pensamos que não.

Se a instituição que é a propriedade individual está na origem de todos os males que conhecemos, não é porque tal ou qual terra traz este ou aquele nome em seus registros de propriedade; é porque esta inscrição dá, ao indivíduo em questão, o direito de usar a terra como bem lhe convém, e o uso que ele faz dela é ordinariamente mau, ou seja, traz prejuízo a seus semelhantes. Todas as religiões disseram, em sua origem, que a riqueza é um fardo que obriga aqueles que o possuem a zelar pelo bem-estar dos pobres e a ser, para eles, como um pai. E o direito civil precisa, desde sua origem, que o senhor da terra está sujeito a tantas obrigações cívicas que ele é mais o administrador dos bens no interesse público do que o proprietário no sentido moderno do termo. Mas o homem é feito de tal forma que, quando possui os meios de dominar e impor aos outros sua própria vontade, ele os usa e abusa até reduzir os outros indivíduos à escravidão e a um grau extremo de envilecimento. Foi o que aconteceu e acontecerá sempre com os governantes.”
Trecho de Errico Malatesta em ‘O Estado Socialista’

CUBA-CASTRO-RESIGNATION

Há dias muita discussão tem sido feita sobre a morte de Fidel. Parece que com ele o socialismo do estilo século XX foi morto. Até mesmo a Nova Esquerda prestou sua homenagem ao ditador, adotaram até mesmo o discurso do “fim justificam os mesmos”. Mas aí que quero chegar, que fim?

Ao contrário do que nós anarquistas fomos todos estes dias acusados, não queremos fazer coro com a direita. Mas também não vamos fingir que concordávamos com o regime de Cuba, as perseguições, exílios e execuções feitas por socialistas que não concordavam com o regime cubano, incluindo socialistas libertários, ou seja, nós anarquistas.

Apesar das discordâncias óbvias sobre as propostas e práticas, a Revolução de Cubana pode ter tido um papel importante na história, isto de certa forma é um fato. Mas agir como a esquerda age, de forma fundamentalista e dicotômica, negando o quanto que o povo cubano sofreu nestes anos, em prol de deificar um ídolo, é irresponsabilidade e infantilidade.

Mas convenhamos, estes comportamentos não são novidade para os socialistas autoritários. Afinal, defender a necessidade de uma ditadura; relativizar fracassos; justificar violações aos direitos humanos; apelo para militância armada; atribuir o papel de um salvador a um grupo ou indivíduo; acreditar em dados facilmente forjados que alegam que a sociedade é melhor neste modelo do que em outro; dicotomia ideológica a ponto de se achar melhor e mais correto que seus opositores; determinar prisões, exílios e execuções a indivíduos que se oponham aos seus ideais só confirmamos que marxistas e fascistas têm mais em comum do que imaginam.

É verdade que a ditadura cubana, assim como das demais ditaduras socialistas foram introduzidas de forma diferente das ditaduras daqui da América Latina, juntamente com as europeias nazistas e fascistas. De fato foram diferentes, nas ditaduras daqui houve uma aclamação popular pela moral, o qual abriu as portas para as Forças Armadas aplicarem o golpe militar, seguido por uma ditadura. Já em Cuba, grupos de guerrilhas civis travaram uma guerra contra uma já estabelecida ditadura e tomaram o poder, implantando outra.

Mas será que houve libertação do povo cubano? Discordo sobre a questão da libertação. Pois esta não houve, apenas trocaram os ditadores. Alguns podem dizer que Fulgêncio era pior do que Fidel, mas eu não opto pelo menos pior, ainda mais para mencionar a palavra “libertação”, já que este conceito não pode ser fracionado.

obama-e-castro-cuba-e-eua

Material gráfico nas ruas de Cuba, o qual mostra Raúl Castro e Barack Obama, com as respectivas bandeiras de Cuba e EUA, apresentando uma união.

E toda a conclusão se resume com o fim da história, que ainda não fora escrito, mas podemos ver alguns detalhes e supor o que ocorrerá a partir de então. Pois a pauta da esquerda sobre o assunto sempre foi ao estilo de que o “fim justifica os meios”, ou seja, no fim, Fidel iria cumprir o princípio comunista proposto na revolução. Porém não foi isso que ocorreu. Depois de cinco décadas de ditadura, as negociações com os EUA estão sendo retomadas, e agora com Cuba está se curvando novamente ao Imperialismo Yankee, e nada de comunismo. Muito pelo contrário, o povo cubano está sedento por consumir o capitalismo.

Cabe agora os anarquistas cubanos se posicionarem, como já se posicionaram nos anos anteriores, condenando os desmandos do governo castrista, como também a introdução do capitalismo yankee na ilha, inclusive incentivado agora pelo governo dito socialista.

O abismo que habita em mim

Publicado: 9 de novembro de 2016 por Plínio em Cristianismo
Tags:, , , , ,
“Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.
Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna.”
1 Timóteo 1:15-16
abismo
Em todo tempo luto contra a minha natureza pecaminosa, contra a minha vaidade, meu egoísmo, orgulho, meu hedonismo, e a lista se estende. Mas é só eu me descuidar um pouco que vacilo. Os vacilos são constantes na vida cristã, apesar de que vão diminuindo conforme o passar do tempo, quando começa a ter mais compreensão e entender que certos comportamentos não são satisfatórios para caminhada, que desagradam a Deus ou que não provém de um fruto de amor ao próximo.
O meu conforto é que este sentimento que sinto, também foi sentido por uma das maiores referências do cristianismo, o apóstolo Paulo, o qual relata em Romanos 7:18-19 que quando ele queria fazer bem, fazia o mal, e que sucumbia aos desejos dele, e ele coloca isso como um hábito constante. O mesmo Paulo confessa-se ao seu discípulo Timóteo como pecador, e se conforta que através dele se manifesta a Graça de Jesus para salvar pecadores como ele, como relata em 1 Timóteo 1:15-16. Aquele que segue a Jesus compreende a Graça e o amor de Deus e se vê como um pecador que é constantemente perdoado. Mas já o que segue a religião e não a Cristo, se vê como um santo defensor do moralismo.
Daí partimos para entender o motivo que os fariseus eram tão pouco tolerados por Cristo. Hoje vemos dentro dos modelos religiosos uma estrutura que não tolera o pecador. Onde todos expressam como santos, como puros. Muito semelhante aos fariseus na época de Cristo. Fortes padrões sociais são estabelecidos sobre os membros, estes não penalizados até excluídos da congregação devidos seus erros. Os erros da liderança são ocultados. Tudo com o objetivo de dar exemplo àqueles que querem seguir um carreirismo. Isso mesmo, se trata de uma instituição privada, como uma empresa, que existe uma carreira, onde são oferecidos os melhores cargos aqueles mais aptos.
É impressionante como isto se afasta da proposta de Deus em nossa vida, e nos faz ao invés de seguidores de Jesus, meros seguidores de Caifás, zelosos pelo tradicionalismo, pela moral, pela ortodoxia, porém tão intolerantes quanto o pecador, sem misericórdia, sem graça, sem amor. Na verdade, isto é uma luta constante. Se trata de um ideal, no sentido literal da Palavra, que devemos empregar focando em nossas vidas, não na de terceiros. É como se fosse um alvo, mas que não conseguimos cumprir mediante a nossa condição egoísta, mas que nos faz experimentar dia após dia a misericórdia de Deus. A todo cristão permanece a condição natural de hipócrita.
Sei que tal alegação pode chocar, mas irei me explicar como cheguei a tal conclusão. O cristão fala de um amor que não ama, professar um perdão que não sente, e vive em um código de conduta o qual não consegue seguir. Para alguns, esta hipocrisia é maior, quando usa desse código de conduta para taxar a vida de terceiros. A hipocrisia é como um abismo entre o ideal cristão e a prática cristã. A minha vida prática deixa muito a desejar, e quando almejo o ideal, vejo a diferença disso em um enorme abismo.
Quanto mais lido com este fato e encaro que sou dependente da Graça, menor fica o abismo. Quando o fruto da minha vontade é voltado para mim, estou declarando minha independência de Deus e de sua criação e decretando a minha autossuficiência. Mesmo que os instintos de sobrevivência, naturais ao homem, apesar dos tempos modernos, façam atitudes egocêntricas serem comuns, quando mortificamos a nossa carne, quando nos colocamos na cruz com Cristo, o processo é de abdicar destas vontades.
A Graça vem e nos inunda, nos fazendo compreender que a falta dela é que nos coloca em evidência e quando estamos firmados nela, entendemos que necessitamos de Deus, do seu amor. Ambientes sem a Graça, não há misericórdia, as pessoas são duras, muitas usam como justificativa porque os demais são duros com elas, e isto perpetua um ciclo social.Cabe ao cristão quebrar este ciclo, e oferecer o que lhe foi oferecido, que apesar de suas falhas, ele é aceito pelo Pai, e da mesma forma deve aceitar os outros. Precisamos ser menos intolerantes.

“Os parlamentos, fiéis à tradição real e à sua transfiguração moderna, o jacobinismo, não fizeram senão concentrar os poderes nas mãos do governo. Funcionarismo para tudo – tal é a característica do governo representativo. Desde o princípio deste século se fala em descentralização, autonomia, e não se faz senão centralizar, matar os últimos vestígios de autonomia. A própria Suíça sofreu essa influência, e na Inglaterra deu-se o mesmo. Sem a resistência dos industriais e dos comerciantes, estaríamos ainda hoje a pedir a Paris licença para matar um boi em Brives-Guillarde. Tudo cai pouco a pouco sob a alçada do governo. Só lhe falta já a gestão da indústria e do comércio, da produção e do consumo, e os democratas socialistas cegos pelos preconceitos autoritários sonham já com o dia em que poderão regular no parlamento de Berlim o trabalho das fábricas e o consumo em toda a Alemanha.”

Trecho de Piotr Kropotkin em ‘O Governo Representativo’.

eleicoes-rio-de-janeiro-2016-freixo-e-crivella

Depois da icônica eleição do Rio, a disputa de segundo turno entre Marcelo Crivella e Marcelo Freixo, o qual o primeiro ganhou, mesmo sendo atacado por grandes mídias burguesas como a Globo e a Veja. Temos que tirar algumas lições a respeito.

Já explicamos aqui como os anarquistas encaram o voto por exatamente entenderem que a democracia burguesa é posta pela aristocracia que estabelece as suas regras. E até mesmo como eles veem como inútil qualquer tipo de apoio estratégico ou indireto. Mas queremos tratar de um fato específico, fazendo uma análise sobre o assunto.

Antes mesmo do domingo de eleição para o 2° turno, dia 30 de outubro, os partidaristas da esquerda já começaram a acusar anarquistas, alegando que quem votasse nulo, estava votando no Crivella. É interessante como este discurso muda conforme a necessidade deles. Quantas vezes o PSOL já orientou que seus membros deveriam votar nulo? Ou seja, é a conveniência que faz a orientação do voto para quem objetiva apenas o poder.

Quem dera que 41,5% dos eleitores do Rio de Janeiro fossem anarquistas. Eu levaria esta responsabilidade com um largo sorriso no rosto. Seguido claro, de uma tática de criar uma região autônoma, emancipar uma federação dentro do próprio município, e barrar através e luta popular a ação do próprio Estado, milícia e crime organizado (muitas vezes encarados como sinônimos). Pois de fato mais de 2 milhões de pessoa é muita gente. Quem dera se os militantes da Comuna de Paris, da Revolução Espanhola e da Ucraniana, tivessem essa população.

Só por aí vemos o quanto são infantis estes militantes partidários com seus argumentos dignos do fundamentalismo religioso, fazendo o discurso dicotômico de “quem não está conosco está com eles”. Esta análise bem equivocada, que nem pode ser chamada de análise, é bem a cara dessa militância ‘lacradora’, das cirandas e ‘bundaços’.

Não queria jogar areia no ‘bundalelê’ dos partidaristas, mas um dos conselheiros políticos do Crivella, César Benjamin, era do PSOL. Então vamos encarar que os orientadores políticos do Crivella tinham uma base bem agradável para a classe trabalhadora, pelo menos em termos de discurso.

Isto mostra o quanto os militantes do PSOL são carentes de autocrítica. Eles atribuem a culpa nos pobres que são burros em votar no Crivella, e nos anarquistas que votaram nulo. E se negam em analisar que o problema pode estar no colo deles.

A verdade está mais perto do que parece.

As queixas dos eleitores do PSOL explicam bem o motivo de que Freixo não foi aclamado no Rio. Bastou o resultado das eleições declararem o Crivella como novo prefeito do Rio que os militantes do PSOL começaram a xingar os pobres por serem burros e votarem no Crivella.

Me desculpem dizer isso, mas pobres costumam não ter tempo de ir na palestra da sua universidade, nem em suas passeatas e atos em pleno horário comerciais, quando tentam se informar, acabam caindo sempre nas mídias vendidas dos aristocratas. Se não compreenderem isso, vocês só repetirão as idiotices ditas pelos emergentes paulistas, que condenam os nordestinos por serem burros e votarem no PT.

O pobre não é burro, ele sabe o que quer, tem real noção de seu cotidiano. A questão é que vocês estavam muito ocupados com os seus discursos academistas para estar ao lado deles nas suas necessidades, a ponto deles não se verem representados pela esquerda. O mesmo não pode ser dito pela Universal e outras instituições religiosas.

Desculpas sobre a milícia a parte, mas a realidade é que os militantes do PSOL sempre estiveram longe das comunidades. Pois se tivessem trabalhando com a comunidade de base, com projetos sociais relevantes para a mesma, é certo que eles sentiriam mais representados pelo partido. E esta análise não serve apenas aos social-democratas, serve também aos anarquistas. Temos que sair da academia e da internet, para começarmos a compor a base da sociedade, e como dito por Bakunin, começar o trabalho de baixo pra cima.

Fora que o êxito de Crivella se deve a outros fatores além da Universal, e incluímos a Record, tal como anos de política sendo feita na plataforma do próprio PT e PMDB. Inclusive o sociólogo Roberto Dutra, em entrevista ao El País, já declarou que o Crivella tem se afastado do discurso religioso, e sua identidade ligada a Universal, pois tem se sentido prejudicado, já que o povo faz esta associação. Mesmo que a Universal faça ‘curral eleitoral’ para o Crivella, publicamente o candidato tem tentado se afastar deste estereótipo.

A BBC também abordou sobre o tema, que o crescimento a Bancada Evangélica não é responsável pela vitória do Crivella. E inclusive ele não corresponderá ao discurso mais moderado, discordando do posicionamento conservador da Bancada Evangélica, como alguns discursos dicotômicos dos partidarista de esquerda alegam, quase que retratando um mundo após apocalíptico pautado no conservadorismo religioso.

E isso deve ser encarado como ponto relevante. O político fez uma campanha onde justificou seus equívocos religiosos do passado. Também  sempre usou argumentos populistas, enquanto Freixo estava mais preocupado em se mostrar como um candidato de esquerda não tão radical quanto seus opositores tentavam pintar. O que agrada mais a população trabalhadora, que se preocupa mais com temas como saúde, educação, e programas sociais.

Inclusive este pode ser um ponto relevante. Sei que é uma análise um tanto prematura, mas este discurso aguado do Freixo, além de preocupante, por mostrar nos fazer questionar o quanto o candidato é capaz de mudar seu discurso em prol da aceitação popular, pode ter sido significativo para pessoas que esperavam uma posição mais a esquerda não se sentirem representados por Freixo. Parece tom esclarecido e de certa forma sofista de Freixo nos debates, não serviu muito para o seu objetivo final.

1-e-2-turno-eleicoes-rio-2016-crivella-e-freixoVale ressaltar que regiões onde no primeiro turno das eleições votaram no Freixo, no segundo, preferiram o Crivella. Como mostra o gráfico ao lado, onde as regiões em azul favorecem ao Crivella e em roxo ao Freixo. O que ocorreu que fez estas pessoas mudarem de opinião? Ainda insisto que se deve ao discurso feito pelo Freixo tentando bancar o garoto moderado.

Talvez a social-democracia deva começar a ser encarada como um espectro da direita ao invés da esquerda, assim como foi o liberalismo que um dia fora considerado de esquerda, quando se opunha a monarquia, e passou a se compor como direita quando tentou se reafirmar como defensor dos direitos individuais. Mas isto é papo para outra hora.

 

“Jesus, porém, foi para o Monte das Oliveiras.
E pela manhã cedo tornou para o templo, e todo o povo vinha ter com ele, e, assentando-se, os ensinava.
E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério;
E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando.
E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?
Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra.
E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.”
João 8:1-7

pecado-crop

Nestes dias tenho visto muita gente se manifestar a favor da pena de morte. Todos os conservadores sedentos por sangue, em buscar soluções sociais que resultem em sangue. Não consigo conceber a ideia de um cristão apoiando a pena de morte. Vai contra todos os princípios cristãos contra a vida. Jesus deixou isso bem evidente em João 8, quando se depara com a mulher adúltera em risco de ser apedrejada.

O apedrejamento era uma prática comum na época para lidar com este crime, crime este previsto pela Lei Mosaica. Jesus anulou a ortodoxia e normatividade da Lei, para aplicar a Lei da Graça, a misericórdia. O meio que Jesus fez isso foi a empatia, ele fez os acusadores se colocarem no lugar daquela mulher, e serem julgados pelos pecados que muitas vezes só eles sabiam.

Uma vez, não me lembro onde, vi uma reflexão sobre a lei do “olho por olho, dente por dente”, contida tanto no Código de Hamurabi, quanto na Lei Mosaica, que com a nossa perspectiva torta conota algo relacionado a vingança, mas que no sentido deveria ser que não ultrapassasse daquilo. Ou seja, se alguém lhe tirou um olho, você tem direito de responder até que ele perca o olho, e não como uma vingança, mas sim um limite para a pena.

Estou dizendo isso, para demonstrar como temos tendência de deturpar as coisas seguindo nossos desígnios carnais, e abraçar a bestialidade sanguinária. Mas e quando nós somos os praticantes do delito, aí sim, merecemos a maior de todas as misericórdias, fazemos vários “poréns’ várias considerações e justificativas pelos atos cometidos.

E este é o sentido do cristianismo, amar o próximo como a ti mesmo, ou não fazer com o próximo o que não queremos que seja feito conosco. Estes dois ensinamentos são a base social do cristianismo. São eles que diferenciam de todas as filosofias e religiões. Eles superam até a Lei do Retorno em ensinos como o dos budistas, por exemplo, pois o martírio cristão é algo aberto, o cristão se coloca como perseguido e injustiçado não esperando uma resposta positiva quanto a isso.

Os fariseus queriam apedrejar aquela mulher, hoje os fariseus modernos querem a pena de morte. Nada mudou. E assim como antes, eles usam de discursos moralistas e religiosos para tal, pois não conseguem sentir compaixão, não possuem misericórdia. A mesma misericórdia que Jesus ensinou a termos quando disse sobre visitar presos. A mesma misericórdia em que Jesus abraçou o ladrão crucificado.

“De vez em quando chega um jovem, que sonha com tambores e barricadas e vem procurar cenas de sensação, mas deserta a causa do povo tão logo percebe que o caminho da barricada é longo, que o trabalho é penoso e que, neste caminho, nas coroas de louros que ele conquistar estarão misturados a espinhos. Com maior frequência, são ambiciosos insaciados, que, após terem fracassado em suas primeiras tentativas, procuram captar os votos do povo, porém mais tarde serão os primeiros a bradar contra ele, assim que este quiser aplicar os princípios que eles próprios professaram; talvez apontem os canhões contra a “vil multidão”, se ela ousar se mover antes que eles, os chefes, tenham dado o sinal.”
‘Ciência, apoio mútuo e anarquia’ por Piotr Kropotkin

questoes-sobre-o-voto-e-eleicoes-na-perspectiva-anarquista

Esta frase de Kropotkin resume bem o pensamento de alguns militantes que militam pela autonomia do povo, porém depois acabam cedendo ao discurso paternalista do governo ‘menos pior’.

Seja outrora apenas por uma identificação de um grupo, buscando aceitação do mesmo, ou por uma revolta contra o sistema, estes militantes acabam virando as costas para o que um dia lutaram, e adotam argumentos reformista, como se através deles fossem possível lutar contra o sistema que tanto os revoltou.

É daí que permeia o pensamento do tal “voto crítico” ou “voto tático”. Discorda do político em questão, mas vota nele, em detrimento de um pior que é o seu concorrente. Então para este pior não assumir, apoia o ‘menos pior’, para que ele garanta um mínimo de direitos à sociedade. Ou pelo menos para livrar a consciência de um peso, e dar um senso de dever cumprido no sufrágio.

Diversos autores anarquistas já reforçaram estes conceitos. Autores que experimentaram regimes “democráticos” como Pierre-Joseph Proudhon ou Voltairine de Cleyre, como regimes socialistas, como Emma Goldman e Piotr Kropotkin. Todos eles foram categóricos em esclarecer o quanto é ilusório apoiar determinado governo, por mais que ele pareça se preocupar com os interesses sociais, tudo não passa de uma farsa que pretende perpetuar a feudalidade da sociedade, com uma estrutura piramidal da mesma, dividida por classes e plataformas.

Estas propostas governistas não consistem, ou melhor, não se encaixam nas propostas anarquistas. O indivíduo pode discordar das propostas anarquistas de não-governo, defender que é preciso passar por um período recessivo, um governo provisório até a implantação de uma sociedade livre e justa, porém tais conceitos em nada tem relação com o anarquismo, que sempre teve como proposta implantar de imediato uma sociedade sem hierarquias, como esclarece Emma Goldman em ‘O indivíduo, a sociedade e o Estado e outros ensaios’:

“Não se trata de substituir um partido por um outro a fim de que ele controle o governo, nem de camuflar um regime autocrático sob slogans proletários, nem mascarar a ditadura de uma nova classe sobre uma classe mais antiga, nem se entregar a manobras quaisquer nos bastidores do teatro político. Trata-se sim, de suprimir completamente todos os princípios autoritários para servir a revolução.”

Muitas vezes sou questionado sobre o que a minha opção de não voto beneficiou a sociedade. Mas o que as pessoas não entendem é que não é a minha opção de não votar que tem que convencer a sociedade por seus benefícios, mas sim é a opção de votar em um político que tem que me convencer a sair de casa e votar em um indivíduo acreditando que terei um mínimo de vantagem.

A questão é que o posicionamento radical dos anarquistas possuem como base todo um histórico político, onde perceberam que todas as experiências governistas, ditas sociais ou livres, só resultam em exploração e alienação. Pierre-Joseph Proudhon é bem categórico quanto a isso, e esclarece em ‘Sociedade Sem Autoridade’ que todas estas propostas só resultam em um governo mais centralizador:

“Todo esforço para dar ao Poder uma aparência mais liberal, tolerante, social, falhou invariavelmente; tais esforços foram ainda mais em vão quando tentaram dar ao Povo uma parcela maior do Governo; como se as palavras, Soberania e Povo, as quais tentavam acorrentar, fossem tão naturalmente antagônicas quanto essas outras duas Liberdade e Despotismo.”

Então qual o sentido em apoiar um governo ou político, mesmo que ele replique em seus discursos  valores como liberdade e igualdade? Basta analisar a máquina pública e entender que todo o processo serve para perpetuar os poderes, no mínimo apresentar à sociedade a necessidade de um corpo político que paute suas necessidades e direitos. Gerando a sensação da eterna dependência de um corpo parlamentar. Em sua obra ‘A Política Parlamentar no Governo Socialista’, Errico Malatesta detalha bem o processo das leis no sistema, citando seus vícios e ilusões:

“Se considerarmos também os canais por onde passa um projeto antes de se tornar lei, as concessões e as transações às quais são levados os deputados para poder chegar a um acordo; se fizermos um balanço das mil e uma considerações de partido e de clientela estrangeira ao que deve fazer objeto de uma lei e que não têm também uma influência determinante sobre o voto dos deputados, não será nada difícil compreender que a lei, uma vez elaborada, não representa mais os interesses nem a vontade nem as idéias de ninguém. E isto sem falar nos novos obstáculos que são os votos dos senadores e a aprovação do rei ou do presidente que complicam a um grau mais ou menos grande todas as constituições que existem.”

Para nós anarquistas, entendemos que a estruturação dos poderes só servem para perpetuar o mesmo modelo social, muda-se algumas coisas, algumas alterações que o povo pode tirar como benefícios, porém são só para evitar que a sociedade se revolte e derrube o poder de vez.

Piotr Kropotkin, entende que em muitos casos, na verdade, na maioria deles, é usados conceitos de liberdade e autonomia, quando na realidade a prática é a contrária. São apenas plataformas para chamarem a atenção e cativarem o povo, como vanguardistas que se colocam a disposição para trazer as soluções que o povo necessita, porém, tudo o que fazem é colocar uma coleira no povo, como é explicado em ‘O Governo Representativo’:

“Os parlamentos, fiéis à tradição real e à sua transfiguração moderna, o jacobinismo, não fizeram senão concentrar os poderes nas mãos do governo. Funcionarismo para tudo – tal é a característica do governo representativo. Desde o princípio deste século se fala em descentralização, autonomia, e não se faz senão centralizar, matar os últimos vestígios de autonomia. A própria Suíça sofreu essa influência, e na Inglaterra deu-se o mesmo. Sem a resistência dos industriais e dos comerciantes, estaríamos ainda hoje a pedir a Paris licença para matar um boi em Brives-Guillarde. Tudo cai pouco a pouco sob a alçada do governo. Só lhe falta já a gestão da indústria e do comércio, da produção e do consumo, e os democratas socialistas cegos pelos preconceitos autoritários sonham já com o dia em que poderão regular no parlamento de Berlim o trabalho das fábricas e o consumo em toda a Alemanha.”

 

Não há como encarar de outra forma. Todos os anarquistas encaram os jogos de poder, inclusive através do voto, e o suposto governo democrático de direito, como meras ilusões. Que se apropriando de discursos populares, penetram em movimentos, e usam destes para se promoverem. Todo o discurso resulta em apenas aplacar a revolta do povo o que Mikhail Bakunin em ‘A ilusão do sufrágio universal’ chama de radicais:

“Os homens acreditavam que o estabelecimento do sufrágio universal garantia a liberdade dos povos. Mas infelizmente esta era uma grande ilusão e a compreensão da ilusão, em muitos lugares, levou à queda e à desmoralização do partido radical. Os radicais não queriam enganar o povo, pelo menos assim asseguram as obras liberais, mas neste caso eles próprios foram enganados.

Eles estavam firmemente convencidos quando prometeram ao povo a liberdade através do sufrágio universal. Inspirados por essa convicção, eles puderam sublevar as massas e derrubar os governos aristocráticos estabelecidos. Hoje depois de aprender com a experiência, e com a política do poder, os radicais perderam a fé em si mesmos e em seus princípios derrotados e corruptos. Mas tudo parecia tão natural e tão simples: uma vez que os poderes legislativo e executivo emanavam diretamente de uma eleição popular, não se tornariam a pura expressão da vontade popular e não produziriam a liberdade e o bem estar entre a população?

Toda decepção com o sistema representativo está na ilusão de que um governo e uma legislação surgidos de uma eleição popular deve e pode representar a verdadeira vontade do povo. Instintiva e inevitavelmente, o povo espera duas coisas: a maior prosperidade possível combinada com a maior liberdade de movimento e de ação. Isto significa a melhor organização dos interesses econômicos populares, e a completa ausência de qualquer organização política ou de poder, já que toda organização política se destina à negação da liberdade. Estes são os desejos básicos do povo. Os instintos dos governantes, sejam legisladores ou executores das leis, são diametricamente opostos por estarem numa posição excepcional.”

Lembrando que o conceito abordado por Bakunin não se refere aos partidos políticos, regulados pelo Estado, que possuem o objetivo de conquistar o poder. Que é o entendimento mais comum do termo hoje. Mas sim, um grupo de militantes com um único propósito. No caso a emancipação do povo.

Da mesma forma Voltairine de Cleyre compartilhava da opinião dos companheiros mensurados anteriormente. E ela constata em ‘Ação direta’ que até as leis que beneficiem os trabalhadores, caso consigam ser aprovadas, servem apenas como parâmetro para obrigar a sua prática:

“Os ativistas políticos nos dizem que as cadeias econômicas só serão quebradas pela ação dos partidos de trabalhadores no poder mediante eleições; o voto colocará os meios de produção e de vida nas mãos do proletariado; que também assumirá o comando das florestas, das minas, das fazendas, das bacias hidrográficas, das fábricas, dos silos; da mesma forma, terá sob seu controle o poder militar para defender seus interesses, todo esse domínio será e estará a serviço do povo.

E depois?

Depois, haverá paz, criatividade, obediência à lei, paciência, e sobriedade (como Madero disse aos peões mexicanos após vendê-los a Wall Street)! Até mesmo se alguns de vocês forem privados de direitos civis ou de privilégios, não é necessário revoltar-se nem mesmo contra essas coisas, pode deixar que “o partido tomará as devidas providências”.

Bem, eu já declarei que, ocasionalmente, algumas coisas boas podem resultar da ação política — e não necessariamente da ação de partidos proletários. Mas estou plenamente convencida de que cada benefício alcançado é mais do que anulado pelo malefício que traz a tiracolo; também estou plenamente convencida de que, ocasionalmente, cada malefício resultante da ação direta é mais do que anulado pelo benefício que traz a tiracolo.

Quase todas as leis que foram moldadas originalmente com a intenção de beneficiar os trabalhadores, viraram armas nas mãos dos seus inimigos, ou se tornaram letra morta a menos que os trabalhadores pelas suas organizações obriguem diretamente sua observância. De forma que no final das contas, e de todas as maneiras, é na ação direta que devemos depositar nossa confiança. Como exemplo da ineficácia de uma lei, basta observar a lei antitruste que supostamente beneficiava o povo em geral e o proletariado em particular. Cerca de duas semanas depois que a lei entrou em vigor, 250 líderes sindicais foram citados para responder processo acusados de truste. Esse foi o efeito da lei aos grevistas de Illinois.”

Um exemplo deste é a lei em que permite que o pai falte o trabalho para levar o seu filho ao médico uma vez ao ano, como consta no art. 473, da CLT, o inciso XI. O que foi motivo de comemoração de mais uma conquista trabalhista, na verdade é a oficialização de que o filho tem o direito de ficar doente uma única vez ao ano para que seu pai possa levar para que ele seja atendido por um médico. Para quem é pai sabe que as vezes que o filho necessita de atendimento médico são bem maiores.

Assim concluímos que o pensamento anarquista passa longe de qualquer conceito governista, de qualquer coisa que envolva o “voto crítico” ou “voto tático”, e qualquer ilusão. Que todas as conquistas trabalhistas se devem unicamente a luta popular, explicado no texto de Voltairine de Cleyre. A emancipação acontece fora das urnas!

um-experimento-escola-capitalista

Um professor de economia na universidade de Coimbra disse que ele nunca reprovou um só aluno antes, mas tinha, uma vez, reprovado os seus alunos mais empenhados.

Esta classe em particular tinha insistido que o capitalismo realmente funcionava: onde os ricos eram apenas aqueles mais capacitado para tal, e os pobres eram preguiçosos e não gostavam de trabalhar, e que a desigualdade social era “justiça”.

O professor então disse, “Ok, vamos fazer um experimento capitalista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas nas provas.” As notas poderiam ser livremente trocadas conforme as relações dos alunos, portanto seriam reguladas pela ‘mão invisível do mercado’, convertidas em tickets, e todos somente os mais aptos seriam aprovados. Porém , como na realidade os recursos são limitados, as notas assim também seriam. Para os vinte alunos teriam apenas 160 notas, ou seja, 160 tickets, sendo a nota de corte 7.

Antes das provas alunos poderiam negociar previamente suas notas uns com os outros, alguns poderiam ser pagos por coordenar equipes de estudos; e outros tiveram acesso a provas das turmas dos anos anteriores, que poderiam vendê-las. Porém alguns estudaram disciplinadamente para receberem as melhores notas. Depois da prova terminada, os alunos entregaram suas provas juntamente com os tickets negociados.

Na outra semana o professor trouxe o resultado. Os alunos que perderam tempo estudando não conseguiram altas muito altas, pois eles tiveram que pagar para alguns que não estudaram, porém contribuíram gerenciando grupos de estudo. E por incrível que pareça os que não estudaram, mas que venderam as provas dos anos anteriores, foram os que mais se destacaram.

Na segunda prova, aqueles que e não tinham ficado com um bom resultado na prova anterior, se esforçaram ainda mais estudando, para desta vez conseguirem bons resultados. Os que já estavam bem, ficaram tranquilos, até porque os tickets da prova anterior poderiam ser também negociados nesta segunda prova. Com tickets acumulados eles conseguiam aumentar os preços das provas dos outros anos, assim não era qualquer um que tinha acesso a estas provas.

Quando o resultado da prova saiu, aqueles que já tinham notas acumuladas, receberam mais notas ainda. E começaram a se prepararem para a terceira prova. Os acumuladores souberam apostar nos melhores indivíduos os grupos. Sim, eles apostaram quem teria os melhores rendimentos nas provas.

Com o resultado da terceira prova, o professor constatou que seria um bom momento para terminar o experimento. Pois apenas 1 aluno já havia retido 50% das notas de toda turma, ou seja, 80 notas, enquanto os demais estavam lutando para conseguir as demais notas. O resultado ficou claro que apenas um aluno conseguiu ser aprovado, e ele sempre fora um péssimo aluno, porém agora, ele soube especular, negociar e extorquir as notas.

 

Esta história é para refutar a falaciosa história “um experimento socialista”, muito popular entre conservadores. Estes capitalistas não entendem de economia, principalmente ao se usar um exemplo como este, onde compara a riqueza, que é limitada, com notas da escola que todos que estudarem podem tirar 10, onde o valor final não interfere no valor do outro.

No capitalismo, nem todos podem ter notas 10, nem todos podem ser milionários. E os resultados do acúmulo de riqueza tem mostrado que na realidade uma pequena parcela da sociedade pode ter sucesso, e que para se sustentar assim precisa depreciar os demais.