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Contra a Idolatria.

Publicado: 16 de agosto de 2017 por franciscgiselle em Cristianismo
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Estamos em tempos difíceis, são tempos de escassez, de miséria, caos é a crise política e econômica.

Os problemas sociais, avançam a cada dia, e quase não existe mais políticas, se é que existiu de fato.

O que vou apontar hoje, é a Idolatria por nossa parte, nossa relação quase religioso com as filosofias e ideologias no nosso cotidiano. E como isto, afeta nossa vida, e como Cristãos nós devemos, nos abster e ter certo cuidado.

Em provérbios 4.23, diz-se para guardarmos nosso coração, pois, é dele que procede as fontes de nossa vida. Sim, em nosso coração guardamos todas as nossas fontes, a vida. Mas, não vamos falar do órgão. E, sim dos nossos sentimentos e de como reagimos e acabamos caindo em pecado, colocar todas as nossas forcas naquilo que não é o amor, e a fé é pecado. Observei nos últimos dias, o quão somos capazes de chegar a extremidade de adorar tanto as filosofias a ponto de afetar a vida dos que estão ao nosso redor.

Olhemos, para o cenário político e vemos o nível de loucura em que as pessoas defendem sua posição política. Ofendendo umas as outras, agredindo-se em protestos, matando-se, até. Tudo em nome de algo, ou, de alguém que para eles é um Messias.

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Esquecemos de quem somos, e viramos apenas a massa que compõe determinada corrente filosófica, não somos mais um Cristão, ou, Cristã, somos “O fulano que segue A, B, ou C”.

Desfazemos amizades, o ódio criou raízes fortes em nossos corações, e deixamos nos levar por aquilo, que deveríamos manter distância, e viramos idólatras.

Sequer lembramos que em Filipenses, Paulo escreve que nossa pátria é o céu, e um dia estaremos a voltar para casa, onde não existe dor, onde o sofrimento acaba, e estaremos diante do Senhor, nosso Deus.

Quantos de nós, já não está cético, pedido e sem esperança?

Ou, perdeu a Fé e trocou-a pelo fervor e amor a Ideologia?

Ou, o pior de tudo, trocou Jesus pelo líder, ou autor político ?

Irmãos, Irmãs quantos de nós, deixou levar-se para longe de Cristo, e hoje só resta o ódio contra os semelhantes.

Nós, não podemos irmãos, deixar nossa Fé morrer, não podemos trocar o amor pelo Eterno, por seres que são iguais a nós, meros mortais que nada podem fazer por si.

A bíblia então, muitas vezes mal interpretada vira objeto de legalismo para que outrem justifiquem suas idolatrias, e tirem conclusões precipitadas a respeito de como se seguir a caminhada.

Levantemos, nossas cabeças, e devemos sim lutar contra a opressão dos fracos, devemos acolher os cansados e oprimidos, mas, acima de tudo, jamais esqueça que você, é um Cristão é que jamais deve viver sobre julho de correntes, seja ideológica, política, ou, econômica.

Gálatas 5.1

1 Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão.

Cristo, lhe chamou para ser livre, sendo assim, jamais volte ou viva na condição de escravo.

E cuide, bem do seu coração, não permita que qualquer pessoa, filosofia, ideologia tome conta dele.

Em seu nome lançamos pedras

Publicado: 28 de dezembro de 2016 por Plínio em Cristianismo
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“Nesse sentido, devemos concordar com a visão do cristianismo e de outras religiões de que Deus é “bom”. Mas não vamos apressar o andar da carruagem. A Lei Moral não embasa a ideia de que Deus é “bom” no sentido de indulgente, suave ou condescendente. Não há nada de indulgente na Lei Moral. Ela é dura como um osso. Exorta-nos a fazer a coisa certa e parece não se importar com o quanto esta ação pode ser dolorosa, perigosa ou difícil. Se Deus é como a Lei Moral, ele não tem nada de suave. De nada adianta, a esta altura, dizer que um Deus ‘bom’ é um Deus que perdoa.”
Trecho de C. S. Lewis em ‘Cristianismo Puro e Simples’.
atirar-pedras

Tenho refletido sobre a postura simplista de alguns religiosos de como tratam uma vida cristã. E fazendo uma analogia moderna penso em algo assim:

“Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não construímos templos em todos os lugares? em seu nome não compramos emissoras de televisão e rádio para levar nossa instituição aos quatro cantos? não legislamos as leis conforme as suas doutrinas? não sujeitamos o povo aos seus preceitos, mesmos os que não são seus seguidores? em seu nome não atacamos infiéis? não fomos nós que expulsamos de nossos templos aqueles que discordam de nós, e não fizemos ostracismo com eles? em seu nome não compramos bens e gozamos do luxo para mostrar uma recompensa espiritual? não foi em seus nome que capitamos muitos recursos para acumular em nossas instituições ou em nossas contas bancárias? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade.”
Poderia ser Mateus 7:22,23, se Jesus estivesse falando do povo hoje. Mas em Mateus 7 Jesus fala de um confronto a religiosos com coisas que eles fizeram boas, mas provavelmente com intenções erradas. Hoje vemos instituições totalmente perdidas, voltadas para si, e que ainda muitas coisas ruins são feitas, com as intenções mais torpes ainda.
Há uma falta de compreensão sobre o ministério de Jesus, e inclusive os mandamentos que ele deixou para nós. Amor. Em trecho de ‘Evangelho do Maltrapilho’, Brennan Manning, nos deixa claro sobre estas questões, e a quem Jesus considera próximo:
“Jesus, que perdoou os pecados do paralítico, reivindicando dessa forma autoridade divina, anuncia que convidou pecadores, e não os de justiça-própria, para sua mesa. O verbo grego usado aqui, kalein, tem o sentido de chamar um convidado honrado para jantar.
Jesus afirma, com efeito, que o Reino de seu Pai não é uma subdivisão para os justos nem para os que sentem possuir o segredo de Estado da salvação. O Reino não é um condomínio fechado elegante com regras esnobes a respeito de quem pode viver ali dentro. Não; ele é para um elenco mais numeroso de pessoas, mais rústico e menos exigente, que compreendem que são pecadores porque já experimentaram o efeito nauseante da luta moral.
São esses os pecadores-convidados chamados por Jesus para se aproximarem com ele ao redor da mesa de banquete. Essa história permanece perturbadora para aqueles que não compreendem que homens e mulheres que são verdadeiramente preenchidos com a luz são aqueles que fitaram profundamente as trevas da sua existência imperfeita.”
Voltando a nossa analogia, caberia dizer: “em seu nome é a puta que pariu”? Mas ao refletir melhor, uma comparação seria uma ofensa a várias mulheres que sem condições acabam comercializando uma das únicas propriedades que possuem e que é de interesse de outros, o corpo. Mas mesmo o ato sendo feita por dois, somente ela é recriminada. Afinal não existe um adjetivo pejorativo para o cara que paga uma prostituta.
Ah! Por falar em prostituta, isso me lembrou da Madalena, aquela que Jesus a livrou da condenação dos religiosos que queriam uma sociedade sem impurezas, com apenas cidadãos de bem. Mas Jesus disse para os que não tiverem pecado, que atirassem pedra, e com este embate, constrangidos eles avaliaram que ninguém seria capaz.
Porém hoje as pedras são lançadas a todo tempo.

O abismo que habita em mim

Publicado: 9 de novembro de 2016 por Plínio em Cristianismo
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“Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.
Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna.”
1 Timóteo 1:15-16
abismo
Em todo tempo luto contra a minha natureza pecaminosa, contra a minha vaidade, meu egoísmo, orgulho, meu hedonismo, e a lista se estende. Mas é só eu me descuidar um pouco que vacilo. Os vacilos são constantes na vida cristã, apesar de que vão diminuindo conforme o passar do tempo, quando começa a ter mais compreensão e entender que certos comportamentos não são satisfatórios para caminhada, que desagradam a Deus ou que não provém de um fruto de amor ao próximo.
O meu conforto é que este sentimento que sinto, também foi sentido por uma das maiores referências do cristianismo, o apóstolo Paulo, o qual relata em Romanos 7:18-19 que quando ele queria fazer bem, fazia o mal, e que sucumbia aos desejos dele, e ele coloca isso como um hábito constante. O mesmo Paulo confessa-se ao seu discípulo Timóteo como pecador, e se conforta que através dele se manifesta a Graça de Jesus para salvar pecadores como ele, como relata em 1 Timóteo 1:15-16. Aquele que segue a Jesus compreende a Graça e o amor de Deus e se vê como um pecador que é constantemente perdoado. Mas já o que segue a religião e não a Cristo, se vê como um santo defensor do moralismo.
Daí partimos para entender o motivo que os fariseus eram tão pouco tolerados por Cristo. Hoje vemos dentro dos modelos religiosos uma estrutura que não tolera o pecador. Onde todos expressam como santos, como puros. Muito semelhante aos fariseus na época de Cristo. Fortes padrões sociais são estabelecidos sobre os membros, estes não penalizados até excluídos da congregação devidos seus erros. Os erros da liderança são ocultados. Tudo com o objetivo de dar exemplo àqueles que querem seguir um carreirismo. Isso mesmo, se trata de uma instituição privada, como uma empresa, que existe uma carreira, onde são oferecidos os melhores cargos aqueles mais aptos.
É impressionante como isto se afasta da proposta de Deus em nossa vida, e nos faz ao invés de seguidores de Jesus, meros seguidores de Caifás, zelosos pelo tradicionalismo, pela moral, pela ortodoxia, porém tão intolerantes quanto o pecador, sem misericórdia, sem graça, sem amor. Na verdade, isto é uma luta constante. Se trata de um ideal, no sentido literal da Palavra, que devemos empregar focando em nossas vidas, não na de terceiros. É como se fosse um alvo, mas que não conseguimos cumprir mediante a nossa condição egoísta, mas que nos faz experimentar dia após dia a misericórdia de Deus. A todo cristão permanece a condição natural de hipócrita.
Sei que tal alegação pode chocar, mas irei me explicar como cheguei a tal conclusão. O cristão fala de um amor que não ama, professar um perdão que não sente, e vive em um código de conduta o qual não consegue seguir. Para alguns, esta hipocrisia é maior, quando usa desse código de conduta para taxar a vida de terceiros. A hipocrisia é como um abismo entre o ideal cristão e a prática cristã. A minha vida prática deixa muito a desejar, e quando almejo o ideal, vejo a diferença disso em um enorme abismo.
Quanto mais lido com este fato e encaro que sou dependente da Graça, menor fica o abismo. Quando o fruto da minha vontade é voltado para mim, estou declarando minha independência de Deus e de sua criação e decretando a minha autossuficiência. Mesmo que os instintos de sobrevivência, naturais ao homem, apesar dos tempos modernos, façam atitudes egocêntricas serem comuns, quando mortificamos a nossa carne, quando nos colocamos na cruz com Cristo, o processo é de abdicar destas vontades.
A Graça vem e nos inunda, nos fazendo compreender que a falta dela é que nos coloca em evidência e quando estamos firmados nela, entendemos que necessitamos de Deus, do seu amor. Ambientes sem a Graça, não há misericórdia, as pessoas são duras, muitas usam como justificativa porque os demais são duros com elas, e isto perpetua um ciclo social.Cabe ao cristão quebrar este ciclo, e oferecer o que lhe foi oferecido, que apesar de suas falhas, ele é aceito pelo Pai, e da mesma forma deve aceitar os outros. Precisamos ser menos intolerantes.

“Jesus, porém, foi para o Monte das Oliveiras.
E pela manhã cedo tornou para o templo, e todo o povo vinha ter com ele, e, assentando-se, os ensinava.
E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério;
E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando.
E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?
Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra.
E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.”
João 8:1-7

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Nestes dias tenho visto muita gente se manifestar a favor da pena de morte. Todos os conservadores sedentos por sangue, em buscar soluções sociais que resultem em sangue. Não consigo conceber a ideia de um cristão apoiando a pena de morte. Vai contra todos os princípios cristãos contra a vida. Jesus deixou isso bem evidente em João 8, quando se depara com a mulher adúltera em risco de ser apedrejada.

O apedrejamento era uma prática comum na época para lidar com este crime, crime este previsto pela Lei Mosaica. Jesus anulou a ortodoxia e normatividade da Lei, para aplicar a Lei da Graça, a misericórdia. O meio que Jesus fez isso foi a empatia, ele fez os acusadores se colocarem no lugar daquela mulher, e serem julgados pelos pecados que muitas vezes só eles sabiam.

Uma vez, não me lembro onde, vi uma reflexão sobre a lei do “olho por olho, dente por dente”, contida tanto no Código de Hamurabi, quanto na Lei Mosaica, que com a nossa perspectiva torta conota algo relacionado a vingança, mas que no sentido deveria ser que não ultrapassasse daquilo. Ou seja, se alguém lhe tirou um olho, você tem direito de responder até que ele perca o olho, e não como uma vingança, mas sim um limite para a pena.

Estou dizendo isso, para demonstrar como temos tendência de deturpar as coisas seguindo nossos desígnios carnais, e abraçar a bestialidade sanguinária. Mas e quando nós somos os praticantes do delito, aí sim, merecemos a maior de todas as misericórdias, fazemos vários “poréns’ várias considerações e justificativas pelos atos cometidos.

E este é o sentido do cristianismo, amar o próximo como a ti mesmo, ou não fazer com o próximo o que não queremos que seja feito conosco. Estes dois ensinamentos são a base social do cristianismo. São eles que diferenciam de todas as filosofias e religiões. Eles superam até a Lei do Retorno em ensinos como o dos budistas, por exemplo, pois o martírio cristão é algo aberto, o cristão se coloca como perseguido e injustiçado não esperando uma resposta positiva quanto a isso.

Os fariseus queriam apedrejar aquela mulher, hoje os fariseus modernos querem a pena de morte. Nada mudou. E assim como antes, eles usam de discursos moralistas e religiosos para tal, pois não conseguem sentir compaixão, não possuem misericórdia. A mesma misericórdia que Jesus ensinou a termos quando disse sobre visitar presos. A mesma misericórdia em que Jesus abraçou o ladrão crucificado.

Então os fariseus saíram e começaram a planejar um meio de enredá-lo em suas próprias palavras.
Enviaram-lhe seus discípulos juntamente com os herodianos que lhe disseram: “Mestre, sabemos que és íntegro e que ensinas o caminho de Deus conforme a verdade. Tu não te deixas influenciar por ninguém, porque não te prendes à aparência dos homens.
Dize-nos, pois: Qual é a tua opinião? É certo pagar imposto a César ou não? ”
Mas Jesus, percebendo a má intenção deles, perguntou: “Hipócritas! Por que vocês estão me pondo à prova?
Mostrem-me a moeda usada para pagar o imposto”. Eles lhe mostraram um denário,
e ele lhes perguntou: “De quem é esta imagem e esta inscrição? ”
“De César”, responderam eles. E ele lhes disse: “Então, dêem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
Ao ouvirem isso, eles ficaram admirados; e, deixando-o, retiraram-se.
Mateus 22:15-22

anarquismo como combate ao capitalismo

Já vi muitos usarem textos bíblicos como este: “dê a César o que é de César”, para justificarem a exploração do Estado sobre a sociedade. É irônico isso, pois se tornou um chavão, e as pessoas não analisam mais nem o contexto em que ele disse isso. Onde os fariseus se juntaram com os herodianos para encontrar algo em Jesus que o incriminassem.

Esta confusão com a alegação de Cristo e o uso dela como apoio ao governo se trata de séculos onde o vínculo da igreja com o Estado fez com que este sistema usasse deste conceito para deixar as pessoas conformadas em relação a situação da coerção, justificando atos irresponsáveis e cobrança de taxas.

Mas basta apenas uma pequena análise no texto e se compreende o quão infundada é esta tese conformista, pois Jesus estava respondendo a acusadores que estavam o questionando para que conseguissem algo para acusá-lo.

A pergunta, como muitas feitas a Jesus, era uma cilada, se Jesus se declarasse contra os impostos, era preso, mas se ele se declarasse a favor, seria rejeitado pelos judeus que se sentiam explorados por Roma. O que Vernard Eller nos mostra em ‘Anarquia Cristã’:

“Não existem evidências que Jesus teve algo de bom a dizer sobre os Zelotes revolucionários – embora Ele provavelmente fosse mais fortemente contrário à ordem vigente judia que se encontrava acomodada perante a ocupação romana. Porém, a fala de Jesus de que a moeda deveria ser dada a César, de maneira alguma pode ser entendida como uma legitimação ou escolha por parte dEle de estar a favor da ordem vigente. Considere que a questão acerca do pagamento dos impostos foi feita como um truque hipócrita de alguns indivíduos da situação. Eles sabiam – e dependiam do fato – que Jesus nunca se colocaria ao lados deles, nem colaboraria com os romanos. Então, se eles pudessem colocá-Lo contra a parede, onde Ele teria que dizer que os impostos devem ser sonegados, Ele então seria visto como um Zelote assumido. Eles poderiam então denunciar Jesus às autoridades como um inimigo do Estado.

Não existem evidências que Jesus teve algo de bom a dizer sobre os Zelotes revolucionários – embora Ele provavelmente fosse mais fortemente contrário à ordem vigente judia que se encontrava acomodada perante a ocupação romana. Porém, a fala de Jesus de que a moeda deveria ser dada a César, de maneira alguma pode ser entendida como uma legitimação ou escolha por parte dEle de estar a favor da ordem vigente. Considere que a questão acerca do pagamento dos impostos foi feita como um truque hipócrita de alguns indivíduos da situação. Eles sabiam – e dependiam do fato – que Jesus nunca se colocaria ao lados deles, nem colaboraria com os romanos. Então, se eles pudessem colocá-Lo contra a parede, onde Ele teria que dizer que os impostos devem ser sonegados, Ele então seria visto como um Zelote assumido. Eles poderiam então denunciar Jesus às autoridades como um inimigo do Estado.

Apesar de que os Zelotes, isso deve ficar claro, eram muito mais do que simples sonegadores de impostos como conhecemos hoje – e muito mais radicalmente consistentes. Por conta da moeda, o denário de prata romano, conter a imagem e a inscrição de César, os Zelotes consideravam tanto traição quanto idolatria até mesmo olhar para uma, imagine então possuí-la. Para tanto, possuir as coisas e lucrar com elas pode ser por si só, colaboração com o opressor estrangeiro. Ninguém podia acusar esses rebeldes de tomar o dinheiro de César com uma mão enquanto recusavam a dar a porcentagem dele com a outra; a dissociação deles com o sistema maligno era tão completa o quanto lhes era possível. Assim, para mostrar a sua aliança com Deus, eles estavam dispostos tanto a esfaquear um colaborador judeu quanto um senhor romano.

Quando Jesus teve que pedir por um denário, certamente é para indicar que Ele não possuía um e, nesse contexto, Ele poderia ser qualificado como um Zelote. Por outro lado, o que os questionadores fizeram, imediatamente os identifica de forma clara como colaboradores. O contexto coloca Jesus numa escolha inescapável – Ele deve recomendar apoiar a ordem vigente com o pagamento de impostos, ou apoiar a revolução ao sonegá-los.

O primeiro significado da resposta de Jesus é dado ao feito daqueles que conscientemente tiram o dinheiro de César (a imagem dele na moeda é prova o suficiente de onde o dinheiro foi pego), que é melhor que se encontrem conscientemente capazes de devolver a parte que César pede – isso faz parte da barganha; eles já estão realmente comprometidos. Notem, porém, que isso não tem nada a ver com querer ou escolher. Colaboradores (e aqueles que possuem a moeda de César, é prova suficiente de que eles tem dívida) devem pagar seus impostos; ainda que isso não diga nada se alguém deve ou não possuir as moedas e ser um colaborador.”

Dizer que com a alegação Jesus, sobre dar a César, abre precedentes para a coerção do Estado, é o mesmo que dizer que ao dizer que “aquele que não tiver pecado, atire a primeira pedra” na situação da mulher adúltera, é abrir precedente para o homem viverem pecado.

David Henry Thoreau explica sobre a relação entre o Estado e a riqueza, e o quanto que o pobre sofre com os impostos, e a injustiça deste processo. Injustiça esta que deveria passar pela cabeça dos judeus contemporâneos a Cristo, é o que o autor relata em sua obra ‘Desobediência Civil’:

“Refleti sobre o aprisionamento do ofensor e não sobre o confisco de seus bens, embora ambos possam servir ao mesmo propósito, porque aqueles que afirmam o mais puro direito, e são, consequentemente, mais perigosos para um Estado corrupto, normalmente não passaram muito tempo a acumular propriedades. A esses, o Estado presta, comparativamente, pouco serviço, e um pequeno imposto costuma ser visto como exorbitante, particularmente se são obrigados a ganhá-lo com suas próprias mãos. Se houvesse alguém que pudesse viver inteiramente sem o uso de dinheiro, o próprio Estado hesitaria em exigir-lhe pagamento. Mas o homem rico – sem querer fazer nenhuma comparação invejosa – está sempre vendido à instituição que o faz rico. Falando em termos absolutos, quanto mais dinheiro, menos virtude, pois o dinheiro se interpõe entre um homem e seus objetivos, e os obtém para ele, e certamente não há grande virtude em fazê-lo. O dinheiro abafa muitas questões que, de outro modo, este homem seria levado a responder, ao mesmo tempo em que a única nova questão que lhe propõe é a difícil, embora supérflua, questão de saber como gastá-lo. Assim, seu fundamento moral lhe é retirado de sob os pés. As oportunidades de viver diminuem na proporção em que aumenta o que se chama de “meios”. O melhor que um homem pode fazer por sua cultura, quando enriquece, é tentar pôr em prática os planos que concebeu quando pobre. Cristo respondeu aos herodianos de acordo com sua situação. “Mostrai-me o dinheiro do tributo”, disse, e um deles tirou uma moeda do bolso. Se usais dinheiro com a imagem de César gravada, e que ele tornou corrente e útil, ou seja, se sois homens do Estado, e de bom grado desfrutais as vantagens do governo de César, então devolvei a ele um pouco do que lhe pertence quando ele assim o exigir. “Logo, dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, disse, deixando-os sem saber mais do que antes a respeito de qual era qual, pois não desejavam sabê-lo.

Quando converso com os mais livres dos meus semelhantes, percebo que, seja o que for que digam sobre a magnitude e seriedade do problema, e sobre sua preocupação com a tranquilidade pública, o cerne da questão é que não podem dispensar a proteção do governo existente e temem as consequências que possam advir para suas propriedades e suas famílias da desobediência a ele. De minha parte, não gostaria de pensar que alguma vez tenha confiado na proteção do Estado. No entanto, se nego a autoridade do Estado quando ele me apresenta a conta dos impostos, logo ele irá se apossar de meu patrimônio e dissipá-lo, molestando-me, assim, interminavelmente, bem como aos meus filhos. Isso é injusto. Isso torna impossível a um homem viver honestamente, e ao mesmo tempo confortavelmente, no que diz respeito às circunstâncias exteriores. Não valerá a pena acumular propriedades, pois com certeza estas seriam novamente confiscadas. Deves arrendar ou ocupar terra devoluta num lugar qualquer, plantar não mais que uma pequena safra e consumi-la imediatamente. Deves viver contigo e depender só de ti, sempre arrumado e pronto para partir, e não ter muitos negócios. Um homem pode enriquecer até mesmo na Turquia, se for, em todos os aspectos, um bom súdito do governo turco. Confúcio disse: “Se um Estado for governado pelos princípios da razão, a pobreza e a miséria serão objeto de vergonha; se um Estado não for governado pelos princípios da razão, a riqueza e as honrarias serão objeto de vergonha.” Não: até que eu queira que a proteção de Massachusetts me seja proporcionada em algum distante porto do Sul em que minha liberdade seja ameaçada, ou até que eu me veja exclusivamente voltado para o desenvolvimento de uma propriedade em seu território, através de um empreendimento pacífico, posso permitir-me recusar obediência a Massachusetts e seu direito a minha vida e meu patrimônio. Custa-me menos, em todos os sentidos, incorrer na pena de desobediência ao Estado do que me custaria obedecer-lhe. Neste caso, eu haveria de me sentir diminuído.

Há alguns anos, o Estado veio ao meu encontro, em nome da Igreja, e mandou-me pagar uma certa quantia em benefício de um padre a cujas pregações meu pai comparecia, mas a que eu mesmo jamais comparecera. “Paga”, disse, “ou serás preso”. Eu me recusei a pagar, mas, infelizmente, outro homem houve por bem fazê-lo. Eu não via por que o mestre-escola deveria pagar um imposto para sustentar o padre, e não o contrário, já que eu não era um mestre-escola do Estado mas me mantinha através de subscrição voluntária. Não via por que a escola não deveria apresentar sua conta de impostos e fazer com que o Estado atendesse a suas exigências, assim como a Igreja. Contudo, a pedido dos conselheiros municipais, concordei em fazer, por escrito, uma declaração como esta: “Saibam todos, pela presente, que eu, Henry Thoreau, não desejo ser considerado membro de nenhuma sociedade juridicamente constituída à qual não tenha me associado”. Entreguei-a ao secretário da câmara municipal, que a guarda com ele. Desde então, o Estado, tendo tomado conhecimento de que eu não desejava ser considerado membro daquela igreja, nunca mais me fez tal exigência, embora dissesse que precisava manter-se fiel a sua presunção inicial naquela época. Se eu tivesse como especificá-las então, teria identificado minuciosamente todas as sociedades às quais não pertencia. Mas não soube onde encontrar uma lista completa delas.”

Como explicado anteriormente com o texto de Vernard Eller, o repúdio à moeda romana era tamanho, que alguns judeus consideravam portá-la como idolatria, por conter a a imagem de César, que era considerado um ser divino, inscrita na moeda. Jesus mostra também ao tocar na moeda que isto pouco importava, mostra também que a moeda cunhada com o rosto de César, era cunhada por Roma, mas fora Deus que havia criado o metal utilizado. Algo que Jacques Ellul classifica o que era de César e o que era de Deus:

“A marca era o único modo pelo qual a posse poderia ser reconhecida. Na estrutura do Império Romano, isso era aplicado a todos os bens. Todas as pessoas tinham suas próprias marcas, tais como um selo, estampa ou um sinal pintado. A face de César nessa moeda era mais que uma decoração ou marca de honra. Significava que todo o dinheiro em circulação no império pertencia a César. Isso é muito importante. Aqueles que tinham o dinheiro, eram donos muito precários. Eles nunca realmente possuíram as peças de bronze ou prata. Sempre que um imperador morria, a imagem mudava. César era o proprietário exclusivo. Jesus, então, teve uma resposta muito simples: “Dai pois a César o que é de César”. Vocês encontram a imagem dele nessa moeda. A moeda, então, pertence a ele. Devolvam quando ele pedi-la.

Com essa resposta Jesus não diz que impostos são legais. Ele não aconselha obediência aos romanos. Ele apenas mostra as evidências. Mas o que realmente pertence a César? O excelente exemplo usado por Jesus torna isso óbvio: qualquer coisa que tiver sua marca! Aqui está a base e o limite de seu poder. Mas onde está a sua marca? Em moedas, monumentos públicos, e em certos altares. Isso é tudo. Deem a César. Vocês podem pagar o imposto. Fazer isto é sem importância ou significado, pois todo dinheiro pertence a César, e se ele quisesse, poderia simplesmente confiscá-lo. Pagar ou não impostos não é uma questão básica; não é nem mesmo uma verdadeira questão política.

Por outro lado, qualquer coisa que não tiver a marca de César não pertence a ele. Tudo pertence a Deus41. Isto é onde surge a verdadeira objeção consciente. César não tem qualquer direito sobre o resto. Primeiro nós temos vida. César não tem o direito sobre a vida e a morte. César não tem o direito de mergulhar pessoas na guerra. César não tem o direito de devastar e arruinar um país. O domínio de César é muito limitado. Podemos nos opor à maioria de suas pretensões em nome de Deus. Jesus desafia os herodianos, então, mas eles não tem objeções ao que Ele diz. Eles também eram judeus, e sendo que o texto nos conta que aqueles que levantaram a questão eram fariseus, assim como herodianos, podemos ter certeza de que alguns deles eram judeus devotos. Por isso, eles não podiam contestar a declaração de que o resto é de Deus. Ao mesmo tempo, Jesus estava respondendo indiretamente aos zelotes que queriam transformar a luta pela libertação de Israel em uma luta política. Ele os lembrou qual era o limite assim como a base da luta.”

Ou seja, podemos concluir que Jesus não estava legitimando os impostos, ele estava dizendo que havia uma marca na moeda que identificava o proprietário dela, César. Ele ensinou que o sistema utiliza destes recursos para se administrarem, e que isto pouco importava, já que tudo era criado por Deus.

Sei que para alguns cristãos isso será antagônico o que eles aprenderam, mas precisa-se entender que os ensinos de Jesus foram mudados de sentido desde a institucionalização da Igreja, e o vínculo dela com o Estado. Fora necessário usar dos ensinos religiosos apoio para a perpetuação do Estado.

Porém a figura de Cristo era antissistêmica, ele repudiou os meios organizacionais dos gentios, governavam e se deixavam governar, e orientou para os discípulos não serem assim. Ele alertou sobre o príncipe deste mundo, referenciando a satanás, o seu rival, o qual o próprio havia oferecido a Jesus, no deserto, todos os reinos do mundo.

Logo, conclui-se que Jesus de forma alguma pretendia favorecer o governo em sua exploração a sociedade, pois Deus não tem parte com exploradores. Dê a César o que é de César, ou seja, dê ao governo o que é mundano, pois ele é mundano, e dê a Deus o que é divino. Não divinize jamais o governo.

“Mestre, qual é o grande mandamento na lei?
E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento.
Este é o primeiro e grande mandamento.
E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.”
Mateus 22:36-40

lei-da-graça-vs-lei-mosaica

Não acredito em um amor acima da Lei, acredito na Lei do Amor. Vejo muita gente incomodada com a interpretação das escrituras sobre o prisma do amor. Pra mim, isso não deveria trazer espanto algum, pois este deveria ser o prisma, pelo menos é o que Jesus ensina. Quem resumiu todos os dogmas, liturgias e juridições, em dois simples mandamentos em “ame a Deus e ame o próximo” não fomos nós meros replicantes da Lei do Amor, mas sim Jesus. E só por ele ter feito isso, já mostra muita importância nesta questão.

Se ele ao menos tivesse dado só as interpretações com o viés da Graça nos casos específicos da mulher adúltera, da cura ao sábado, no lava-pés, e em outras passagens, poderia se colocar como uma questão interpretativa. Porém ele foi bem claro, quando disse que a aplicação de toda a Lei Mosaica e os Profetas se resumem na aplicação do amor. E João ainda complementa que quem ama é nascido de Deus e o conhece, pois Deus é amor. E Paulo ainda coloca o amor como o maior dom, e coloca todas as coisas inúteis quando se não tem amor. Paulo chega até a relativizar o amor como maior que a fé e a esperança.

Philip Yancey em ‘Maravilhosa Graça’ enfatiza o quanto que a religiosidade replica e propaga a falta da Graça:

A fé religiosa — com todos os seus problemas, apesar de sua enlouquecedora tendência para copiar a não graça — sobrevive porque sentimos a beleza luminosa do dom imerecido que vem em momentos inesperados de fora. Recusando-nos a crer que nossas vidas de culpa e vergonha não nos levam a nada a não ser à aniquilação, esperamos, sem nenhuma esperança, um outro lugar dirigido por regras diferentes. Crescemos famintos de amor e, de maneira tão profunda que não conseguimos expressar, ansiamos por que o nosso Criador nos ame.

Na verdade, o que me incomoda é o choque que alguns tem com este conceito. Entendo que alguns achem dogmas mais detalhados necessários, de como proceder e por onde andar, mas vejo que o discurso dos que se ofendem com a Lei do Amor não se resume nesta necessidade, mas sim, na tentativa de negá-la mesmo. Pois no primeiro contato com tal conceito, já é tomado como teologicamente liberal, mesmo que não esteja defendendo liberalidade alguma, esteja dizendo apenas o óbvio. Já ouvi dizer que esse lance de Lei do Amor fora criado por kardecistas. Mas esqueceram do fato que os kardecistas são meritocratas. Mas a Lei do Amor, ou seja a Graça, não se trata somente de nós para com Deus e os homens, mas principalmente de Deus para conosco. Pois é Ele que nos perdoa, e é o Espírito Santo quem nos convence do pecado e do juízo.

Por falar nisso, qual a necessidade do Espírito nos convencer do pecado e do juízo se já existe um manual de regras que deixam claro isso? Por isso insisto que quem nega a Lei do Amor, em detrimento a dogmas, está negando a própria ação do Espírito Santo, pecado o qual Jesus diz não ter perdão (confesso que nunca compreendi muito esta passagem). Se a atuação de Deus em nossas vidas é necessária, é porque o contexto é bem mais complexo do que cumprir ou não cumprir. Inclusive Jesus também aborda isso, se damos esmolas por motivações próprias, não há valia alguma. Então não se trata de dogma, dar esmola, mas sim no amor, abençoar uma vida.

Quando estes usam o argumento da justiça, o conceito de justiça é o próprio, o de condenar o pecador. Em Romanos 9, Paulo compara os gentios com os judeus, que os gentios encontraram a justiça, sem buscá-la, mas a encontraram através da fé. Fazendo alusão a velha e a nova aliança. Em Filipenses 3 se confirma isso, que a justiça não vem da Lei, mas vem da fé. Ou seja, a origem dela não é o nosso código moral.

Estes justiceiros se apropriam do nome justiça para replicar o farisaísmo litúrgico. Porém o Evangelho ensina o contrário, que a justiça vem através do amor. João relata a prática do pecado, relacionada na justiça e no amor, distinguindo quem é filho de Deus e filho do diabo, pois quem não pratica a justiça, e não ama o irmão, não é de Deus. E para concluir ele reforça o princípio do Evangelho, que nos amemos uns aos outros. A justiça deles está mais no sentido de Romanos 10:3, porém compreendemos que na nossa injustiça é que se manifesta a justiça de Deus. Eles monopolizam a justiça como se a fonte da justiça fosse eles. Acho irônico ver muitos calvinistas recitarem discursos do tipo, afundam em uma meritocracia espiritual em detrimento ao moralismo religioso.

Em toda epístola aos Gálatas relata esta relação da Lei e justiça, a justiça não provém da Lei, ou qualquer outra determinação litúrgica, do contrário o sacrifício de Jesus é em vão. A lei existe para os transgressores, e não o contrário. Como não conseguimos deixar de sermos transgressores, só nos resta contar com o amor de Deus. É em Gálatas que Paulo também relata que devemos usar da liberdade para servirmos uns aos outros através do amor, e reforça que toda a lei se resume em amar o próximo como a ti mesmo. Assim para então concluir a carta citando os Frutos do Espírito: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. E reafirma que contra estas coisas não há lei.

Em ‘Evangelho do Maltrapilho’, Brennan Manning também chega a uma conclusão semelhante, alegando que, rejeitando o poder da Graça, os evangélicos validam mais as normas que a Graça, mesmo que em discurso diga o contrário, na prática as instituições religiosas causam feridas por serem duras e normativas:

Dobrando-se aos poderes deste mundo, a mente deformou o evangelho da graça em cativeiro religioso e distorceu a imagem de Deus à forma de um guarda-livros eterno e cabeça-dura. A comunidade cristã lembra uma bolsa de obras de Wall Street, na qual a elite é honrada e os comuns ignorados. O amor é reprimido, a liberdade acorrentada e o cinto de segurança da justiça-própria devidamente apertado. A igreja institucional tornou-se alguém que inflige feridas nos que curam, em vez de ser alguém que cura os feridos.
Dito sem rodeios: a igreja evangélica dos nossos dias aceita a graça na teoria, mas nega-a na prática. Dizemos acreditar que a estrutura mais fundamental da realidade é a graça, não as obras — mas nossa vida refuta a nossa fé. De modo geral o evangelho da graça não é proclamado, nem compreendido, nem vivido. Um número grande demais de cristãos vive na casa do temor e não na casa do amor.

Já pararam para pensar que se Paulo quisesse ser normativo, ao invés de ficar rodando em congregação em congregação, lidando com diversos problemas, ele não iria simplesmente escrever um manual de dogmas cristãos e enviar para todas as congregações dizendo o que pode ou não fazer?

A Lei do Amor não é normativa como a Lei Mosaica, ela é mergulhada na Graça, onde recebemos a Graça de Deus e replicamos para o próximo. É por isso que toda lei se resume em amar. O amor é a finalidade do Evangelho.

“Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.”

Mateus 18:20-20

anarquia-igreja-sem-hierarquia

Nestes últimos anos tem se popularizado uma consciência entre os cristãos de se reunirem em casas, de forma mais simples. Alegam que desejam um Evangelho puro, assim como o da Igreja Primitiva.

E assim com o surgimento de uma nova tendência há sempre uma contra tendência, principalmente entre aqueles que se sentem ameaçados com isso. Logo começam as acusações alegando os mais diversos tipos de declarações contra estes irmãos que decidiram apenas congregar diferente, os chamam até pejorativamente de desigrejados.

Alegam que são compostos por pessoas feridas. Esta alegação é muito perigosa. Pois nem todas as pessoas estão feridas, algumas foram muito machucadas, mas foram, ou serão, curadas pelo grupo, afinal este é um dos papéis da congregação.

Outro ponto a se abordar é que se foram feridas, foram feridas por quem? Então não seria injusto atacar pessoas que são vítimas de um sistema ao invés de questionar por quem e como estas pessoas estão sendo machucadas?

Vale lembrar também que nem todos que congregam em comunidades orgânicas eram convertidos em alguma instituição antes. Afinal, por mais que caluniam que eles não evangelizam e não batizam. Isto é uma mentira. Há de fato novos convertidos nestes meios, e eles evangelizam sim. Talvez não como o meio que a sua instituição queira, com aquele singelo convite de ir ao culto em seu templo, como se isso fosse cumprir o ‘Ide’.

Da mesma forma quando acusam que não ceiam. Talvez não ceiam como uma liturgia ritualística, esperando a Transubstanciação, mesmo que substituam este nome por ‘apenas uma representação’ do vinho em sangue, e do pão em carne. Estes irmãos apenas entenderam que a ceia é além de um rito, que é partilhar a mesa. Que é compartilhar inclusive a vida, o que nos leva a outra calúnia, que não congregam. Afinal congregar, deixou de ser unir-se intimamente, para ir em reuniões em algumas instituições religiosas. Aí cabe questionar pessoas vinculadas a uma instituição, pessoas que ceiam e se reúnem em eventos religiosos, mas não congregam, pois fora dali nem se relacionam com outras pessoas da mesma congregação.

E quanto à igreja? Será mesmo que acreditam que estes irmãos não fazem parte da Igreja? Isto nos leva a um questionamento o que é ser Igreja? É ter um CNPJ? É ter um prédio? Bem, aprendi ao ler a bíblia que é como Jesus falou para a Samaritana quando ela perguntou onde adorar: nem em Samaria, nem em Jerusalém, mas cabe adorar em espírito e verdade. Também aprendi com Estevão e com o profeta Isaías que Deus não habita em templos feitos por mãos humanas. E com Jesus também aprendi que bastavam dois ou três reunidos em nome d’Ele, para que Deus se fizesse presente.

Então, por que chamar estes irmãos de desigrejados? Eles não fazem parte do Corpo? Que instituição com qual CNPJ detém o direito divino de definir quem é ou não parte do Corpo? Até porque eles não apostataram da fé, eles apenas resolveram congregar e exercer o auto-sacerdócio fora da tutela de uma instituição. Então deixe seus irmãos congregarem em paz, e não caia no discurso de doutrinadores que estão preocupados mais por manter seus privilégios como líderes eclesiásticos, do que com a saúde do Corpo.