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“Quando há em um Estado uma constituição qualquer, o poder se mantêm pela violência, poder que pode ser monopolizado por alguns homens, por meios diferentes. De qualquer forma, sempre haverá probabilidade de ocorrer os mesmos acontecimentos que agora ocorrem na Rússia – a guerra e a repressão dos revoltosos.”
Trecho de Leon Tolstoi em ‘Anarquismo e Cristianismo’.

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Daniel desempenhou um importante papel na política Babilônica. Fora levado para uma terra desconhecida, por um povo que atacou a sua nação, levou cativo os seus conterrâneos e continuaria por anos oprimindo a sua nação. Mas a Graça manifestou de forma surpreendente, que Daniel nunca causou mal àquele povo que facilmente poderíamos considerá-lo como infiel.
Na verdade só por isto mostra o quanto que Daniel compreendia o conceito de graça e misericórdia de Deus. Em uma sociedade cristã como a de hoje, em que mergulhamos em dicotomias, como lidaríamos com um povo que invade nossas terra e leva a população cativa e a escraviza? Facilmente consigo imaginar discursos com apelos religiosos, alegando que Deus vai trazer a sua Justiça e vai cortar a cabeça da serpente ou coisa do tipo.
Porém o que mais me surpreende na postura de Daniel, é o seu posicionamento diante legalistas que legislavam contra ele. O livro do profeta, relata algumas leis eram feitas para incriminar e perseguir especificamente Daniel e seus companheiros, não se relata que era para benefício da sociedade, mas sim perseguição política de uma classe de aristocratas querendo eliminar Daniel e companheiros.
Mas mesmo assim, Daniel em nenhum momento legislou contra os seus oponentes e nem mesmo para defender seu grupo de afinidade, no caso, os judeus perseguidos e cativos. Também nunca precisou elaborar leis que restringisse os atos pecaminosos daquele povo, que não eram poucos. Ele entendia o conceito coercitivo do governo, assim como Tolstói, na obra citada acima, aborda sobre o posicionamento do cristão diante o Estado:
“O cristão rechaça a lei do Estado porque não tem necessidade dela nem para ele nem para os demais, posto que julga a vida humana mais garantida pela lei do amor que professa, que pela lei sustentada pela violência.
Para o cristão que conhece as necessidades da lei do amor, as necessidades da lei da violência não somente não podem ser-lhe obrigatórias, como se apresentam diante dele como erros que devem ser denunciados e destruídos.
A essência do cristianismo é o cumprimento da vontade de Deus que não pode ser possível pela atividade exterior que consiste em estabelecer e aplicar formas exteriores de vida, a vontade de Deus é apenas possível pela atividade interior, pela mudança da consciência, e consequente melhora da vida humana. A liberdade é a condição necessária da vida cristã. A profissão do cristianismo livra o homem de todo poder exterior, e ao mesmo tempo lhe dá a possibilidade de esperar o melhoramento da vida que busca em vão pela mudança das formas exteriores da vida.
Os homens acham que sua situação melhora graças às mudanças das formas exteriores da vida, e, sem embargo essas mudanças nem sempre resultam em uma modificação da consciência.
Todas as mudanças exteriores das formas que não são consequência de uma modificação da consciência, não somente não melhoram a condição dos homens, como com frequência a agravam. Não são os decretos do governo que tem abolido a matança de crianças, as torturas, a escravidão, é a evolução da consciência humana que tem provocado a necessidade destes decretos; e a vida não melhora em passo mais rápido do que o passo do movimento da consciência, ou seja, a vida melhora na medida em que a lei do amor ocupa na consciência do homem o lugar antes ocupado pela lei da violência.”
Aliás, vale frisar este discurso moralista dos conservadores de serem os reguladores, ou como eles colocam, aqueles que preservam a moral da sociedade, em nada combina com o Daniel bíblico. O profeta em nada fez para legislar leis cujo o intuito era aplicar a força estatal os seus valores religiosos sobre um povo que ele não seguia tais valores.
O objetivo do Daniel era específico e assertivo, ele apenas deu testemunho e ganhou a alma do rei Dario. Seus atos eram para o benefício do povo babilônico, ele era conhecido por sua sabedoria e justiça, a ponto dos reinados passarem, três reis reinaram sobre Babilônia na época de Daniel, mas o profeta permanecia firme, e era bem visto por todos.
Os atos de Daniel foram tão marcantes que a própria bíblia relata o quanto que o rei ficou tocado com a postura de Daniel e sua fidelidade a Deus, a ponto do próprio Deus o guardar:
“Então o rei Dario escreveu a todos os povos, nações e línguas que moram em toda a terra: A paz vos seja multiplicada. Da minha parte é feito um decreto, pelo qual em todo o domínio do meu reino os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel; porque ele é o Deus vivo e que permanece para sempre, e o seu reino não se pode destruir, e o seu domínio durará até o fim. Ele salva, livra, e opera sinais e maravilhas no céu e na terra; ele salvou e livrou Daniel do poder dos leões. Este Daniel, pois, prosperou no reinado de Dario, e no reinado de Ciro, o persa.” Daniel 6:25-28
Com isso analiso o nosso comportamento. Tão ávidos a regular a posição do outro. Em embutir nossos conceitos morais aos demais. Ao mesmo tempo tão deficientes de Graça e testemunho. Tão fracos em nosso posicionamento, mas forte em exigir dos outros.
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“O livre comércio, isto é, o livre monopólio, é a santa aliança dos grandes feudatários do capital e da indústria, a argamassa monstra que deve terminar em cada ponto do globo a obra começada pela divisão do trabalho, pelas máquinas, pela concorrência, pelo monopólio e pela política econômica; esmagar a pequena indústria e submeter definitivamente o proletariado. É a centralização em toda face da terra desse regime de espoliação e de miséria, produto espontâneo de uma civilização que começa, mas que deve perecer logo que a civilização tiver adquirido consciência de suas leis; é a propriedade em sua força e sua glória. E é para introduzir o consumo desse sistema que tantos milhões de trabalhadores estão famintos, tantas criaturas inocentes ainda amamentando atiradas no nada, tantas jovens e mulheres prostituídas, tantas almas vendidas, tantos caracteres emurchecidos! Se ao menos os economistas soubessem de uma saída para esse labirinto, de um fim para essa tortura. Mas não, sempre! Nunca! Como o relógio dos condenados, é um refrão do apocalipse econômico. Oh! Se os condenados pudessem queimar o inferno!”

Trecho do livro:”Sistema das Contradições Econômicas ou Filosofia da Miséria” – Proudhon

anarquismo como combate ao capitalismo

Proudhon chamava este livre-mercado, ao que se referem os liberais, como livre-monopólio. Uma multinacional engoliria uma pequena empresa qualquer em um modelo de Capitalismo sem intervenção estatal. Digo sem intervenção estatal, pois é ilusão imaginar um mundo capitalista sem Estado, devido a questão do direito a propriedade, que necessita de um governo para existir. O que proponho é fazer um exercício de reflexão sobre o assunto.

Quem entende de economia e mercado sabe que um acumulador de bens possui vantagens que os demais não teriam. Tais vantagens eliminariam qualquer chance de concorrência, fazendo com que as menores concorrentes quebrassem ou fossem engolidas pelas maiores.

Uma empresa com uma produção maior compra insumos a preços mais baixos devido ao alto volume. Também devido ao mesmo volume, faz pressão no ponto de venda para posicionar a marca em locais estratégicos, garantindo mais visibilidade para os consumidores. Tem recursos para investir em melhores maquinários e em melhores mão-de-obra, o que aumenta a qualidade do produto. Tem condições para ter um grande sistema de distribuição abrangendo ainda mais a sua atuação geográfica, atingindo mercados diversos. Possui recursos para investir pesado em propaganda, o que favorece e muito nas vendas.

Vale ressaltar que por ter uma atuação em um âmbito geograficamente maior. Ela pode manter a sua indústria onde a mão-de-obra é ainda mais barata, ou qualquer outra vantagens. O que as pequenas concorrentes não podem, pois ficam presas as suas pequenas regiões de atuação. Quem sabe as grandes empresas, possam até regiões onde a fiscalização trabalhista não é tão efetiva, e poderia usar de mão-de-obra escrava.

Se ainda isso tudo não for suficiente, como se fosse pouco, ela pode reduzir os preços abaixo do valor de custo, que já é mais baixo, forçando todas as concorrentes a fazerem o mesmo. A questão é que a multinacional teria capital de reserva para manter-se por um bom tempo no prejuízo, enquanto as outras não.

Depois das concorrentes quebradas, o monopólio estabelecido. A tal multinacional poderia aumentar seus preços e colocar onde quisessem, já que ela controla o mercado. E caso surja novas concorrentes, basta repetir o processo.

Assim, chego a conclusão que mesmo sem um Estado intervencionista, se não houver oportunidades reais de concorrência, e isto inclui capital armazenado, não existe livre-mercado.

Então o que seria livre-mercado de fato. Proudhon jamais usara este termo, mas a sua proposta mutualista era um mercado e ele era livre, não só do governo, mas também dos acumuladores. E sobre isso, ele diz em um trecho de “O Que É Propriedade?”:

“Se os bens são propriedades, os proprietários são reis, e reis despósticos, reis em proporção de suas faculdades de ganância. E se cada proprietário é soberano na esfera de sua propriedade, rei inviolável em toda a extensão de seu domínio, como um governo de proprietários não seria um caos e uma confusão?”
Portanto, não há governo, não há economia pública, não há administração possível com a propriedade por base.
A comunidade procura a igualdade e a lei: a propriedade, fruto da autonomia da razão e do sentimento do mérito pessoal, almeja acima de tudo a independência e a proporcionalidade.
Mas a comunidade, tomando a uniformidade por lei e o nivelamento por igualdade, torna-se tirânica e injusta: a propriedade, por seu despotismo e suas invasões, não tarda a mostrar-se opressiva e insociável.
O que a comunidade e a propriedade querem é bom: o que produzem é mau. E por quê? Porque ambas são exclusivas e ignoram, cada uma por seu lado, dois elementos da sociedade. A comunidade rejeita a independência e a proporcionalidade; a propriedade não satisfaz a igualdade e a lei.
Ora, se concebemos uma sociedade fundada nos quatro princípios, igualdade, lei, independência, proporcionalidade, encontramos:
1.° – Que a igualdade, consistindo apenas na igualdade das condições, isto é, dos meios, e não na igualdade de bem-estar, a qual, com meios iguais, deve ser obra do trabalhador, não viola de nenhuma maneira a justiça e a equidade;
2° – Que a lei, resultando da ciência dos fatos, conseqüentemente apoiando-se na própria necessidade, não fere jamais a independência;
3.° – Que a independência respectiva dos indivíduos, ou autonomia da razão privada, derivando da diferença dos talentos e capacidades, pode existir sem perigo nos limites da lei;
4.° – Que a proporcionalidade, só admissível na esfera da inteligência e do sentimento, não na das coisas físicas, pode ser observada sem violar a justiça ou a igualdade social.
Essa terceira forma de sociedade, síntese da comunidade e da propriedade, nós a chamaremos LIBERDADE.
Para determinar a liberdade, não juntamos sem discernimento a comunidade e a propriedade, o que seria um ecletismo absurdo. Buscamos, graças a um método analítico, o que cada uma delas possui de verdadeiro, em conformidade com o anseio da natureza e as leis da sociabilidade, eliminando todos os seus elementos estranhos; e o resultado fornece uma expressão adequada à forma natural da sociedade humana, numa palavra, a liberdade.
A liberdade é igualdade, pois liberdade só existe no estado social e fora da igualdade não existe sociedade.
A liberdade é anarquia, pois não admite o governo da vontade, apenas a autoridade da lei, isto é, da necessidade.
A liberdade é variedade infinita, pois respeita todas as vontades nos limites da lei.
A liberdade é proporcionalidade, pois deixa um caminho aberto à ambição do mérito e à emulação da glória.”

Antes de concluir, precisamos reforçar que no mutualismo o trabalho assalariado não é encarado como troca voluntária, mas sim uma relação opressora entre empregador empregado, já que a troca voluntária seria uma relação entre os dois, mas o trabalho assalariado é uma hierarquização do empregador sobre o empregado.

Sendo assim, na proposta de Proudhon, ninguém poderia explorar do trabalho para enriquecimento. E um sujeito trabalhando sozinho não conseguiria enriquecer, e se trabalhasse cooperativado teria que repartir os ganhos.

Então chegamos a conclusão que liberdade é igualdade, anarquia, variedade infinita, e proporcionalidade. Entendemos que para ter um livre-mercado, é necessário se ater a estas características, no balanço entre comunidade e propriedade.

Logo, qualquer tipo de monopólio, acúmulo de bens, seria uma ameaça para a liberdade. Garantindo a liberdade do mercado com reais chances de concorrência entre os trabalhadores.

Então os fariseus saíram e começaram a planejar um meio de enredá-lo em suas próprias palavras.
Enviaram-lhe seus discípulos juntamente com os herodianos que lhe disseram: “Mestre, sabemos que és íntegro e que ensinas o caminho de Deus conforme a verdade. Tu não te deixas influenciar por ninguém, porque não te prendes à aparência dos homens.
Dize-nos, pois: Qual é a tua opinião? É certo pagar imposto a César ou não? ”
Mas Jesus, percebendo a má intenção deles, perguntou: “Hipócritas! Por que vocês estão me pondo à prova?
Mostrem-me a moeda usada para pagar o imposto”. Eles lhe mostraram um denário,
e ele lhes perguntou: “De quem é esta imagem e esta inscrição? ”
“De César”, responderam eles. E ele lhes disse: “Então, dêem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
Ao ouvirem isso, eles ficaram admirados; e, deixando-o, retiraram-se.
Mateus 22:15-22

anarquismo como combate ao capitalismo

Já vi muitos usarem textos bíblicos como este: “dê a César o que é de César”, para justificarem a exploração do Estado sobre a sociedade. É irônico isso, pois se tornou um chavão, e as pessoas não analisam mais nem o contexto em que ele disse isso. Onde os fariseus se juntaram com os herodianos para encontrar algo em Jesus que o incriminassem.

Esta confusão com a alegação de Cristo e o uso dela como apoio ao governo se trata de séculos onde o vínculo da igreja com o Estado fez com que este sistema usasse deste conceito para deixar as pessoas conformadas em relação a situação da coerção, justificando atos irresponsáveis e cobrança de taxas.

Mas basta apenas uma pequena análise no texto e se compreende o quão infundada é esta tese conformista, pois Jesus estava respondendo a acusadores que estavam o questionando para que conseguissem algo para acusá-lo.

A pergunta, como muitas feitas a Jesus, era uma cilada, se Jesus se declarasse contra os impostos, era preso, mas se ele se declarasse a favor, seria rejeitado pelos judeus que se sentiam explorados por Roma. O que Vernard Eller nos mostra em ‘Anarquia Cristã’:

“Não existem evidências que Jesus teve algo de bom a dizer sobre os Zelotes revolucionários – embora Ele provavelmente fosse mais fortemente contrário à ordem vigente judia que se encontrava acomodada perante a ocupação romana. Porém, a fala de Jesus de que a moeda deveria ser dada a César, de maneira alguma pode ser entendida como uma legitimação ou escolha por parte dEle de estar a favor da ordem vigente. Considere que a questão acerca do pagamento dos impostos foi feita como um truque hipócrita de alguns indivíduos da situação. Eles sabiam – e dependiam do fato – que Jesus nunca se colocaria ao lados deles, nem colaboraria com os romanos. Então, se eles pudessem colocá-Lo contra a parede, onde Ele teria que dizer que os impostos devem ser sonegados, Ele então seria visto como um Zelote assumido. Eles poderiam então denunciar Jesus às autoridades como um inimigo do Estado.

Não existem evidências que Jesus teve algo de bom a dizer sobre os Zelotes revolucionários – embora Ele provavelmente fosse mais fortemente contrário à ordem vigente judia que se encontrava acomodada perante a ocupação romana. Porém, a fala de Jesus de que a moeda deveria ser dada a César, de maneira alguma pode ser entendida como uma legitimação ou escolha por parte dEle de estar a favor da ordem vigente. Considere que a questão acerca do pagamento dos impostos foi feita como um truque hipócrita de alguns indivíduos da situação. Eles sabiam – e dependiam do fato – que Jesus nunca se colocaria ao lados deles, nem colaboraria com os romanos. Então, se eles pudessem colocá-Lo contra a parede, onde Ele teria que dizer que os impostos devem ser sonegados, Ele então seria visto como um Zelote assumido. Eles poderiam então denunciar Jesus às autoridades como um inimigo do Estado.

Apesar de que os Zelotes, isso deve ficar claro, eram muito mais do que simples sonegadores de impostos como conhecemos hoje – e muito mais radicalmente consistentes. Por conta da moeda, o denário de prata romano, conter a imagem e a inscrição de César, os Zelotes consideravam tanto traição quanto idolatria até mesmo olhar para uma, imagine então possuí-la. Para tanto, possuir as coisas e lucrar com elas pode ser por si só, colaboração com o opressor estrangeiro. Ninguém podia acusar esses rebeldes de tomar o dinheiro de César com uma mão enquanto recusavam a dar a porcentagem dele com a outra; a dissociação deles com o sistema maligno era tão completa o quanto lhes era possível. Assim, para mostrar a sua aliança com Deus, eles estavam dispostos tanto a esfaquear um colaborador judeu quanto um senhor romano.

Quando Jesus teve que pedir por um denário, certamente é para indicar que Ele não possuía um e, nesse contexto, Ele poderia ser qualificado como um Zelote. Por outro lado, o que os questionadores fizeram, imediatamente os identifica de forma clara como colaboradores. O contexto coloca Jesus numa escolha inescapável – Ele deve recomendar apoiar a ordem vigente com o pagamento de impostos, ou apoiar a revolução ao sonegá-los.

O primeiro significado da resposta de Jesus é dado ao feito daqueles que conscientemente tiram o dinheiro de César (a imagem dele na moeda é prova o suficiente de onde o dinheiro foi pego), que é melhor que se encontrem conscientemente capazes de devolver a parte que César pede – isso faz parte da barganha; eles já estão realmente comprometidos. Notem, porém, que isso não tem nada a ver com querer ou escolher. Colaboradores (e aqueles que possuem a moeda de César, é prova suficiente de que eles tem dívida) devem pagar seus impostos; ainda que isso não diga nada se alguém deve ou não possuir as moedas e ser um colaborador.”

Dizer que com a alegação Jesus, sobre dar a César, abre precedentes para a coerção do Estado, é o mesmo que dizer que ao dizer que “aquele que não tiver pecado, atire a primeira pedra” na situação da mulher adúltera, é abrir precedente para o homem viverem pecado.

David Henry Thoreau explica sobre a relação entre o Estado e a riqueza, e o quanto que o pobre sofre com os impostos, e a injustiça deste processo. Injustiça esta que deveria passar pela cabeça dos judeus contemporâneos a Cristo, é o que o autor relata em sua obra ‘Desobediência Civil’:

“Refleti sobre o aprisionamento do ofensor e não sobre o confisco de seus bens, embora ambos possam servir ao mesmo propósito, porque aqueles que afirmam o mais puro direito, e são, consequentemente, mais perigosos para um Estado corrupto, normalmente não passaram muito tempo a acumular propriedades. A esses, o Estado presta, comparativamente, pouco serviço, e um pequeno imposto costuma ser visto como exorbitante, particularmente se são obrigados a ganhá-lo com suas próprias mãos. Se houvesse alguém que pudesse viver inteiramente sem o uso de dinheiro, o próprio Estado hesitaria em exigir-lhe pagamento. Mas o homem rico – sem querer fazer nenhuma comparação invejosa – está sempre vendido à instituição que o faz rico. Falando em termos absolutos, quanto mais dinheiro, menos virtude, pois o dinheiro se interpõe entre um homem e seus objetivos, e os obtém para ele, e certamente não há grande virtude em fazê-lo. O dinheiro abafa muitas questões que, de outro modo, este homem seria levado a responder, ao mesmo tempo em que a única nova questão que lhe propõe é a difícil, embora supérflua, questão de saber como gastá-lo. Assim, seu fundamento moral lhe é retirado de sob os pés. As oportunidades de viver diminuem na proporção em que aumenta o que se chama de “meios”. O melhor que um homem pode fazer por sua cultura, quando enriquece, é tentar pôr em prática os planos que concebeu quando pobre. Cristo respondeu aos herodianos de acordo com sua situação. “Mostrai-me o dinheiro do tributo”, disse, e um deles tirou uma moeda do bolso. Se usais dinheiro com a imagem de César gravada, e que ele tornou corrente e útil, ou seja, se sois homens do Estado, e de bom grado desfrutais as vantagens do governo de César, então devolvei a ele um pouco do que lhe pertence quando ele assim o exigir. “Logo, dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, disse, deixando-os sem saber mais do que antes a respeito de qual era qual, pois não desejavam sabê-lo.

Quando converso com os mais livres dos meus semelhantes, percebo que, seja o que for que digam sobre a magnitude e seriedade do problema, e sobre sua preocupação com a tranquilidade pública, o cerne da questão é que não podem dispensar a proteção do governo existente e temem as consequências que possam advir para suas propriedades e suas famílias da desobediência a ele. De minha parte, não gostaria de pensar que alguma vez tenha confiado na proteção do Estado. No entanto, se nego a autoridade do Estado quando ele me apresenta a conta dos impostos, logo ele irá se apossar de meu patrimônio e dissipá-lo, molestando-me, assim, interminavelmente, bem como aos meus filhos. Isso é injusto. Isso torna impossível a um homem viver honestamente, e ao mesmo tempo confortavelmente, no que diz respeito às circunstâncias exteriores. Não valerá a pena acumular propriedades, pois com certeza estas seriam novamente confiscadas. Deves arrendar ou ocupar terra devoluta num lugar qualquer, plantar não mais que uma pequena safra e consumi-la imediatamente. Deves viver contigo e depender só de ti, sempre arrumado e pronto para partir, e não ter muitos negócios. Um homem pode enriquecer até mesmo na Turquia, se for, em todos os aspectos, um bom súdito do governo turco. Confúcio disse: “Se um Estado for governado pelos princípios da razão, a pobreza e a miséria serão objeto de vergonha; se um Estado não for governado pelos princípios da razão, a riqueza e as honrarias serão objeto de vergonha.” Não: até que eu queira que a proteção de Massachusetts me seja proporcionada em algum distante porto do Sul em que minha liberdade seja ameaçada, ou até que eu me veja exclusivamente voltado para o desenvolvimento de uma propriedade em seu território, através de um empreendimento pacífico, posso permitir-me recusar obediência a Massachusetts e seu direito a minha vida e meu patrimônio. Custa-me menos, em todos os sentidos, incorrer na pena de desobediência ao Estado do que me custaria obedecer-lhe. Neste caso, eu haveria de me sentir diminuído.

Há alguns anos, o Estado veio ao meu encontro, em nome da Igreja, e mandou-me pagar uma certa quantia em benefício de um padre a cujas pregações meu pai comparecia, mas a que eu mesmo jamais comparecera. “Paga”, disse, “ou serás preso”. Eu me recusei a pagar, mas, infelizmente, outro homem houve por bem fazê-lo. Eu não via por que o mestre-escola deveria pagar um imposto para sustentar o padre, e não o contrário, já que eu não era um mestre-escola do Estado mas me mantinha através de subscrição voluntária. Não via por que a escola não deveria apresentar sua conta de impostos e fazer com que o Estado atendesse a suas exigências, assim como a Igreja. Contudo, a pedido dos conselheiros municipais, concordei em fazer, por escrito, uma declaração como esta: “Saibam todos, pela presente, que eu, Henry Thoreau, não desejo ser considerado membro de nenhuma sociedade juridicamente constituída à qual não tenha me associado”. Entreguei-a ao secretário da câmara municipal, que a guarda com ele. Desde então, o Estado, tendo tomado conhecimento de que eu não desejava ser considerado membro daquela igreja, nunca mais me fez tal exigência, embora dissesse que precisava manter-se fiel a sua presunção inicial naquela época. Se eu tivesse como especificá-las então, teria identificado minuciosamente todas as sociedades às quais não pertencia. Mas não soube onde encontrar uma lista completa delas.”

Como explicado anteriormente com o texto de Vernard Eller, o repúdio à moeda romana era tamanho, que alguns judeus consideravam portá-la como idolatria, por conter a a imagem de César, que era considerado um ser divino, inscrita na moeda. Jesus mostra também ao tocar na moeda que isto pouco importava, mostra também que a moeda cunhada com o rosto de César, era cunhada por Roma, mas fora Deus que havia criado o metal utilizado. Algo que Jacques Ellul classifica o que era de César e o que era de Deus:

“A marca era o único modo pelo qual a posse poderia ser reconhecida. Na estrutura do Império Romano, isso era aplicado a todos os bens. Todas as pessoas tinham suas próprias marcas, tais como um selo, estampa ou um sinal pintado. A face de César nessa moeda era mais que uma decoração ou marca de honra. Significava que todo o dinheiro em circulação no império pertencia a César. Isso é muito importante. Aqueles que tinham o dinheiro, eram donos muito precários. Eles nunca realmente possuíram as peças de bronze ou prata. Sempre que um imperador morria, a imagem mudava. César era o proprietário exclusivo. Jesus, então, teve uma resposta muito simples: “Dai pois a César o que é de César”. Vocês encontram a imagem dele nessa moeda. A moeda, então, pertence a ele. Devolvam quando ele pedi-la.

Com essa resposta Jesus não diz que impostos são legais. Ele não aconselha obediência aos romanos. Ele apenas mostra as evidências. Mas o que realmente pertence a César? O excelente exemplo usado por Jesus torna isso óbvio: qualquer coisa que tiver sua marca! Aqui está a base e o limite de seu poder. Mas onde está a sua marca? Em moedas, monumentos públicos, e em certos altares. Isso é tudo. Deem a César. Vocês podem pagar o imposto. Fazer isto é sem importância ou significado, pois todo dinheiro pertence a César, e se ele quisesse, poderia simplesmente confiscá-lo. Pagar ou não impostos não é uma questão básica; não é nem mesmo uma verdadeira questão política.

Por outro lado, qualquer coisa que não tiver a marca de César não pertence a ele. Tudo pertence a Deus41. Isto é onde surge a verdadeira objeção consciente. César não tem qualquer direito sobre o resto. Primeiro nós temos vida. César não tem o direito sobre a vida e a morte. César não tem o direito de mergulhar pessoas na guerra. César não tem o direito de devastar e arruinar um país. O domínio de César é muito limitado. Podemos nos opor à maioria de suas pretensões em nome de Deus. Jesus desafia os herodianos, então, mas eles não tem objeções ao que Ele diz. Eles também eram judeus, e sendo que o texto nos conta que aqueles que levantaram a questão eram fariseus, assim como herodianos, podemos ter certeza de que alguns deles eram judeus devotos. Por isso, eles não podiam contestar a declaração de que o resto é de Deus. Ao mesmo tempo, Jesus estava respondendo indiretamente aos zelotes que queriam transformar a luta pela libertação de Israel em uma luta política. Ele os lembrou qual era o limite assim como a base da luta.”

Ou seja, podemos concluir que Jesus não estava legitimando os impostos, ele estava dizendo que havia uma marca na moeda que identificava o proprietário dela, César. Ele ensinou que o sistema utiliza destes recursos para se administrarem, e que isto pouco importava, já que tudo era criado por Deus.

Sei que para alguns cristãos isso será antagônico o que eles aprenderam, mas precisa-se entender que os ensinos de Jesus foram mudados de sentido desde a institucionalização da Igreja, e o vínculo dela com o Estado. Fora necessário usar dos ensinos religiosos apoio para a perpetuação do Estado.

Porém a figura de Cristo era antissistêmica, ele repudiou os meios organizacionais dos gentios, governavam e se deixavam governar, e orientou para os discípulos não serem assim. Ele alertou sobre o príncipe deste mundo, referenciando a satanás, o seu rival, o qual o próprio havia oferecido a Jesus, no deserto, todos os reinos do mundo.

Logo, conclui-se que Jesus de forma alguma pretendia favorecer o governo em sua exploração a sociedade, pois Deus não tem parte com exploradores. Dê a César o que é de César, ou seja, dê ao governo o que é mundano, pois ele é mundano, e dê a Deus o que é divino. Não divinize jamais o governo.