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“O livre comércio, isto é, o livre monopólio, é a santa aliança dos grandes feudatários do capital e da indústria, a argamassa monstra que deve terminar em cada ponto do globo a obra começada pela divisão do trabalho, pelas máquinas, pela concorrência, pelo monopólio e pela política econômica; esmagar a pequena indústria e submeter definitivamente o proletariado. É a centralização em toda face da terra desse regime de espoliação e de miséria, produto espontâneo de uma civilização que começa, mas que deve perecer logo que a civilização tiver adquirido consciência de suas leis; é a propriedade em sua força e sua glória. E é para introduzir o consumo desse sistema que tantos milhões de trabalhadores estão famintos, tantas criaturas inocentes ainda amamentando atiradas no nada, tantas jovens e mulheres prostituídas, tantas almas vendidas, tantos caracteres emurchecidos! Se ao menos os economistas soubessem de uma saída para esse labirinto, de um fim para essa tortura. Mas não, sempre! Nunca! Como o relógio dos condenados, é um refrão do apocalipse econômico. Oh! Se os condenados pudessem queimar o inferno!”

Trecho do livro:”Sistema das Contradições Econômicas ou Filosofia da Miséria” – Proudhon

anarquismo como combate ao capitalismo

Proudhon chamava este livre-mercado, ao que se referem os liberais, como livre-monopólio. Uma multinacional engoliria uma pequena empresa qualquer em um modelo de Capitalismo sem intervenção estatal. Digo sem intervenção estatal, pois é ilusão imaginar um mundo capitalista sem Estado, devido a questão do direito a propriedade, que necessita de um governo para existir. O que proponho é fazer um exercício de reflexão sobre o assunto.

Quem entende de economia e mercado sabe que um acumulador de bens possui vantagens que os demais não teriam. Tais vantagens eliminariam qualquer chance de concorrência, fazendo com que as menores concorrentes quebrassem ou fossem engolidas pelas maiores.

Uma empresa com uma produção maior compra insumos a preços mais baixos devido ao alto volume. Também devido ao mesmo volume, faz pressão no ponto de venda para posicionar a marca em locais estratégicos, garantindo mais visibilidade para os consumidores. Tem recursos para investir em melhores maquinários e em melhores mão-de-obra, o que aumenta a qualidade do produto. Tem condições para ter um grande sistema de distribuição abrangendo ainda mais a sua atuação geográfica, atingindo mercados diversos. Possui recursos para investir pesado em propaganda, o que favorece e muito nas vendas.

Vale ressaltar que por ter uma atuação em um âmbito geograficamente maior. Ela pode manter a sua indústria onde a mão-de-obra é ainda mais barata, ou qualquer outra vantagens. O que as pequenas concorrentes não podem, pois ficam presas as suas pequenas regiões de atuação. Quem sabe as grandes empresas, possam até regiões onde a fiscalização trabalhista não é tão efetiva, e poderia usar de mão-de-obra escrava.

Se ainda isso tudo não for suficiente, como se fosse pouco, ela pode reduzir os preços abaixo do valor de custo, que já é mais baixo, forçando todas as concorrentes a fazerem o mesmo. A questão é que a multinacional teria capital de reserva para manter-se por um bom tempo no prejuízo, enquanto as outras não.

Depois das concorrentes quebradas, o monopólio estabelecido. A tal multinacional poderia aumentar seus preços e colocar onde quisessem, já que ela controla o mercado. E caso surja novas concorrentes, basta repetir o processo.

Assim, chego a conclusão que mesmo sem um Estado intervencionista, se não houver oportunidades reais de concorrência, e isto inclui capital armazenado, não existe livre-mercado.

Então o que seria livre-mercado de fato. Proudhon jamais usara este termo, mas a sua proposta mutualista era um mercado e ele era livre, não só do governo, mas também dos acumuladores. E sobre isso, ele diz em um trecho de “O Que É Propriedade?”:

“Se os bens são propriedades, os proprietários são reis, e reis despósticos, reis em proporção de suas faculdades de ganância. E se cada proprietário é soberano na esfera de sua propriedade, rei inviolável em toda a extensão de seu domínio, como um governo de proprietários não seria um caos e uma confusão?”
Portanto, não há governo, não há economia pública, não há administração possível com a propriedade por base.
A comunidade procura a igualdade e a lei: a propriedade, fruto da autonomia da razão e do sentimento do mérito pessoal, almeja acima de tudo a independência e a proporcionalidade.
Mas a comunidade, tomando a uniformidade por lei e o nivelamento por igualdade, torna-se tirânica e injusta: a propriedade, por seu despotismo e suas invasões, não tarda a mostrar-se opressiva e insociável.
O que a comunidade e a propriedade querem é bom: o que produzem é mau. E por quê? Porque ambas são exclusivas e ignoram, cada uma por seu lado, dois elementos da sociedade. A comunidade rejeita a independência e a proporcionalidade; a propriedade não satisfaz a igualdade e a lei.
Ora, se concebemos uma sociedade fundada nos quatro princípios, igualdade, lei, independência, proporcionalidade, encontramos:
1.° – Que a igualdade, consistindo apenas na igualdade das condições, isto é, dos meios, e não na igualdade de bem-estar, a qual, com meios iguais, deve ser obra do trabalhador, não viola de nenhuma maneira a justiça e a equidade;
2° – Que a lei, resultando da ciência dos fatos, conseqüentemente apoiando-se na própria necessidade, não fere jamais a independência;
3.° – Que a independência respectiva dos indivíduos, ou autonomia da razão privada, derivando da diferença dos talentos e capacidades, pode existir sem perigo nos limites da lei;
4.° – Que a proporcionalidade, só admissível na esfera da inteligência e do sentimento, não na das coisas físicas, pode ser observada sem violar a justiça ou a igualdade social.
Essa terceira forma de sociedade, síntese da comunidade e da propriedade, nós a chamaremos LIBERDADE.
Para determinar a liberdade, não juntamos sem discernimento a comunidade e a propriedade, o que seria um ecletismo absurdo. Buscamos, graças a um método analítico, o que cada uma delas possui de verdadeiro, em conformidade com o anseio da natureza e as leis da sociabilidade, eliminando todos os seus elementos estranhos; e o resultado fornece uma expressão adequada à forma natural da sociedade humana, numa palavra, a liberdade.
A liberdade é igualdade, pois liberdade só existe no estado social e fora da igualdade não existe sociedade.
A liberdade é anarquia, pois não admite o governo da vontade, apenas a autoridade da lei, isto é, da necessidade.
A liberdade é variedade infinita, pois respeita todas as vontades nos limites da lei.
A liberdade é proporcionalidade, pois deixa um caminho aberto à ambição do mérito e à emulação da glória.”

Antes de concluir, precisamos reforçar que no mutualismo o trabalho assalariado não é encarado como troca voluntária, mas sim uma relação opressora entre empregador empregado, já que a troca voluntária seria uma relação entre os dois, mas o trabalho assalariado é uma hierarquização do empregador sobre o empregado.

Sendo assim, na proposta de Proudhon, ninguém poderia explorar do trabalho para enriquecimento. E um sujeito trabalhando sozinho não conseguiria enriquecer, e se trabalhasse cooperativado teria que repartir os ganhos.

Então chegamos a conclusão que liberdade é igualdade, anarquia, variedade infinita, e proporcionalidade. Entendemos que para ter um livre-mercado, é necessário se ater a estas características, no balanço entre comunidade e propriedade.

Logo, qualquer tipo de monopólio, acúmulo de bens, seria uma ameaça para a liberdade. Garantindo a liberdade do mercado com reais chances de concorrência entre os trabalhadores.

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um-experimento-escola-capitalista

Um professor de economia na universidade de Coimbra disse que ele nunca reprovou um só aluno antes, mas tinha, uma vez, reprovado os seus alunos mais empenhados.

Esta classe em particular tinha insistido que o capitalismo realmente funcionava: onde os ricos eram apenas aqueles mais capacitado para tal, e os pobres eram preguiçosos e não gostavam de trabalhar, e que a desigualdade social era “justiça”.

O professor então disse, “Ok, vamos fazer um experimento capitalista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas nas provas.” As notas poderiam ser livremente trocadas conforme as relações dos alunos, portanto seriam reguladas pela ‘mão invisível do mercado’, convertidas em tickets, e todos somente os mais aptos seriam aprovados. Porém , como na realidade os recursos são limitados, as notas assim também seriam. Para os vinte alunos teriam apenas 160 notas, ou seja, 160 tickets, sendo a nota de corte 7.

Antes das provas alunos poderiam negociar previamente suas notas uns com os outros, alguns poderiam ser pagos por coordenar equipes de estudos; e outros tiveram acesso a provas das turmas dos anos anteriores, que poderiam vendê-las. Porém alguns estudaram disciplinadamente para receberem as melhores notas. Depois da prova terminada, os alunos entregaram suas provas juntamente com os tickets negociados.

Na outra semana o professor trouxe o resultado. Os alunos que perderam tempo estudando não conseguiram altas muito altas, pois eles tiveram que pagar para alguns que não estudaram, porém contribuíram gerenciando grupos de estudo. E por incrível que pareça os que não estudaram, mas que venderam as provas dos anos anteriores, foram os que mais se destacaram.

Na segunda prova, aqueles que e não tinham ficado com um bom resultado na prova anterior, se esforçaram ainda mais estudando, para desta vez conseguirem bons resultados. Os que já estavam bem, ficaram tranquilos, até porque os tickets da prova anterior poderiam ser também negociados nesta segunda prova. Com tickets acumulados eles conseguiam aumentar os preços das provas dos outros anos, assim não era qualquer um que tinha acesso a estas provas.

Quando o resultado da prova saiu, aqueles que já tinham notas acumuladas, receberam mais notas ainda. E começaram a se prepararem para a terceira prova. Os acumuladores souberam apostar nos melhores indivíduos os grupos. Sim, eles apostaram quem teria os melhores rendimentos nas provas.

Com o resultado da terceira prova, o professor constatou que seria um bom momento para terminar o experimento. Pois apenas 1 aluno já havia retido 50% das notas de toda turma, ou seja, 80 notas, enquanto os demais estavam lutando para conseguir as demais notas. O resultado ficou claro que apenas um aluno conseguiu ser aprovado, e ele sempre fora um péssimo aluno, porém agora, ele soube especular, negociar e extorquir as notas.

 

Esta história é para refutar a falaciosa história “um experimento socialista”, muito popular entre conservadores. Estes capitalistas não entendem de economia, principalmente ao se usar um exemplo como este, onde compara a riqueza, que é limitada, com notas da escola que todos que estudarem podem tirar 10, onde o valor final não interfere no valor do outro.

No capitalismo, nem todos podem ter notas 10, nem todos podem ser milionários. E os resultados do acúmulo de riqueza tem mostrado que na realidade uma pequena parcela da sociedade pode ter sucesso, e que para se sustentar assim precisa depreciar os demais.