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“Quando há em um Estado uma constituição qualquer, o poder se mantêm pela violência, poder que pode ser monopolizado por alguns homens, por meios diferentes. De qualquer forma, sempre haverá probabilidade de ocorrer os mesmos acontecimentos que agora ocorrem na Rússia – a guerra e a repressão dos revoltosos.”
Trecho de Leon Tolstoi em ‘Anarquismo e Cristianismo’.

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Daniel desempenhou um importante papel na política Babilônica. Fora levado para uma terra desconhecida, por um povo que atacou a sua nação, levou cativo os seus conterrâneos e continuaria por anos oprimindo a sua nação. Mas a Graça manifestou de forma surpreendente, que Daniel nunca causou mal àquele povo que facilmente poderíamos considerá-lo como infiel.
Na verdade só por isto mostra o quanto que Daniel compreendia o conceito de graça e misericórdia de Deus. Em uma sociedade cristã como a de hoje, em que mergulhamos em dicotomias, como lidaríamos com um povo que invade nossas terra e leva a população cativa e a escraviza? Facilmente consigo imaginar discursos com apelos religiosos, alegando que Deus vai trazer a sua Justiça e vai cortar a cabeça da serpente ou coisa do tipo.
Porém o que mais me surpreende na postura de Daniel, é o seu posicionamento diante legalistas que legislavam contra ele. O livro do profeta, relata algumas leis eram feitas para incriminar e perseguir especificamente Daniel e seus companheiros, não se relata que era para benefício da sociedade, mas sim perseguição política de uma classe de aristocratas querendo eliminar Daniel e companheiros.
Mas mesmo assim, Daniel em nenhum momento legislou contra os seus oponentes e nem mesmo para defender seu grupo de afinidade, no caso, os judeus perseguidos e cativos. Também nunca precisou elaborar leis que restringisse os atos pecaminosos daquele povo, que não eram poucos. Ele entendia o conceito coercitivo do governo, assim como Tolstói, na obra citada acima, aborda sobre o posicionamento do cristão diante o Estado:
“O cristão rechaça a lei do Estado porque não tem necessidade dela nem para ele nem para os demais, posto que julga a vida humana mais garantida pela lei do amor que professa, que pela lei sustentada pela violência.
Para o cristão que conhece as necessidades da lei do amor, as necessidades da lei da violência não somente não podem ser-lhe obrigatórias, como se apresentam diante dele como erros que devem ser denunciados e destruídos.
A essência do cristianismo é o cumprimento da vontade de Deus que não pode ser possível pela atividade exterior que consiste em estabelecer e aplicar formas exteriores de vida, a vontade de Deus é apenas possível pela atividade interior, pela mudança da consciência, e consequente melhora da vida humana. A liberdade é a condição necessária da vida cristã. A profissão do cristianismo livra o homem de todo poder exterior, e ao mesmo tempo lhe dá a possibilidade de esperar o melhoramento da vida que busca em vão pela mudança das formas exteriores da vida.
Os homens acham que sua situação melhora graças às mudanças das formas exteriores da vida, e, sem embargo essas mudanças nem sempre resultam em uma modificação da consciência.
Todas as mudanças exteriores das formas que não são consequência de uma modificação da consciência, não somente não melhoram a condição dos homens, como com frequência a agravam. Não são os decretos do governo que tem abolido a matança de crianças, as torturas, a escravidão, é a evolução da consciência humana que tem provocado a necessidade destes decretos; e a vida não melhora em passo mais rápido do que o passo do movimento da consciência, ou seja, a vida melhora na medida em que a lei do amor ocupa na consciência do homem o lugar antes ocupado pela lei da violência.”
Aliás, vale frisar este discurso moralista dos conservadores de serem os reguladores, ou como eles colocam, aqueles que preservam a moral da sociedade, em nada combina com o Daniel bíblico. O profeta em nada fez para legislar leis cujo o intuito era aplicar a força estatal os seus valores religiosos sobre um povo que ele não seguia tais valores.
O objetivo do Daniel era específico e assertivo, ele apenas deu testemunho e ganhou a alma do rei Dario. Seus atos eram para o benefício do povo babilônico, ele era conhecido por sua sabedoria e justiça, a ponto dos reinados passarem, três reis reinaram sobre Babilônia na época de Daniel, mas o profeta permanecia firme, e era bem visto por todos.
Os atos de Daniel foram tão marcantes que a própria bíblia relata o quanto que o rei ficou tocado com a postura de Daniel e sua fidelidade a Deus, a ponto do próprio Deus o guardar:
“Então o rei Dario escreveu a todos os povos, nações e línguas que moram em toda a terra: A paz vos seja multiplicada. Da minha parte é feito um decreto, pelo qual em todo o domínio do meu reino os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel; porque ele é o Deus vivo e que permanece para sempre, e o seu reino não se pode destruir, e o seu domínio durará até o fim. Ele salva, livra, e opera sinais e maravilhas no céu e na terra; ele salvou e livrou Daniel do poder dos leões. Este Daniel, pois, prosperou no reinado de Dario, e no reinado de Ciro, o persa.” Daniel 6:25-28
Com isso analiso o nosso comportamento. Tão ávidos a regular a posição do outro. Em embutir nossos conceitos morais aos demais. Ao mesmo tempo tão deficientes de Graça e testemunho. Tão fracos em nosso posicionamento, mas forte em exigir dos outros.

Estado mínimo e a falácia liberal

Publicado: 20 de setembro de 2016 por Plínio em Anarquismo
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“Ser governado significa ser observado, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, cercado, doutrinado, admoestado, controlado, avaliado, censurado, comandado; e por criaturas que para isso não tem o direito, nem a sabedoria, nem a virtude… Ser governado significa que todo movimento, operação ou transação que realizamos é anotada, registrada, catalogado em censos, taxada, selada, avaliada monetariamente, patenteada, licenciada, autorizada, recomendada ou desaconselhada, frustrada, reformada, endireitada, corrigida. Submeter-se ao governo significa consentir em ser tributado, treinado, redimido, explorado, monopolizado, extorquido, pressionado, mistificado, roubado; tudo isso em nome da utilidade pública e do bem comum. Então, ao primeiro sinal de resistência, à primeira palavra de protesto, somos reprimidos, multados, desprezados, humilhados, perseguidos, empurrados, espancados, garroteados, aprisionados, fuzilados, metralhados, julgados, sentenciados, deportados, sacrificados, vendidos, traídos e, para completar, ridicularizados, escarnecidos, ultrajados e desonrados. Isso é o governo, essa é a sua justiça e sua moralidade! … Oh personalidade humana! Como pudeste te curvar à tamanha sujeição durante sessenta séculos?”
Pierre-Joseph Proudhon, em ‘ Idée générale de la révolution au XIX e siècle’.

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Primeiro vamos trabalhar com o conceito de Estado. Segundo o Dicionário Aurélio é a “nação considerada como entidade que tem governo e administração particulares”, “governo político do povo constituído em nação”. Ao Estado pertence o poder de administrar as questões sociais. A ele foi constituído poder soberano de tal, mesmo que seja dividido em três poderes, o que de fato diminui a tirania, mas estes poderes são quem decide as questões sociais.

Sendo assim, questão está sobre o seguinte dilema, não existe Estado mínimo, ou existe ou não existe Estado. Sei que isto é meio estranho, mais irei explicar. Não existe Estado mínimo, pois quem detém o poder de decisão de intervir ou não é o próprio Estado. É ele que escolhe quando ou não intervir. A proposta do Estado mínimo é colocar o Estado para se regular. E é óbvio que quando for conveniente a ele, vai haver intervenção. É ele quem reclama para si o direito de coagir como muito bem explicado por Max Weber em ‘Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva’:

“Evidentemente, a coação não é o meio normal ou o único do Estado – não se cogita disso -, mas é seu meio específico. No passado, as associações mais diversas – começando pelo clã – conheciam a coação física como meio perfeitamente normal. Hoje, o Estado é aquela comunidade humana que, dentro de determinado território – este, o “território”, faz parte da qualidade característica -, reclama para si (com êxito) o monopólio da coação física legítima, pois o específico da atualidade é que a todas as demais associações ou pessoas individuais somente se atribui o direito de exercer coação física na medida em que o Estado o permita. Este é considerado a única fonte do “direito” de exercer coação.”

Então como sabemos que o liberalismo jamais irá propor o fim do Estado, sabemos que sempre estará submetido a tal jugo. Até porque apara garantir o Direito de Propriedade é necessário a existência de uma força estatal como explica o autor liberal Ludwig von Mises em sua obra ‘Liberalismo: segundo a tradição clássica’:

“O liberalismo, portanto, está muito longe de questionar a necessidade da máquina do estado, do sistema jurídico e do governo. Trata-se de grave incompreensão associá-lo, de algum modo, à ideia de anarquismo, porque, para o liberal, o estado constitui uma necessidade absoluta, uma vez que lhe cabem as mais importantes tarefas: a proteção não apenas da propriedade privada, mas também da paz, pois, em sua ausência, os benefícios da propriedade privada não podem ser colhidos.
Tais considerações já seriam suficientes para determinar as condições que o estado deve preencher, para corresponder ao ideal liberal. O estado deve não apenas proteger a propriedade privada. Deve,também, ser constituído de tal forma que o curso suave e pacífico de seu desenvolvimento nunca seja interrompido por guerras civis, revoluções ou insurreições.”

Sempre haverá um balanço na sociedade, e esta será sempre administrada pelos que detém o poder. Esta necessidade será fomentada entre o povo, e este será levado a acreditar que ela é genuína. Este balanço será sempre entre liberdade e igualdade.

Enquanto o indivíduo preza por sua liberdade, o Estado irá agir para ceceá-la. Cabe ao Estado administrar a coerção, oras ele oferece liberdade, oras ele a restringe. Assim ele direciona a sociedade conforme os interesses das camadas altas da sociedade.

E os interesses da aristocracia será sempre se promover através do governo. O governo estará sempre ligado aos interesses da alta classe, como uma simbiose, enquanto a classe trabalhadora sustenta a pirâmide, como indaga Mikhail Bakunin em ‘O Sistema Capitalista’:

“Eu não tenho dúvidas de que este modo de vida esteja altamente difundido em todos os países civilizados, de que ele seja expressa e fragilmente protegido por todos os Estados e que os Estados, religiões e todas as leis jurídicas, tanto criminais quanto civis, e todos os governos políticos, monarquias e repúblicas – com seus imensos aparatos judiciais e policiais e seus exércitos permanentes – não têm outra missão senão a de consagrar e proteger tais práticas. Na presença dessas autoridades poderosas e respeitáveis, eu não posso sequer permitir-me questionar se esse modo de vida é legitimo do ponto de vista da justiça, liberdade, igualdade e fraternidade humanas. Eu simplesmente me pergunto: sob tais condições, serão possíveis a fraternidade e a igualdade entre o explorador e o explorado, serão a justiça e a liberdade possíveis para o explorado?”

A resposta pode ser avaliada em como o Estado interfere na sociedade do indivíduo, e este é o seu papel principal. O Estado serve somente para cercear o indivíduo, e no caso, cerceá-lo em detrimento de outro. A questão da interferência do Estado na liberdade é relatada por Jacques Rosseau explica em ‘Contrato social’:

“Reduzamos todo este balanço a termos fáceis de comparar. O que o homem perde pelo contrato social é a liberdade natural e um direito ilimitado a tudo que o tenta e pode alcançar; o que ganha é a liberdade civil e a propriedade de tudo o que possui. Para que não haja engano em suas compensações, é necessário distinguir a liberdade natural, limitada pelas forças do indivíduo, da liberdade civil que é limitada pela liberdade geral, e a posse, que não é senão o efeito da força ou do direito do primeiro ocupante, da propriedade, que só pode ser baseada num título positivo.”

Isto na prática é constatado em alguns países nórdicos experimentaram um liberalismo. Mas ao olharmos tais governos nos últimos 5 anos, temos visto um retrocesso nessa liberdade. Os projetos aprovados pelos liberais, hoje estão sendo rediscutidos e até anulados por políticos conservadores que assumiram o governo neste período.

Seja na Noruega expulsando criminosos, os conservadores que assumiram o poder na Islândia, e o partido conservador ganhando a presidência na Finlândia, a verdade é que a Europa está mergulhada no conservadorismo. E para isso tem sido usado discurso contra as crises econômicas e principalmente os problemas de imigração.

O liberarismo surgiu como ideia contra as tiranias. Na Revolução Francesa ganhou destaque, porém na época era tida como uma uma proposta da esquerda, já que combatia os sistema vigente que era a monarquia. Porém, para nós anarquistas entendemos que não há muita diferença entre governos intervencionistas e não-intervencionistas, que tudo não passa de engodo, como muito bem elucida Bakunin em ‘Estatismo e Anarquia’:

“Entre a monarquia e a república mais democrática, só há uma diferença notável: sob a primeira, o pessoal burocrático oprime e explora o povo, em nome do rei, para o maior proveito das classes proletárias e privilegiadas, assim como em seu próprio interesse; sob a república, ele oprime e explora o povo da mesma maneira, para os mesmos bolsos e as mesmas classes, mas ao contrário, em nome da vontade do povo. Sob a república, a pseudonação, o país legal, por assim dizer, representado pelo Estado, sufoca e continuará a sufocar o povo vivo e real. O povo, contudo, não terá a vida mais fácil quando o porrete que o espancar se chamar popular.”

Sendo assim, concluímos que o Estado mínimo não existe pelo simples fato que sempre será um jogo, quando o governo quiser fomentar a economia, ele irá “dar” liberdade, porém depois apertará o laço para garantir o monopólio. Mas tudo estará na mão dele, pois, como vimos, é o Estado quem detém o “direito” de intervir ou não. Mesmo que ele opte por não intervir o fará para que o povo sinta-se livre. E quando achar que deve intervir, ele poderá muito bem forjar uma necessidade, e esta aclamação virá do povo. Vimos isso nas ditaduras América Latina, no fascismo na Itália e no nazismo na Alemanha, onde a sociedade clamou por medidas mais duras do governo em detrimento a resolução de problemas sociais.

E Pierre-Joseph Proudhon dá um cheque relatando o equilíbrio entre igualdade e liberdade, que é encontrado fora da intervenção estatal, ou melhor, através do fim do Estado, e não do discurso do “Estado Mínimo”, é o que ele explica em sua obra ‘O que é propriedade?’

“Se os bens são propriedades, os proprietários são reis, e reis despósticos, reis em proporção de suas faculdades de ganância. E se cada proprietário é soberano na esfera de sua propriedade, rei inviolável em toda a extensão de seu domínio, como um governo de proprietários não seria um caos e uma confusão?”
Portanto, não há governo, não há economia pública, não há administração possível com a propriedade por base.
A comunidade procura a igualdade e a lei: a propriedade, fruto da autonomia da razão e do sentimento do mérito pessoal, almeja acima de tudo a independência e a proporcionalidade.
Mas a comunidade, tomando a uniformidade por lei e o nivelamento por igualdade, torna-se tirânica e injusta: a propriedade, por seu despotismo e suas invasões, não tarda a mostrar-se opressiva e insociável.
O que a comunidade e a propriedade querem é bom: o que produzem é mau. E por quê? Porque ambas são exclusivas e ignoram, cada uma por seu lado, dois elementos da sociedade. A comunidade rejeita a independência e a proporcionalidade; a propriedade não satisfaz a igualdade e a lei.
Ora, se concebemos uma sociedade fundada nos quatro princípios, igualdade, lei, independência, proporcionalidade, encontramos:
1.° – Que a igualdade, consistindo apenas na igualdade das condições, isto é, dos meios, e não na igualdade de bem-estar, a qual, com meios iguais, deve ser obra do trabalhador, não viola de nenhuma maneira a justiça e a equidade;
2° – Que a lei, resultando da ciência dos fatos, conseqüentemente apoiando-se na própria necessidade, não fere jamais a independência;
3.° – Que a independência respectiva dos indivíduos, ou autonomia da razão privada, derivando da diferença dos talentos e capacidades, pode existir sem perigo nos limites da lei;
4.° – Que a proporcionalidade, só admissível na esfera da inteligência e do sentimento, não na das coisas físicas, pode ser observada sem violar a justiça ou a igualdade social.
Essa terceira forma de sociedade, síntese da comunidade e da propriedade, nós a chamaremos LIBERDADE.
Para determinar a liberdade, não juntamos sem discernimento a comunidade e a propriedade, o que seria um ecletismo absurdo. Buscamos, graças a um método analítico, o que cada uma delas possui de verdadeiro, em conformidade com o anseio da natureza e as leis da sociabilidade, eliminando todos os seus elementos estranhos; e o resultado fornece uma expressão adequada à forma natural da sociedade humana, numa palavra, a liberdade.
A liberdade é igualdade, pois liberdade só existe no estado social e fora da igualdade não existe sociedade.
A liberdade é anarquia, pois não admite o governo da vontade, apenas a autoridade da lei, isto é, da necessidade.
A liberdade é variedade infinita, pois respeita todas as vontades nos limites da lei.
A liberdade é proporcionalidade, pois deixa um caminho aberto à ambição do mérito e à emulação da glória.”

Assim entendemos que a liberdade só é alcançada quando não houve Estado, não houver possibilidade de coerção, quando todos puderem atuar em suas faculdades sem serem explorados por acumuladores ou governos. A liberdade será apenas efetiva na anarquia.

“E digo isto, para que ninguém vos engane com palavras persuasivas.
Porque, ainda que esteja ausente quanto ao corpo, contudo, em espírito estou convosco, regozijando-me e vendo a vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo.
Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele,
Arraigados e sobreedificados nele, e confirmados na fé, assim como fostes ensinados, nela abundando em ação de graças.
Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo;”
Colossenses 2:4-8

bancada evangélica

Temos visto um grande estardalhaço com o caso do suposto estupro de Marco Feliciano a militante jovem do Partido Social Cristão (PSC) e youtuber, Patrícia Lélis. Este espisódio possui um importante papel decisório no quadro político do país, já que ele diz respeito direto a Bancada Evangélica, um dos principais apoiadores do presidente interino Michel Temer. A Bancada Evangélica foi fundamental no apoio ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) para virar as costas para o Partido dos Trabalhadores (PT) e derrubar Dilma da presidência.

Porém assim como o PMDB, a Bancada Evangélica, e principalmente o PSC, nem sempre foram oposição ao PT e a esquerda. Antes eles eram aliados políticos, muito bem alinhados em diversas regiões do país. Fizeram campanha pesada em apoio ao Lula, nos dois mandatos, e a Dilma no primeiro mandato.

De acordo Bruna Suruagy do Amaral Dantas em seu trabalho Religião e Política: ideologia e ação da “Bancada Evangélica” na Câmara Federal, vemos que a bancada teve uma progressão muito grande entre 1999 e 2003. O qual consolidou no cenário político cinquenta e sete deputados federais vinculados a treze denominações distintas, sendo a Assembleia de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus as mais predominantes. Bruna atrela esta progressão à expansão eclesiástica das instituições evangélicas, principalmente as pentecostais.

Neste período grande parte da Bancada Evangélica estava coligada com o Partido dos Trabalhadores, como por exemplo, o bispo da Assembleia de Deus, e presidente da Conamad (Convenção Nacional das Assembleias de Deus), Manoel Ferreira, grande amigo de Lula e metido em várias acusações de corrupção, conhecido por sua ganancia e recorrestes golpes. Também os senadores eleitos em 2002, Magno Malta do PR-ES e o Marcelo Crivella do PL-RJ, que ambos apoiaram Lula desde a sua primeira eleição.

Já no Rio, foi formada uma grande chapa que uniu Anthony Garotinho (PR) e Benedita da Silva (PT). Inclusive dessa chapa começou a surgir uma figura frequente, que é o Pastor Everaldo. Que futuramente se afiliaria ao Partido Social Cristão como vice-presidente, e depois de dez anos assumiria como presidente do partido. Figura hoje bem conhecida, principalmente por uma denúncia de violência contra a ex-esposa, e também fora acusado de oferecer suborno a jornalista Patrícia Lélis para ela ficar calada, quanto ao caso do Feliciano e fracassando a ameaçou de morte.

Inclusive a coligação era tão bem alinhada que dentro do Partido dos Trabalhadores também haviam expoentes significativos na Bancada Evangélica. A mais proeminente deles provavelmente é a já citada Benedita da Silva, do PT-RJ. Mas há outros, que inclusive Bruna Dantas relata que eles sentiam que o partido os restringia de votarem como queriam, sendo obrigados a seguir a pauta do partido, já que o partido exige que votem em conformidade ideológica. Inclusive dois deputados federais, em 2009, tiveram seus direitos partidários caçados pelo Partido dos Trabalhadores.

Já em 2003 a 2007, segundo Bruna Dantas, foram eleitos sessenta e seis congressistas da Bancada Evangélica, incluindo quatro senadores. Com um grande destaque na Igreja Universal, com vinte e dois deputados e um senador. Vale relatar que o bispo da Universal, Deputado Carlos Rodrigues do PL-RJ, fora o líder da Bancada Evangélica no Congresso na época.

Foi neste período que começaram algumas discordâncias entre estas coligações, principalmente no que se diz respeito aos movimentos sociais, luta por direitos do público LGBTT e a questão do aborto. Mas também foi o período que surgiu a CPI das Sanguessugas onde consta vários envolvidos da Bancada Evangélica. A CPI das Sanguessugas foi responsável pela grande redução da Bancada Evangélica em 2011, de setenta deputados, apenas 17 foram reeleitos, resultando um total de trinta representantes da bancada.

Este histórico de corrupção se arrasta até os dias de hoje. Impressiona ver políticos que usam tanto o discurso religioso, e usando o nome de Cristo para perpetuar a opressão de uma classe aristocrática e se vincular a tanta corrupção assim. É importante ressaltar que o Portal Transparência declarou que a maioria dos deputados evangélicos responde a processos judiciais.

Silas-Malafaia-apoia-Lula02Apesar de não ser política, mas outra figura importante para estudarmos a ação da Bancada Evangélica e seu objetivo de assumir o poder, é o pastor da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Silas Malafaia. Quem vê o Silas hoje associando o PT a um governo demoníaco, nem tem ideia de que ele fez forte campanha para o partido quando se aliou ao Lindbergh Farias. Mas isso não é novidade já que há longas datas Malafaia apoiava Lula como mostra a imagem ao lado. Os motivos são óbvios como muito bem pontuado por Julio Severo que se trata de preservação de espaço evangélico nas mídias.

feliciano 13Mas voltemos ao Marco Feliciano, pastor da Assembleia de Deus, com certeza uma peça fundamental nesta história. Ele foi eleito em 2010, mas já entra no cenário político com escândalo de envolvimento com propina associado ao Grupo Scamatti. Também coligado com o Partido dos Trabalhadores, fez campanha pesada a favor da Dilma na presidência em 2013. Feliciano fora eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, episódio que marcou o racha entre o PT e Bancada Evangélica.

Talvez a figura da Bancada Evangélica mais citada nos últimos meses com envolvimento na corrupção seja o deputado do PMDB-RJ Eduardo Cunha, membro da Igreja Sara Nossa Terra, e fortes vínculos com a Assembleia de Deus. Com um histórico vasto de vínculos com o que há de pior no cenário político brasileiro, Cunha teve o seu mandato como Presidente da Câmara caçado por forte envolvimento com corrupção, e esbanja de sua forte influência no cenário político, alegando ainda que se ele abrir a boca, vários políticos irão sofrer consequências.

O que quero chegar é no questionamento de que se a Bancada Evangélica, o qual a maioria de membros pertence a correntes pentecostais, e julgam receber orientações diretamente de Deus através de profecias e revelações, o qual até mesmo o onde constam como emissários do mesmo. Por exemplo, Silas Malafaia, convocou o povo para participar de um ato profético pelo Impeachment da Dilma Rousseff, como eles não perceberam antes que o PT realmente representa tanto o mal que a Bancada Evangélica diz, um governo satânico, responsável por toda a corrupção política do país? Como Deus não os alertou da tal serpente quando eram aliados e tiravam vantagens políticas? Até porque os casos dos escândalos das CPIs referem à época em que eram aliados. Será que Deus foi omisso para com eles, entregando-os em uma cilada?

Creio, sinceramente, que Deus não faria tal coisa, creio na realidade, que eles não possuem revelação alguma de Deus. Do contrário não teriam se aliado ao PT, e nem muito menos estariam aliados ao PMDB, PSDB, DEM e outros partidos tão envolvidos em escândalos. O objetivo é que estes líderes religiosos e políticos sempre utilizaram de recursos midiáticos para propagar seus patrimônios e poder. Começaram a ingressar nos meios políticos visando tal objetivo e para promover o seu institucionalismo condenado pela fé cristã, mas perceberam que além da mídia, poderia controlar a política. Eles, como qualquer outro político, escolhem os seus “malvados favoritos” de acordo com os seus interesses políticos, e que usaram da aliança do PT na época para se promoverem e chegarem ao patamar que se encontram hoje, e agora estão se estruturando como a direita conservadora, para assim tornarem mais e mais absolutistas os seus desejos na política. A Bancada Evangélica não está a favor da família, e é a representação do nazi-fascismo de nossa sociedade, o que já relatamos ser um perigo.

 

“E digo isto, para que ninguém vos engane com palavras persuasivas.
Porque, ainda que esteja ausente quanto ao corpo, contudo, em espírito estou convosco, regozijando-me e vendo a vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo.
Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele,
Arraigados e edificados nele, e confirmados na fé, assim como fostes ensinados, nela abundando em ação de graças.
Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo;”
Colossenses 2:4-8

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Tenho muito receio com a conjuntura atual, principalmente se referindo ao meio religioso cristão. Tenho visto congregações tomando partido em favor de grupos políticos, e inclusive usando o nome de Deus nisso.

Para selar a opinião política, se tem até profecias, e ‘moveres’, ambos totalmente duvidosos. Este clamor por uma, ordem social que venha destronar a atual, me lembra o Movimento Cristão Alemão, liderado por Ludwig Müller, e todo o Movimento Cristianismo Positivo, o qual apoiavam Hitler e o Nazismo. Lá o Terceiro Reich era considerado uma resposta de Deus para a nação. Correspondendo anseios morais de família, tradição, segurança, desenvolvimento econômico pós-crise, dentre outros que costumamos ver a classe conservadora expressar.

Claro que hoje já não temos mais esta perspectiva, e nem os cristãos alemães. E Hitler passou de um arauto para um anticristo. Principalmente depois das guerras que a influência nos meios cristãos protestantes se concentrou mais nos Estados Unidos, junto com o processo desta nação se tornar potência econômica.

Não é irônico como alguém tão exaltado pelas instituições, apontado como uma resposta de Deus para a sociedade alemã, passou a ser uma figura endemoniada? Leon Tolstoi em ‘Minha Religião’ explora muito bem esta questão, mostrando que as instituições religiosas deixam o Estado pautar a moral da sociedade, anulando os ensinos de Cristo, só reafirmando as decisões do governo como divinas, até mesmo as decisões erradas e anticristãs:

“A Igreja reconhece teoricamente a doutrina de Jesus, mas a nega na prática.Em vez de orientar a vida do mundo, a Igreja, por amor ao mundo, expõe a doutrina metafísica de Jesus de tal modo que não decorre dela nenhuma obrigação quanto ao modo de vida, nenhuma necessidade para os homens viverem de modo diferente daquele que viveram até agora. A Igreja se rendeu ao mundo e simplesmente faz parte do séquito do vencedor. O mundo faz o que quer e deixa à Igreja a tarefa de justificar seus atos com explicações sobre o significado da vida. O mundo organiza a vida de maneira totalmente oposta à doutrina de Jesus, e a Igreja faz de tudo para demonstrar que os homens que vivem contrariamente à doutrina de Jesus vivem, na verdade, de acordo com esta doutrina. O resultado final é que o mundo vive uma existência pior do que a pagã e a Igreja, além de aprová-la, também afirma que essa existência está em exata conformidade com a doutrina de Jesus.”

Mas o que aconteceu com Hitler acontece hoje, com ícones como Temer, Bolsonaro, Feliciano, Malta, assim como o Lula, teve muita popularidade entre os líderes religiosos, inclusive tinha a Bancada Evangélica como aliada.

Vernard Eller, em seu livro ‘Anarquia Cristã’ pontua alguns aspectos entre esta interferência das instituições religiosas com o governo. Ele atribui que a oficialização das religiões são a raiz desse mal, que isso ocorre com a predominância de uma fé ou instituição, em detrimento das outras, e que a solução disso é o pluralismo, como podemos ver no trecho a seguir:

“É, então, somente quando nos movemos para dentro do pluralismo denominacional, o advento do secularismo, o desenvolvimento do governo democrático, e a quebra da união profana entre igreja e estado, que enxergamos alguma mudança significativa no todo. Embora não seja de maneira alguma um afastamento da fé-arquia diante da Anarquia Cristã. É simplesmente a fé-arquia tomando uma forma moderna.
Com o monopólio eclesiástico não sendo mais uma opção dentro da sociedade, cada igreja teve que aprender a tolerar a mistura – mesmo enquanto tem a convicção secreta (ou não tão secreta) de que é eleita de uma maneira que as outras não são. Um determinado estado não pode mais se apoiar em sua igreja consorte como prova de sua eleição divina. Mas não há obstáculos para que governos civis reivindiquem suas eleições do seu próprio jeito (como dizer que “esta nação pertence a Deus”).
Entretanto, com o novo pluralismo democrático impossibilitando a governabilidade eclesiástica de uma população inteira, as denominações tem que reformular a natureza e o propósito de seu poder árquico. Não dá mais pra ser uma dominação por decreto, mas sim por propaganda. Não dá mais pra ser o poder de garantir a salvação de populações inteiras através dos santos sacramentos ou da pregação da santa palavra (ou então, se recusarem, todos irão para o inferno). Agora, deve ser o poder dos programas institucionais de evangelizações, educação cristã, instrução moral e reforma social, que são tão sutis quanto poderosos para realizar a vontade de Deus na terra (ou então, se as pessoas recusarem, deixe-as ir para o inferno nuclear). Aqui, não há menos confiança do que antes para dizer qual arquia é a nomeada por Deus – e não há menos confiança do que antes em dizer qual arquia carrega o poder que pode salvar o mundo.”

O que mais me preocupa são as pessoas enganadas nestes discursos, que esperam uma ação de Deus, mas apoiam o diabo. Temos visto isto se repetir constantemente, desde que Constantino resolveu oficializar o cristianismo como fé estatal de Roma. E toda vez que a fé se mistura com a coerção estatal, ocorre o que em Apocalipse João sinalizou como Babilônia, com Jezabel matando os profetas, no caso os verdadeiros profetas, pois Jezabel aliciava os falsos.

E é então que eu sinto pelos enganados. Aqueles que caem neste discurso e colocam esperanças em homens, corrompidos, que agem em seus próprios interesses, por concupiscência diabólica, e que no futuro mergulhará o país no caos infernal.

Uma reflexão de Jacques Ellul em ‘Anarquia e Cristianismo’ me faz refletir sobre esta questão e ver como a proposta cristã é tão diferente de algo imposto. Então qual o sentido de cristãos, se aparelharem com governos para impor a moral cristã a terceiros? Ellul aborda muito bem a questão ressaltando que vivemos sob o que ele chama de “poder do amor”, pautada na liberdade do indivíduo e não na heteromia do governo:

“Obviamente, a idéia de “poder” vai no mesmo sentido de “arquia”; os dois são inseparáveis. De fato, toda fez que Paulo usa “arquia” no sentido de “principados”, ele junta o termo com uma das palavras gregas para “poder”. Ainda falando tanto de “poder” e “arquia” devemos fazer uma especificação crucial: estamos sempre supondo um poder ou governo que é imposto sobre seu eleitorado. Obviamente, isto é apropriado ao falarmos de, digamos, “o poder do amor”. Já que esse é um poder em um sentido completamente diferente da palavra, à medida em que não carrega indícios de imposição. Olhando apenas para a frase em si; “o reino de Deus” não parece ser uma “arquia” diferente das demais. Ainda vamos ver que não é assim. Quando Jesus disse “Meu reino não é desse mundo”, Ele dizia que, embora todas as arquias mundanas devem ser imposicionais, a dEle é radicalmente diferente no quesito de não ter que ser – e de fato não é.”

Mas isso já ocorreu aqui no país. Em 64 muitos religiosos foram para as ruas com devaneios políticos, prezar pela moralidade hipócrita, que na verdade serve apenas aos seus interesses mesquinhos, sua preocupação quanto a seus privilégios e sua propriedade. Então o país ficou imerso em uma ditadura por 21 anos.

Não, eu não sou a favor deste governo, e até desejo construir um modelo novo de sociedade. Mas tal modelo não vem de um grupo de cima para baixo, mas vem através da democracia direta, começando pela base. E estou aberto à colaboração de pessoas que compreendem também sob o momento delicado em que vivemos e que queiram unir forças em prol da sanidade. Manifestando o Reino de Deus, que não se trata de nossas necessidades materiais mesquinhas, mas sim justiça, paz e alegria.

Jesus entrou no templo e expulsou todos os que ali estavam comprando e vendendo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas,
e lhes disse: “Está escrito: ‘A minha casa será chamada casa de oração’; mas vocês estão fazendo dela um ‘covil de ladrões’”.
Os cegos e os mancos aproximaram-se dele no templo, e ele os curou.
Mas quando os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei viram as coisas maravilhosas que Jesus fazia e as crianças gritando no templo: “Hosana ao Filho de Davi”, ficaram indignados,
e lhe perguntaram: “Não estás ouvindo o que estas crianças estão dizendo? ” Respondeu Jesus: “Sim, vocês nunca leram: ‘dos lábios das crianças e dos recém-nascidos suscitaste louvor’?”
Mateus 21:12-16

cambistas

Imagine Jesus aqui na Terra nos dias de hoje, com discursos de repartir as posses com os necessitados, ou dizendo que o maior é o que serve ao outros, que se sentava na mesa com pecadores, chamando os fundamentalistas religiosos de raça de víboras, alegando que eles impedem que as pessoas cheguem ao Paraíso. Imagine ele expulsando comerciantes da fé que oprimem o povo com suas facilitações visando lucro. Ou ele se opondo ao poder episcopal, dizendo que destruiria o que eles conheciam como religião e reconstruiria.

Para nós isso não é algo muito complexo de se imaginar. Até já brincamos que Jesus fora o primeiro Black Bloc. Mas muitas pessoas não conseguem associar este papel revolucionário com Jesus. Talvez por falta de uma conjuntura histórica, ou até mesmo por um conservadorismo teimoso que não quer dar o braço a torcer. Mas o fato é que Jesus se opôs a todo tipo de coerção em seu tempo, seja política, econômica ou religiosa.

Porém um acadêmico tem apresentado esta teoria e tem dado o que falar. O professor em Oxford, Timothy Garton Ash, pautando sobre liberdade de expressão, e quanto a sociedade, e até as universidades não estão abertas a certos tipos de debates. Que de acordo com o autor tanto Jesus Cristo, como autores, que ele chama de extremistas, de trabalhos muito recomendados na academia como Marx, Rosseau, Darwin e Hegel, não seriam aceitos nas universidades se estivessem entre nós atualmente.

De acordo com Ash, a universidade se responsabiliza de cumprir um papel de manter um “espaço seguro”, como ele mesmo denomina, que é evitar que os estudantes tenham acesso a radicalização de ideias. Tais autores são contextualizados em sua época, e justificados que seus ideais eram para aquela época, apontando que hoje temos uma sociedade diferente, que não precisa de tais radicalismos. E para isso asfixiam a liberdade de expressão de todo idealista mais radical nestes meios.

A crítica de Ash é voltada ao governo que impõe tais conceitos a Universidade, aplicando uma doutrina politicamente correto, que evitariam extremistas, visando apenas pautas reformistas. Que nada ou pouco mudam as estruturas da sociedade. Não é a toa de Foucault compara as escolas com outras instituições de controle como quarteis, prisões e fábricas.

Saindo um pouco do âmbito das universidades e indo para os das instituições religiosas, podemos imaginar o quanto isso seria mais grave ainda. Se nas universidades, que se estudam tais pensadores, eles seriam considerados hoje radicais, imagine nas instituições religiosas, que costumam desprezar tudo que vem do Humanismo, tudo o que questiona, e que foge às suas regras morais?

As instituições religiosas que elaboram modelos de governos internos para frear qualquer um que provoque reflexões mais profundas de seus padrões. Fazendo um panótipo com o objetivo de vigiar a todos, onde um policia o outro, e alerta aos superiores quando algo foge do padrão, como muito bem relatado por Michel Foucault em “Vigia e Punir”:

“Nossa sociedade não é de espetáculos, mas de vigilâncias: sob a superfície das imagens, investem-se os corpos em profundidade; atrás da grande abstração de troca, processa-se o treinamento minucioso e concreto das forças úteis; os circuitos da comunicação são os suportes de uma acumulação e centralização do saber; o jogo de sinais define os pontos e apoios do poder; a totalidade do indivíduo não é amputada, reprimida, alterada por nossa ordem social, mas o indivíduo é cuidadosamente fabricado, segundo uma tática das forças e dos corpos.”

Jesus fugiu aos ditames do panótipo de sua época. Como judeu ele não excluía nem gentios, nem pecadores, nem “impuros” e nem mulheres. Criticou o sistema religioso de sua época, ameaçando até de destruí-lo, o que de fato fez, revogando a Lei Mosaica, estabelecendo uma Nova Aliança, destruindo o clero, e estabelecendo todo cristão como sacerdote.

Há quem diga que se Jesus viesse hoje, atacaria os líderes das instituições religiosas de destaques e de visível posicionamento anti-cristão, usurpadores que vivem do privilégio e da alienação. Mas cremos que este critério crítico seria bem mais abrangente, analisando os suportes das instituições cristãs na atualidade, baseados em meros moralismo e perpetuação da propriedade. Como se as igrejas fossem deles, e os membros deles, e todos tem que pensar como o seu líder.

Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade.
Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo.
Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?
E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano,
E algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e nào lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí?
Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.
Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras.
Tiago 2:12-18

missão integral

Congregava em uma instituição religiosa, eu tinha um alinhamento político de esquerda libertária, enquanto a instituições tinha um posicionamento de direita conservadora. Isto nunca tinha me sido problema. Até porque eu sempre filtrei o que absorver, e sempre tive a Palavra como parâmetro na minha vida. Logo, o que na Visão desta instituição fugia da Palavra, eu ignorava.

Em certo momento eu conheci a Teologia da Missão Integral, eu já acompanhava alguns preletores que são hoje propagadores de tal teologia, e acabei como consequência conhecendo não só a teologia, mas também o movimento. E assim permaneci por mais de um ano. Até a instituição também conhecer a TMI (Teologia da Missão Integral).

Exatamente. Quando somente eu conhecia e comungava com a TMI, estava muito bem. Eu sempre tive vocação para atuar em projetos mais externos na igreja, então eu trabalhava com Missões Urbanas, que tinha uns projetos bem interessantes. E estava tudo bem. A instituição se agradava que eu estava servindo, e eu principalmente, me agradava por achar que estava fazendo o meu papel de cristão no mundo.

Porém quando a instituição descobriu a TMI, o primeiro que ela fez foi identificar quais membros dialogavam com tais ideias, e quais os possíveis simpatizantes. Houve um trabalho de vetar qualquer tipo de possibilidade de propagação de tais ideais dentro da instituição. A ponto de uma vez um líder do ministério o qual eu exercia aconselhar aos liderados a não participarem de tais debates.

Bem, eu sempre fui como Immanuel Kant, se a religião se coloca como portadora da verdade, ela não deveria se importar em ser questionada. Logo, por si só já havia percebido que o que viria pela frente se tratava mais se medo do que de verdade, embasamento da Palavra. E voltaremos mais adiante neste ponto.

A partir daí, começaram a alienação. Se de um lado os membros estavam aconselhados a não debaterem, e estes conselhos, de acordo com a Visão da instituição, eram tidos como lei, já que não se pode questionar e muito menos não acatar uma determinação de um líder. Por outro lado a liderança, de cima para baixo, começou a determinar, ou melhor, caluniar o conceito da TMI. Começaram nos cursos de liderança a ter aulas exclusivas para se falar em como a TMI era um braço do capeta, articulado pelo PT, para deturpar a Palavra e se infiltrar entre os evangélicos. Então os líderes, que frequentavam o curso, repassavam este conceito para os seus liderados. E como os liderados não podiam debater, eles absorviam isto como verdade.

Como persisti em meu posicionamento, pois acreditava e acredito fazer coerência com a Palavra, não demorou muito para eu ter gabinetes com quem estava à frente da instituição. O intuito dos gabinetes era o mesmo das aulas, me convencer de que a TMI é um braço comunista dentro da Igreja.

Então aqui irei expor o cerne de toda esta discussão como mostrada no título do texto. Já reparou que os argumentos contra a TMI sempre se encontra no campo político ou social? Nunca em questões teológicas? Não deveria uma instituição religiosa, ao alegar que um determinado grupo é herético, usar a Palavra como parâmetro para respaldar o seu argumento? Então por que não é feito argumentos com respaldo bíblicos contra a TMI? Agora feitas estas perguntas, podemos tratar da questão do medo da instituição de ser questionada como citado anteriormente.

Se os valores da instituição estivessem respaldados na Palavra, e por estes conflitarem com a TMI, seria simples encontrar estes valores na bíblia, e de forma descritiva, apresenta-los aos membros. E isso não é feito pelo simples fator de que não há verdade. Por isso que os argumentos contra a TMI são nada mais, nada menos, que várias deturpações e até mentiras. Tudo no campo político. Ou seja, porque politicamente a TMI se opõe ao posicionamento de direita conservadora destas instituições.

Mas neste ponto preciso fazer um parêntese. Então quer dizer que a TMI é de posicionamento de esquerda? De maneira alguma. A TMI oficialmente não se manifestou como participante de uma vertente política. E ela não faz isso pelo simples fato que ao fazê-la estaria dizendo que o Espírito Santo só se move a aqueles que atuam conforme aquele pensamento ideológico.

Quando eu ainda estava nesta instituição, tinha um membro da liderança que naturalmente era muito questionador, acho interessante contar este fato, pois ele continua se repetindo. Este líder conversava comigo sobre política e sobre teologia, ele era estudante de teologia. Como ele estava vendo todo aquele esforço da instituição contra a TMI, e sabendo que eu era simpatizante da mesma, ele me perguntou a respeito, e se a TMI era comunista. A minha resposta foi simples e sincera, que na TMI havia pessoas que se identificavam pelo comunismo, como também pessoas que se identificavam com o liberalismo.

O interessante é que este sujeito pesquisou sobre, abraçou a ideia, largou todos os cargos e saiu da instituição. O interessante é que outros indivíduos me tem feito o mesmo questionamento, e conforme vão pesquisando, estão tendo comportamentos semelhantes. Será que Immanuel Kant estava errado ao dizer que a razão só concede em quem pode sustentar o seu livre e público exame? É por isso que se investe tanto esforça na alienação.

Agora para concluir, cabe mais um questionamento. E então por que as instituições contra a TMI não usam como argumento a bíblia, no cerne teológico e não político? Simples, porque não há argumento. Pois a TMI ainda não aconselhou ninguém a pegar as suas posses, venderem e doar aos pobres, mas se o fizesse, teria respaldo bíblico. Pois em Atos os discípulos fizeram isso. E que ao alegarem que o papel do Cristão é a promoção da fé através do ‘Ide’, eles anulam o Evangelho, o qual em Mateus 25:31-46, que alega que as ovelhas se preocupam em acudir o necessitado, e em contraparte, por mais religiosos que fossem, eram os bodes que não se preocupavam.

E é exclusivamente por não haver tais fundamentos, que os ataques a TMI serão sempre pautados na mentira. Pois o fato é que algumas destas instituições tem se esbaldado da alienação e dos privilégios gerado por um clero herético, e temem mais que tudo serem questionados. E a TMI, aplicando a Palavra, tem feito estes questionamentos.

Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito.
Em virtude da graça que me foi dada, recomendo a todos e a cada um: não façam de si próprios uma opinião maior do que convém, mas um conceito razoavelmente modesto, de acordo com o grau de fé que Deus lhes distribuiu.
Romanos 12:2,3

impeachment

Mediante a sessão de Impeachment no dia 17 de abril de 2016, nos discursos dos deputados a justificativa religiosa foi muito pautada. Muitos usaram da representação dos evangélicos para justificar a luta contra a corrupção. Chegaram até citar denominações, provavelmente o qual eles fazem parte, e devem usá-las como curral eleitoral.

Em seus discursos constavam o combate à corrupção. Lembro-me de um dos deputados alegarem que pediu a sabedoria de Deus, e que foi orientado a votar a favor do Impeachment. Quando se atrela isso ao posicionamento de Deus, como se Deus chancelasse tal decisão, parte o pressuposto que Deus está ciente da situação e que aprova o Impeachment. A questão que fica é que como o discurso é contra a corrupção, e se vale fazer uma legenda dicotômica de quem é a favor do Impeachment e quem é contra, atrelando que o Partido dos Trabalhadores é a causa da corrupção, alegação feita várias vezes, imagina-se que quem está ao lado destes deputados religiosos são isentos de qualquer acusação de corrupção. O que não é verdade.

Inclusive o Presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que pertence a Bancada Evangélica, e que também está envolvido em escândalos de corrupção, o qual é réu do STF, também fez um discurso religioso para pautar a sua decisão. Ao que me parece, olhando com uma perspectiva de fora do cristianismo, este deus que eles servem é caolho, pois só consegue ver um lado dos problemas. Como se a corrupção estivesse apenas do lado oposto.

Isto reforça quando se analisa que grande parte desta Bancada Evangélica, há alguns anos atrás eram aliados ao PT. E agora eles alegam que o PT representa a vontade de satanás, e até o chamam de “Partido das Trevas”. Será que o deus deles não revelou que o partido era maligno quando eram aliados? Pelo que eu saiba, muitos casos de corrupção do PT remetem a essa época, será que não tinham ciência disto?

Ultimamente tenho lido muito o livro “Anarquia Cristã” de Vernard Eller. Ele tem um posicionamento muito interessante a respeito de tudo isso, e gostaria de tentar contextualizar o pensamento dele, se for possível:

“Primeiramente, o exercício das políticas mundanas repousa sobre uma infundada confiança na competência moral dos seres humanos – mais particularmente, sobre o erro extremamente arrogante de atribuir superioridade moral categórica a partidários de uma “verdadeira” ideologia sobre aqueles de qualquer outra. Essa orgulhosa reivindicação estende-se não apenas à sabedoria moral (“Nós sabemos o que é certo e ninguém mais sabe”) mas também à autoridade moral (“Por conta de estarmos certos, isso justifica nosso uso da propaganda, manifestações, boicotes e todas as táticas de poder ao impor nosso ‘direito’ sobre aquelas pessoas que sabemos estarem erradas”). Políticas mundanas são alicerçadas sobre pretensiosas reivindicações de superioridade moral – das quais o evangelho cristão não reconhece nenhuma.
Em segundo lugar, uma característica primária das políticas mundanas é a sua invariável formação de uma “batalha contraditória”. Deve haver uma batalha. Um partido, ideologia, grupo de causa, lobby, ou bloco de poder que se auto-designa como “O Bem, a Verdade e a Beleza”, prepara-se para dominar, oprimir, vencer, ou impor-se sobre quaisquer grupos opostos que pensam que eles não merecem tal título. Se essa disputa de poder entre os moralmente pretensiosos é o que se entende por “política”, então Eller e companhia estão de fato felizes de serem chamados de “apolíticos”.”

Isto expressa bem a conjuntura atual do nosso país. Ao se posicionar contra a corrupção, se nomearem como emissários de Deus para se fazer justiça na terra, mas ao dependerem de coligar com grupos que também são corruptos, mostra a ineficiência do homem em fazer política, e o quanto que mais ele se compromete com legendas, mas toma uma postura anti-cristã.

E o discurso da família Bolsonaro expõe bastante isso, ousam falar em nome de Deus, inclusive pertencem ao Partido Social Cristão, porém fazem apologia a regimes genocidas, e apoiam atos como torturas, perseguições, exílios, e morte. Seria possível Jesus solicitar a um de seus seguidores que apoiem tais atos? No discurso ele homenageia o comandante Ustra, indivíduo que foi responsável pela tortura da Dilma. Será que Deus se agradaria de tal ato?

Na lógica se a proposta é apresentar uma dicotomia entre as posições, onde há um polo mal e o outro bom, supõe que o lado em que ficar o político religioso, seria o polo bom. Então vemos estes políticos apoiando candidatos envolvidos em corrupção, ou pior, estes políticos religiosos sendo os envolvidos, então compreendemos que é impossível fazer tal dicotomia, entre governo bom e governo mal.

Eller conclui esta parte de forma fenomenal, a ponto que ele expõe qual deveria de fato ser o posicionamento de um discípulo de Cristo. Então percebemos que os deputados religiosos estão totalmente equivocados:

“Entretanto, alegamos que há outra forma de política – outra forma de ação afetando a polis – que o evangelho pode aprovar totalmente. Dessa forma, ao invés de um partido mundano se auto proclamar como juiz moral sobre todos os outros, a nossa ação política deveria ser a submissão ao julgamento moral de Deus sobre tudo e todos humanos (o julgamento, isso é claro, cai primeiramente sobre os partidários de Deus). Mais do que escolher lados, essa política deveria ser criticamente não-partidária de toda batalha e de jogos de poder. Deveria ser uma intenção política de meditação e reconciliação de adversários, ao invés de apoiar o triunfo de uns sobre os outros. Deveria ser uma teologia política de libertação com o intuito de libertar a humanidade de nada mais do que sua escravização por parte da política mundana.”

Segundo Eller, o cristão não deveria aumentar as barreiras, apresentando uma proposta dicotômica, demonizando um lado, e divinizando o outro. Como se este lado bom, fosse o emissário de Deus para corrigir a sociedade. A proposta cristã deveria ser pautar a justiça, independente de lados, ressaltar a Graça, visando a reconciliação dos lados e estudando as propostas de ambos, e apoiando o que fosse benéfico para a sociedade. Mas sabemos que o discurso de “nós contra eles” rendem muitos votos. É por isso que ícones políticos como Jean Wyllys e Jair Bolsonaro, são praticamente dependentes um do outro, esta polarização faz com que nichos da sociedade apoiem um conforme ele se opõe ao pensamento do outro. Infelizmente isso faz com que ambos permaneçam no poder.

Agora vem um questionamento que inclusive já fiz aqui. Porque os deputados religiosos estão focados na mera moralidade, visando apenas regular o sexo alheio. Falta posicionamento deles quanto a propostas de fato relevantes para a sociedade, que possam ver tais propostas e encarar como um avanço da sociedade, e como diz a Palavra que devemos ser luz do mundo. A verdade é que não vejo estes deputados religiosos iluminando nada.

Ou autor, que inclusive inspirou muito o primeiro, é Jacques Ellul. Ellul tem um posicionamento até mais radical que Eller quanto o papel político do Cristão. Em seu livro “Anarquia e Cristianismo”, o autor critica o apoio das instituições religiosas apoiando grupos específicos do governo:

“Tem se desenvolvido uma espécie de corpo que praticamente todos os grupos cristãos aceitam, mas que não tem nada em comum com a mensagem bíblica, seja na Bíblia Hebraica, que chamamos de Antigo Testamento, ou nos evangelhos e epístolas do Novo Testamento. Todas as igrejas respeitam escrupulosamente e oferecem suporte à autoridade do Estado. Elas transformaram o conformismo em uma grande virtude. Elas toleraram injustiças sociais e a exploração de pessoas umas pelas outras, declarando que é vontade divina que alguns sejam senhores e outros servos, e que sucesso sócio-econômico é um sinal externo de bênçãos divinas. Elas inclusive transformaram uma Palavra de liberdade e libertação em moralidade, o mais espantoso aqui é que não pode existir uma moral cristã se realmente seguirmos o pensamento evangelizador. O fato é que é muito mais fácil julgar erros de acordo com uma moral estabelecida do que enxergar as pessoas como um todo vivo e entender porque elas agem como agem. Finalmente, as igrejas instituíram um clero equipado com conhecimento e poder, embora isso seja contrário ao pensamento evangelizador, como foi inicialmente realizado quando os clérigos eram chamados de ministros, o ministério sendo serviço e o ministro um servo dos demais.”

Ontem vimos deputados citando as denominações aos quais eles estavam representando. Mas será que o papel dele seria representar uma instituição, e não o povo em si? E isto nos leva a questionar quais os interesses da instituição ter alguns deputados lá?

Ellul aborda de forma exortativa que a interferência da religião cristã na política está totalmente associada com o emparelhamento clerical, formando uma casta religiosa e atrapalhando o aspecto evangelizador do cristianismo.

Segundo o autor, este apoio político-religioso, acaba dando precedentes para o conformismo, salvo quando a oposição segue os interesses dos poderosos, e principalmente que toleram injustiças sociais, em nome de sua legenda. Além de que pautam a moralidade religiosa como bandeira. Sendo que o Evangelho é o contrário. Jesus criticava os fundamentalistas religiosos que só pautavam a moralidade, e ensinou o dever de lutarmos por justiças sociais. Ou seja, o exercício destes religiosos está todo controverso ao que foi ensinado por Cristo.

O engraçado é que autor expressa um ponto de vista muito interessante deste apoio religioso a grupos políticos, o quanto eles são maleáveis, e seguem interesses que não são de Deus, mas se respaldam na “vontade de Deus” para se justificarem:

“É sobre o conluio com o Estado. Desde os dias de Constantino (e durante muitos anos importantes historiadores duvidaram da sinceridade dessa conversão, vendo na mesma um ato puramente político) o Estado tem supostamente sido cristão.26 A igreja recebeu uma grande ajuda em troca. Assim, o Estado tem auxiliado a forçar pessoas a se tornarem “cristãs”. Foram dados importantes subsídios. Locais de culto foram salvaguardados. Privilégios foram garantidos ao clero. Entretanto, a igreja também teve que permitir que imperadores interferissem em sua teologia, às vezes decidir o que seria doutrina verdadeira, convocar concílios, supervisionar a nomeação de bispos, etc. A igreja também teve que apoiar o Estado. A aliança entre trono e altar não vem da Reforma mas do século V. Tentativas foram feitas para se separar os dois poderes, o temporal e o espiritual, mas estes foram confundidos constantemente. Como eu citei anteriormente, o papa se tornou o papa interno, o imperador o externo. As muitas cerimônias (coroações, te déums), tinham em seu íntimo a idéia de que a igreja deveria servir ao Estado, ao poder político, e garantir a submissão do povo a isso. De sua maneira cínica, Napoleão disse que o clero controla o povo, os bispos o clero, e ele próprio os bispos. Ninguém mais poderia mostrar de maneira mais clara a situação real de que a igreja era um agente de propaganda do Estado. Obediência às autoridades era também um dever cristão. O rei era designado divinamente (embora tenha surgido uma dissidência sobre como confirmar isso), e dali em diante desobedecer o rei era desobedecer a Deus. Mas não podemos generalizar. Estou apontando aqui o que é ensino oficial, aquele do alto clero e da política da igreja (tanto entre ortodoxos como luteranos). Na base, entretanto, entre o baixo clero, a posição era muito menos certa. No que diz respeito ao período que eu conheço melhor, nos séculos XIV e XV, na maioria das revoltas camponesas o clero marchou com seus paroquianos como revolucionários e freqüentemente encabeçava os levantes. Entretanto, o normal era se tornar um massacre.

Devemos nos perguntar se as coisas tornaram-se diferentes sob sistemas democráticos. Muito menos do que possamos imaginar! O pensamento central ainda é de que o poder vem de Deus. Conseqüentemente o Estado democrático também é de Deus. O estranho é que isso era uma idéia antiga. Desde o século IX alguns teólogos estabeleceram que todo poder vem de Deus através do povo. Francamente, entretanto, isso não levou diretamente à democracia. Em democracias “cristãs” encontramos uma aliança similar à já descrita, exceto pelo que a igreja agora tem menos vantagens. Em democracias laicas há uma teórica separação completa, mas esse não é o caso. A igreja tem demonstrado muita incerteza teológica nessa área. Na França, a igreja foi monarquista com os reis, imperialista com Napoleão e republicana com a República (com alguma hesitação por parte dos católicos romanos, mas não dos protestantes). O melhor exemplo é que a igreja, onde pode, se tornou marxista em territórios comunistas.

Sim, de fato, na Hungria e Tchecoslováquia, as igrejas reformadas tornaram-se abertamente comunistas com Hromadka e Bereczki. E na URSS não podemos esquecer que durante a guerra, em 1941, Stalin pediu apoio à Igreja Ortodoxa (através de empréstimos, por exemplo), e a igreja estava feliz em fazê-lo. A Igreja Ortodoxa, então, é uma apoiadora do regime. A Igreja Católica Romana é menos complacente, mas não devemos esquecer que com Hitler, se não ajudaram diretamente o regime, o apoiou na Alemanha. O papa fez até mesmo um acordo com Hitler. O caso é que não importa a forma de governo; nos altos escalões, e em suas diretivas, a igreja sempre está do lado do Estado.

Na esfera comunista, também nos lembramos de um país latino-americano como a Nicarágua, onde o comunismo se instalou graças a Igreja Católica Romana e a teologia da libertação. O único exemplo claro de oposição é o já conhecido da Polônia.

Ao mesmo tempo que as igrejas de adaptaram às formas de governo, elas também adotaram as ideologias correspondentes. É interessante destacarmos a igreja no ocidente que pregou uma cristandade universal cobrindo toda a Europa, transcendendo diferenças nacionais, ao mesmo tempo que o Império era (ou pretendia ser) universal. Com a divisão do ocidente em nações, a igreja também se tornou nacional. Joana d’Arc foi certamente uma cristã nacionalista pioneira. A partir do século XVI as guerras se tornaram nacionais, e a igreja sempre apoio seu próprio estado. Isso levou ao Gott mit uns que é um objeto de desprezo para os céticos e de escândalo para os crentes. Quando duas nações vão à guerra, cada uma tem certeza de que Deus está ao seu lado em uma incrível distorção do pensamento bíblico, embora estejam lutando a batalha alegórica do Apocalipse e o inimigo político seja Satã.”

Ao ler o texto fica totalmente compreensível como o PSC antes era da base do PT, e hoje é um de seus maiores opositores. Isto mostra também que há uns anos atrás os líderes religiosos ensinavam em suas igrejas que a autoridade é estabelecida por Deus, e que não devíamos questioná-las, cabia a nós apenas orar por elas. E já hoje, quando conveniente, eles incitam vigílias para orar pelo fim do governo, usando pautas do combate à corrupção, mas fazendo vista grossa que o governo que irá assumir é até mais corrupto.

De forma alguma eu diria que os cristãos não devem se envolver com política. Tenho o meu posicionamento como anarquista, não acredito na legitimidade da eleição que colocou a Dilma no poder, da mesma forma que não acredito na legitimidade da representação dos deputados que iniciaram com o impedimento dela exercer a função. Mas creio que a participação do cristão na política deva ser diferente da que ocorre nestes dois milênios de cristianismo. O cristão deve participar mais em ações para se manifestar a Graça de Deus na terra, e isto inclui a justiça, do que propriamente tomar posicionamentos conforme interesses de legendas aliadas, para atender caprichos de financiadores de campanhas que estão por trás do jogo.