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“Quando há em um Estado uma constituição qualquer, o poder se mantêm pela violência, poder que pode ser monopolizado por alguns homens, por meios diferentes. De qualquer forma, sempre haverá probabilidade de ocorrer os mesmos acontecimentos que agora ocorrem na Rússia – a guerra e a repressão dos revoltosos.”
Trecho de Leon Tolstoi em ‘Anarquismo e Cristianismo’.

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Daniel desempenhou um importante papel na política Babilônica. Fora levado para uma terra desconhecida, por um povo que atacou a sua nação, levou cativo os seus conterrâneos e continuaria por anos oprimindo a sua nação. Mas a Graça manifestou de forma surpreendente, que Daniel nunca causou mal àquele povo que facilmente poderíamos considerá-lo como infiel.
Na verdade só por isto mostra o quanto que Daniel compreendia o conceito de graça e misericórdia de Deus. Em uma sociedade cristã como a de hoje, em que mergulhamos em dicotomias, como lidaríamos com um povo que invade nossas terra e leva a população cativa e a escraviza? Facilmente consigo imaginar discursos com apelos religiosos, alegando que Deus vai trazer a sua Justiça e vai cortar a cabeça da serpente ou coisa do tipo.
Porém o que mais me surpreende na postura de Daniel, é o seu posicionamento diante legalistas que legislavam contra ele. O livro do profeta, relata algumas leis eram feitas para incriminar e perseguir especificamente Daniel e seus companheiros, não se relata que era para benefício da sociedade, mas sim perseguição política de uma classe de aristocratas querendo eliminar Daniel e companheiros.
Mas mesmo assim, Daniel em nenhum momento legislou contra os seus oponentes e nem mesmo para defender seu grupo de afinidade, no caso, os judeus perseguidos e cativos. Também nunca precisou elaborar leis que restringisse os atos pecaminosos daquele povo, que não eram poucos. Ele entendia o conceito coercitivo do governo, assim como Tolstói, na obra citada acima, aborda sobre o posicionamento do cristão diante o Estado:
“O cristão rechaça a lei do Estado porque não tem necessidade dela nem para ele nem para os demais, posto que julga a vida humana mais garantida pela lei do amor que professa, que pela lei sustentada pela violência.
Para o cristão que conhece as necessidades da lei do amor, as necessidades da lei da violência não somente não podem ser-lhe obrigatórias, como se apresentam diante dele como erros que devem ser denunciados e destruídos.
A essência do cristianismo é o cumprimento da vontade de Deus que não pode ser possível pela atividade exterior que consiste em estabelecer e aplicar formas exteriores de vida, a vontade de Deus é apenas possível pela atividade interior, pela mudança da consciência, e consequente melhora da vida humana. A liberdade é a condição necessária da vida cristã. A profissão do cristianismo livra o homem de todo poder exterior, e ao mesmo tempo lhe dá a possibilidade de esperar o melhoramento da vida que busca em vão pela mudança das formas exteriores da vida.
Os homens acham que sua situação melhora graças às mudanças das formas exteriores da vida, e, sem embargo essas mudanças nem sempre resultam em uma modificação da consciência.
Todas as mudanças exteriores das formas que não são consequência de uma modificação da consciência, não somente não melhoram a condição dos homens, como com frequência a agravam. Não são os decretos do governo que tem abolido a matança de crianças, as torturas, a escravidão, é a evolução da consciência humana que tem provocado a necessidade destes decretos; e a vida não melhora em passo mais rápido do que o passo do movimento da consciência, ou seja, a vida melhora na medida em que a lei do amor ocupa na consciência do homem o lugar antes ocupado pela lei da violência.”
Aliás, vale frisar este discurso moralista dos conservadores de serem os reguladores, ou como eles colocam, aqueles que preservam a moral da sociedade, em nada combina com o Daniel bíblico. O profeta em nada fez para legislar leis cujo o intuito era aplicar a força estatal os seus valores religiosos sobre um povo que ele não seguia tais valores.
O objetivo do Daniel era específico e assertivo, ele apenas deu testemunho e ganhou a alma do rei Dario. Seus atos eram para o benefício do povo babilônico, ele era conhecido por sua sabedoria e justiça, a ponto dos reinados passarem, três reis reinaram sobre Babilônia na época de Daniel, mas o profeta permanecia firme, e era bem visto por todos.
Os atos de Daniel foram tão marcantes que a própria bíblia relata o quanto que o rei ficou tocado com a postura de Daniel e sua fidelidade a Deus, a ponto do próprio Deus o guardar:
“Então o rei Dario escreveu a todos os povos, nações e línguas que moram em toda a terra: A paz vos seja multiplicada. Da minha parte é feito um decreto, pelo qual em todo o domínio do meu reino os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel; porque ele é o Deus vivo e que permanece para sempre, e o seu reino não se pode destruir, e o seu domínio durará até o fim. Ele salva, livra, e opera sinais e maravilhas no céu e na terra; ele salvou e livrou Daniel do poder dos leões. Este Daniel, pois, prosperou no reinado de Dario, e no reinado de Ciro, o persa.” Daniel 6:25-28
Com isso analiso o nosso comportamento. Tão ávidos a regular a posição do outro. Em embutir nossos conceitos morais aos demais. Ao mesmo tempo tão deficientes de Graça e testemunho. Tão fracos em nosso posicionamento, mas forte em exigir dos outros.
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Então os fariseus saíram e começaram a planejar um meio de enredá-lo em suas próprias palavras.
Enviaram-lhe seus discípulos juntamente com os herodianos que lhe disseram: “Mestre, sabemos que és íntegro e que ensinas o caminho de Deus conforme a verdade. Tu não te deixas influenciar por ninguém, porque não te prendes à aparência dos homens.
Dize-nos, pois: Qual é a tua opinião? É certo pagar imposto a César ou não? ”
Mas Jesus, percebendo a má intenção deles, perguntou: “Hipócritas! Por que vocês estão me pondo à prova?
Mostrem-me a moeda usada para pagar o imposto”. Eles lhe mostraram um denário,
e ele lhes perguntou: “De quem é esta imagem e esta inscrição? ”
“De César”, responderam eles. E ele lhes disse: “Então, dêem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
Ao ouvirem isso, eles ficaram admirados; e, deixando-o, retiraram-se.
Mateus 22:15-22

anarquismo como combate ao capitalismo

Já vi muitos usarem textos bíblicos como este: “dê a César o que é de César”, para justificarem a exploração do Estado sobre a sociedade. É irônico isso, pois se tornou um chavão, e as pessoas não analisam mais nem o contexto em que ele disse isso. Onde os fariseus se juntaram com os herodianos para encontrar algo em Jesus que o incriminassem.

Esta confusão com a alegação de Cristo e o uso dela como apoio ao governo se trata de séculos onde o vínculo da igreja com o Estado fez com que este sistema usasse deste conceito para deixar as pessoas conformadas em relação a situação da coerção, justificando atos irresponsáveis e cobrança de taxas.

Mas basta apenas uma pequena análise no texto e se compreende o quão infundada é esta tese conformista, pois Jesus estava respondendo a acusadores que estavam o questionando para que conseguissem algo para acusá-lo.

A pergunta, como muitas feitas a Jesus, era uma cilada, se Jesus se declarasse contra os impostos, era preso, mas se ele se declarasse a favor, seria rejeitado pelos judeus que se sentiam explorados por Roma. O que Vernard Eller nos mostra em ‘Anarquia Cristã’:

“Não existem evidências que Jesus teve algo de bom a dizer sobre os Zelotes revolucionários – embora Ele provavelmente fosse mais fortemente contrário à ordem vigente judia que se encontrava acomodada perante a ocupação romana. Porém, a fala de Jesus de que a moeda deveria ser dada a César, de maneira alguma pode ser entendida como uma legitimação ou escolha por parte dEle de estar a favor da ordem vigente. Considere que a questão acerca do pagamento dos impostos foi feita como um truque hipócrita de alguns indivíduos da situação. Eles sabiam – e dependiam do fato – que Jesus nunca se colocaria ao lados deles, nem colaboraria com os romanos. Então, se eles pudessem colocá-Lo contra a parede, onde Ele teria que dizer que os impostos devem ser sonegados, Ele então seria visto como um Zelote assumido. Eles poderiam então denunciar Jesus às autoridades como um inimigo do Estado.

Não existem evidências que Jesus teve algo de bom a dizer sobre os Zelotes revolucionários – embora Ele provavelmente fosse mais fortemente contrário à ordem vigente judia que se encontrava acomodada perante a ocupação romana. Porém, a fala de Jesus de que a moeda deveria ser dada a César, de maneira alguma pode ser entendida como uma legitimação ou escolha por parte dEle de estar a favor da ordem vigente. Considere que a questão acerca do pagamento dos impostos foi feita como um truque hipócrita de alguns indivíduos da situação. Eles sabiam – e dependiam do fato – que Jesus nunca se colocaria ao lados deles, nem colaboraria com os romanos. Então, se eles pudessem colocá-Lo contra a parede, onde Ele teria que dizer que os impostos devem ser sonegados, Ele então seria visto como um Zelote assumido. Eles poderiam então denunciar Jesus às autoridades como um inimigo do Estado.

Apesar de que os Zelotes, isso deve ficar claro, eram muito mais do que simples sonegadores de impostos como conhecemos hoje – e muito mais radicalmente consistentes. Por conta da moeda, o denário de prata romano, conter a imagem e a inscrição de César, os Zelotes consideravam tanto traição quanto idolatria até mesmo olhar para uma, imagine então possuí-la. Para tanto, possuir as coisas e lucrar com elas pode ser por si só, colaboração com o opressor estrangeiro. Ninguém podia acusar esses rebeldes de tomar o dinheiro de César com uma mão enquanto recusavam a dar a porcentagem dele com a outra; a dissociação deles com o sistema maligno era tão completa o quanto lhes era possível. Assim, para mostrar a sua aliança com Deus, eles estavam dispostos tanto a esfaquear um colaborador judeu quanto um senhor romano.

Quando Jesus teve que pedir por um denário, certamente é para indicar que Ele não possuía um e, nesse contexto, Ele poderia ser qualificado como um Zelote. Por outro lado, o que os questionadores fizeram, imediatamente os identifica de forma clara como colaboradores. O contexto coloca Jesus numa escolha inescapável – Ele deve recomendar apoiar a ordem vigente com o pagamento de impostos, ou apoiar a revolução ao sonegá-los.

O primeiro significado da resposta de Jesus é dado ao feito daqueles que conscientemente tiram o dinheiro de César (a imagem dele na moeda é prova o suficiente de onde o dinheiro foi pego), que é melhor que se encontrem conscientemente capazes de devolver a parte que César pede – isso faz parte da barganha; eles já estão realmente comprometidos. Notem, porém, que isso não tem nada a ver com querer ou escolher. Colaboradores (e aqueles que possuem a moeda de César, é prova suficiente de que eles tem dívida) devem pagar seus impostos; ainda que isso não diga nada se alguém deve ou não possuir as moedas e ser um colaborador.”

Dizer que com a alegação Jesus, sobre dar a César, abre precedentes para a coerção do Estado, é o mesmo que dizer que ao dizer que “aquele que não tiver pecado, atire a primeira pedra” na situação da mulher adúltera, é abrir precedente para o homem viverem pecado.

David Henry Thoreau explica sobre a relação entre o Estado e a riqueza, e o quanto que o pobre sofre com os impostos, e a injustiça deste processo. Injustiça esta que deveria passar pela cabeça dos judeus contemporâneos a Cristo, é o que o autor relata em sua obra ‘Desobediência Civil’:

“Refleti sobre o aprisionamento do ofensor e não sobre o confisco de seus bens, embora ambos possam servir ao mesmo propósito, porque aqueles que afirmam o mais puro direito, e são, consequentemente, mais perigosos para um Estado corrupto, normalmente não passaram muito tempo a acumular propriedades. A esses, o Estado presta, comparativamente, pouco serviço, e um pequeno imposto costuma ser visto como exorbitante, particularmente se são obrigados a ganhá-lo com suas próprias mãos. Se houvesse alguém que pudesse viver inteiramente sem o uso de dinheiro, o próprio Estado hesitaria em exigir-lhe pagamento. Mas o homem rico – sem querer fazer nenhuma comparação invejosa – está sempre vendido à instituição que o faz rico. Falando em termos absolutos, quanto mais dinheiro, menos virtude, pois o dinheiro se interpõe entre um homem e seus objetivos, e os obtém para ele, e certamente não há grande virtude em fazê-lo. O dinheiro abafa muitas questões que, de outro modo, este homem seria levado a responder, ao mesmo tempo em que a única nova questão que lhe propõe é a difícil, embora supérflua, questão de saber como gastá-lo. Assim, seu fundamento moral lhe é retirado de sob os pés. As oportunidades de viver diminuem na proporção em que aumenta o que se chama de “meios”. O melhor que um homem pode fazer por sua cultura, quando enriquece, é tentar pôr em prática os planos que concebeu quando pobre. Cristo respondeu aos herodianos de acordo com sua situação. “Mostrai-me o dinheiro do tributo”, disse, e um deles tirou uma moeda do bolso. Se usais dinheiro com a imagem de César gravada, e que ele tornou corrente e útil, ou seja, se sois homens do Estado, e de bom grado desfrutais as vantagens do governo de César, então devolvei a ele um pouco do que lhe pertence quando ele assim o exigir. “Logo, dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, disse, deixando-os sem saber mais do que antes a respeito de qual era qual, pois não desejavam sabê-lo.

Quando converso com os mais livres dos meus semelhantes, percebo que, seja o que for que digam sobre a magnitude e seriedade do problema, e sobre sua preocupação com a tranquilidade pública, o cerne da questão é que não podem dispensar a proteção do governo existente e temem as consequências que possam advir para suas propriedades e suas famílias da desobediência a ele. De minha parte, não gostaria de pensar que alguma vez tenha confiado na proteção do Estado. No entanto, se nego a autoridade do Estado quando ele me apresenta a conta dos impostos, logo ele irá se apossar de meu patrimônio e dissipá-lo, molestando-me, assim, interminavelmente, bem como aos meus filhos. Isso é injusto. Isso torna impossível a um homem viver honestamente, e ao mesmo tempo confortavelmente, no que diz respeito às circunstâncias exteriores. Não valerá a pena acumular propriedades, pois com certeza estas seriam novamente confiscadas. Deves arrendar ou ocupar terra devoluta num lugar qualquer, plantar não mais que uma pequena safra e consumi-la imediatamente. Deves viver contigo e depender só de ti, sempre arrumado e pronto para partir, e não ter muitos negócios. Um homem pode enriquecer até mesmo na Turquia, se for, em todos os aspectos, um bom súdito do governo turco. Confúcio disse: “Se um Estado for governado pelos princípios da razão, a pobreza e a miséria serão objeto de vergonha; se um Estado não for governado pelos princípios da razão, a riqueza e as honrarias serão objeto de vergonha.” Não: até que eu queira que a proteção de Massachusetts me seja proporcionada em algum distante porto do Sul em que minha liberdade seja ameaçada, ou até que eu me veja exclusivamente voltado para o desenvolvimento de uma propriedade em seu território, através de um empreendimento pacífico, posso permitir-me recusar obediência a Massachusetts e seu direito a minha vida e meu patrimônio. Custa-me menos, em todos os sentidos, incorrer na pena de desobediência ao Estado do que me custaria obedecer-lhe. Neste caso, eu haveria de me sentir diminuído.

Há alguns anos, o Estado veio ao meu encontro, em nome da Igreja, e mandou-me pagar uma certa quantia em benefício de um padre a cujas pregações meu pai comparecia, mas a que eu mesmo jamais comparecera. “Paga”, disse, “ou serás preso”. Eu me recusei a pagar, mas, infelizmente, outro homem houve por bem fazê-lo. Eu não via por que o mestre-escola deveria pagar um imposto para sustentar o padre, e não o contrário, já que eu não era um mestre-escola do Estado mas me mantinha através de subscrição voluntária. Não via por que a escola não deveria apresentar sua conta de impostos e fazer com que o Estado atendesse a suas exigências, assim como a Igreja. Contudo, a pedido dos conselheiros municipais, concordei em fazer, por escrito, uma declaração como esta: “Saibam todos, pela presente, que eu, Henry Thoreau, não desejo ser considerado membro de nenhuma sociedade juridicamente constituída à qual não tenha me associado”. Entreguei-a ao secretário da câmara municipal, que a guarda com ele. Desde então, o Estado, tendo tomado conhecimento de que eu não desejava ser considerado membro daquela igreja, nunca mais me fez tal exigência, embora dissesse que precisava manter-se fiel a sua presunção inicial naquela época. Se eu tivesse como especificá-las então, teria identificado minuciosamente todas as sociedades às quais não pertencia. Mas não soube onde encontrar uma lista completa delas.”

Como explicado anteriormente com o texto de Vernard Eller, o repúdio à moeda romana era tamanho, que alguns judeus consideravam portá-la como idolatria, por conter a a imagem de César, que era considerado um ser divino, inscrita na moeda. Jesus mostra também ao tocar na moeda que isto pouco importava, mostra também que a moeda cunhada com o rosto de César, era cunhada por Roma, mas fora Deus que havia criado o metal utilizado. Algo que Jacques Ellul classifica o que era de César e o que era de Deus:

“A marca era o único modo pelo qual a posse poderia ser reconhecida. Na estrutura do Império Romano, isso era aplicado a todos os bens. Todas as pessoas tinham suas próprias marcas, tais como um selo, estampa ou um sinal pintado. A face de César nessa moeda era mais que uma decoração ou marca de honra. Significava que todo o dinheiro em circulação no império pertencia a César. Isso é muito importante. Aqueles que tinham o dinheiro, eram donos muito precários. Eles nunca realmente possuíram as peças de bronze ou prata. Sempre que um imperador morria, a imagem mudava. César era o proprietário exclusivo. Jesus, então, teve uma resposta muito simples: “Dai pois a César o que é de César”. Vocês encontram a imagem dele nessa moeda. A moeda, então, pertence a ele. Devolvam quando ele pedi-la.

Com essa resposta Jesus não diz que impostos são legais. Ele não aconselha obediência aos romanos. Ele apenas mostra as evidências. Mas o que realmente pertence a César? O excelente exemplo usado por Jesus torna isso óbvio: qualquer coisa que tiver sua marca! Aqui está a base e o limite de seu poder. Mas onde está a sua marca? Em moedas, monumentos públicos, e em certos altares. Isso é tudo. Deem a César. Vocês podem pagar o imposto. Fazer isto é sem importância ou significado, pois todo dinheiro pertence a César, e se ele quisesse, poderia simplesmente confiscá-lo. Pagar ou não impostos não é uma questão básica; não é nem mesmo uma verdadeira questão política.

Por outro lado, qualquer coisa que não tiver a marca de César não pertence a ele. Tudo pertence a Deus41. Isto é onde surge a verdadeira objeção consciente. César não tem qualquer direito sobre o resto. Primeiro nós temos vida. César não tem o direito sobre a vida e a morte. César não tem o direito de mergulhar pessoas na guerra. César não tem o direito de devastar e arruinar um país. O domínio de César é muito limitado. Podemos nos opor à maioria de suas pretensões em nome de Deus. Jesus desafia os herodianos, então, mas eles não tem objeções ao que Ele diz. Eles também eram judeus, e sendo que o texto nos conta que aqueles que levantaram a questão eram fariseus, assim como herodianos, podemos ter certeza de que alguns deles eram judeus devotos. Por isso, eles não podiam contestar a declaração de que o resto é de Deus. Ao mesmo tempo, Jesus estava respondendo indiretamente aos zelotes que queriam transformar a luta pela libertação de Israel em uma luta política. Ele os lembrou qual era o limite assim como a base da luta.”

Ou seja, podemos concluir que Jesus não estava legitimando os impostos, ele estava dizendo que havia uma marca na moeda que identificava o proprietário dela, César. Ele ensinou que o sistema utiliza destes recursos para se administrarem, e que isto pouco importava, já que tudo era criado por Deus.

Sei que para alguns cristãos isso será antagônico o que eles aprenderam, mas precisa-se entender que os ensinos de Jesus foram mudados de sentido desde a institucionalização da Igreja, e o vínculo dela com o Estado. Fora necessário usar dos ensinos religiosos apoio para a perpetuação do Estado.

Porém a figura de Cristo era antissistêmica, ele repudiou os meios organizacionais dos gentios, governavam e se deixavam governar, e orientou para os discípulos não serem assim. Ele alertou sobre o príncipe deste mundo, referenciando a satanás, o seu rival, o qual o próprio havia oferecido a Jesus, no deserto, todos os reinos do mundo.

Logo, conclui-se que Jesus de forma alguma pretendia favorecer o governo em sua exploração a sociedade, pois Deus não tem parte com exploradores. Dê a César o que é de César, ou seja, dê ao governo o que é mundano, pois ele é mundano, e dê a Deus o que é divino. Não divinize jamais o governo.

“E digo isto, para que ninguém vos engane com palavras persuasivas.
Porque, ainda que esteja ausente quanto ao corpo, contudo, em espírito estou convosco, regozijando-me e vendo a vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo.
Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele,
Arraigados e edificados nele, e confirmados na fé, assim como fostes ensinados, nela abundando em ação de graças.
Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo;”
Colossenses 2:4-8

moralismo-religioso-na-política

Tenho muito receio com a conjuntura atual, principalmente se referindo ao meio religioso cristão. Tenho visto congregações tomando partido em favor de grupos políticos, e inclusive usando o nome de Deus nisso.

Para selar a opinião política, se tem até profecias, e ‘moveres’, ambos totalmente duvidosos. Este clamor por uma, ordem social que venha destronar a atual, me lembra o Movimento Cristão Alemão, liderado por Ludwig Müller, e todo o Movimento Cristianismo Positivo, o qual apoiavam Hitler e o Nazismo. Lá o Terceiro Reich era considerado uma resposta de Deus para a nação. Correspondendo anseios morais de família, tradição, segurança, desenvolvimento econômico pós-crise, dentre outros que costumamos ver a classe conservadora expressar.

Claro que hoje já não temos mais esta perspectiva, e nem os cristãos alemães. E Hitler passou de um arauto para um anticristo. Principalmente depois das guerras que a influência nos meios cristãos protestantes se concentrou mais nos Estados Unidos, junto com o processo desta nação se tornar potência econômica.

Não é irônico como alguém tão exaltado pelas instituições, apontado como uma resposta de Deus para a sociedade alemã, passou a ser uma figura endemoniada? Leon Tolstoi em ‘Minha Religião’ explora muito bem esta questão, mostrando que as instituições religiosas deixam o Estado pautar a moral da sociedade, anulando os ensinos de Cristo, só reafirmando as decisões do governo como divinas, até mesmo as decisões erradas e anticristãs:

“A Igreja reconhece teoricamente a doutrina de Jesus, mas a nega na prática.Em vez de orientar a vida do mundo, a Igreja, por amor ao mundo, expõe a doutrina metafísica de Jesus de tal modo que não decorre dela nenhuma obrigação quanto ao modo de vida, nenhuma necessidade para os homens viverem de modo diferente daquele que viveram até agora. A Igreja se rendeu ao mundo e simplesmente faz parte do séquito do vencedor. O mundo faz o que quer e deixa à Igreja a tarefa de justificar seus atos com explicações sobre o significado da vida. O mundo organiza a vida de maneira totalmente oposta à doutrina de Jesus, e a Igreja faz de tudo para demonstrar que os homens que vivem contrariamente à doutrina de Jesus vivem, na verdade, de acordo com esta doutrina. O resultado final é que o mundo vive uma existência pior do que a pagã e a Igreja, além de aprová-la, também afirma que essa existência está em exata conformidade com a doutrina de Jesus.”

Mas o que aconteceu com Hitler acontece hoje, com ícones como Temer, Bolsonaro, Feliciano, Malta, assim como o Lula, teve muita popularidade entre os líderes religiosos, inclusive tinha a Bancada Evangélica como aliada.

Vernard Eller, em seu livro ‘Anarquia Cristã’ pontua alguns aspectos entre esta interferência das instituições religiosas com o governo. Ele atribui que a oficialização das religiões são a raiz desse mal, que isso ocorre com a predominância de uma fé ou instituição, em detrimento das outras, e que a solução disso é o pluralismo, como podemos ver no trecho a seguir:

“É, então, somente quando nos movemos para dentro do pluralismo denominacional, o advento do secularismo, o desenvolvimento do governo democrático, e a quebra da união profana entre igreja e estado, que enxergamos alguma mudança significativa no todo. Embora não seja de maneira alguma um afastamento da fé-arquia diante da Anarquia Cristã. É simplesmente a fé-arquia tomando uma forma moderna.
Com o monopólio eclesiástico não sendo mais uma opção dentro da sociedade, cada igreja teve que aprender a tolerar a mistura – mesmo enquanto tem a convicção secreta (ou não tão secreta) de que é eleita de uma maneira que as outras não são. Um determinado estado não pode mais se apoiar em sua igreja consorte como prova de sua eleição divina. Mas não há obstáculos para que governos civis reivindiquem suas eleições do seu próprio jeito (como dizer que “esta nação pertence a Deus”).
Entretanto, com o novo pluralismo democrático impossibilitando a governabilidade eclesiástica de uma população inteira, as denominações tem que reformular a natureza e o propósito de seu poder árquico. Não dá mais pra ser uma dominação por decreto, mas sim por propaganda. Não dá mais pra ser o poder de garantir a salvação de populações inteiras através dos santos sacramentos ou da pregação da santa palavra (ou então, se recusarem, todos irão para o inferno). Agora, deve ser o poder dos programas institucionais de evangelizações, educação cristã, instrução moral e reforma social, que são tão sutis quanto poderosos para realizar a vontade de Deus na terra (ou então, se as pessoas recusarem, deixe-as ir para o inferno nuclear). Aqui, não há menos confiança do que antes para dizer qual arquia é a nomeada por Deus – e não há menos confiança do que antes em dizer qual arquia carrega o poder que pode salvar o mundo.”

O que mais me preocupa são as pessoas enganadas nestes discursos, que esperam uma ação de Deus, mas apoiam o diabo. Temos visto isto se repetir constantemente, desde que Constantino resolveu oficializar o cristianismo como fé estatal de Roma. E toda vez que a fé se mistura com a coerção estatal, ocorre o que em Apocalipse João sinalizou como Babilônia, com Jezabel matando os profetas, no caso os verdadeiros profetas, pois Jezabel aliciava os falsos.

E é então que eu sinto pelos enganados. Aqueles que caem neste discurso e colocam esperanças em homens, corrompidos, que agem em seus próprios interesses, por concupiscência diabólica, e que no futuro mergulhará o país no caos infernal.

Uma reflexão de Jacques Ellul em ‘Anarquia e Cristianismo’ me faz refletir sobre esta questão e ver como a proposta cristã é tão diferente de algo imposto. Então qual o sentido de cristãos, se aparelharem com governos para impor a moral cristã a terceiros? Ellul aborda muito bem a questão ressaltando que vivemos sob o que ele chama de “poder do amor”, pautada na liberdade do indivíduo e não na heteromia do governo:

“Obviamente, a idéia de “poder” vai no mesmo sentido de “arquia”; os dois são inseparáveis. De fato, toda fez que Paulo usa “arquia” no sentido de “principados”, ele junta o termo com uma das palavras gregas para “poder”. Ainda falando tanto de “poder” e “arquia” devemos fazer uma especificação crucial: estamos sempre supondo um poder ou governo que é imposto sobre seu eleitorado. Obviamente, isto é apropriado ao falarmos de, digamos, “o poder do amor”. Já que esse é um poder em um sentido completamente diferente da palavra, à medida em que não carrega indícios de imposição. Olhando apenas para a frase em si; “o reino de Deus” não parece ser uma “arquia” diferente das demais. Ainda vamos ver que não é assim. Quando Jesus disse “Meu reino não é desse mundo”, Ele dizia que, embora todas as arquias mundanas devem ser imposicionais, a dEle é radicalmente diferente no quesito de não ter que ser – e de fato não é.”

Mas isso já ocorreu aqui no país. Em 64 muitos religiosos foram para as ruas com devaneios políticos, prezar pela moralidade hipócrita, que na verdade serve apenas aos seus interesses mesquinhos, sua preocupação quanto a seus privilégios e sua propriedade. Então o país ficou imerso em uma ditadura por 21 anos.

Não, eu não sou a favor deste governo, e até desejo construir um modelo novo de sociedade. Mas tal modelo não vem de um grupo de cima para baixo, mas vem através da democracia direta, começando pela base. E estou aberto à colaboração de pessoas que compreendem também sob o momento delicado em que vivemos e que queiram unir forças em prol da sanidade. Manifestando o Reino de Deus, que não se trata de nossas necessidades materiais mesquinhas, mas sim justiça, paz e alegria.