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“Mas então uma dificuldade se apresenta inevitavelmente. Se é verdade que o governo é, necessariamente e sempre, o instrumento daqueles que possuem os meios de produção, por que milagre um governo socialista, nascido em pleno regime capitalista, poderá alcançar seu objetivo: abolir o capital? Será, como o querem Marx e os blanquistas, por meio de uma ditadura imposta revolucionariamente, por um golpe, e que decreta e impõe revolucionariamente o confisco das propriedades privadas em favor do Estado enquanto representante dos interesses coletivos? Ou será, como querem aparentemente todos os marxistas e a maioria dos blanquistas modernos, por meio de uma maioria socialista, enviada ao parlamento pelo sufrágio universal?

Proceder-se-á de uma só vez a expropriação da classe dominante pela classe economicamente subjugada? Ou se procederá gradualmente, obrigando os proprietários e os capitalistas a se deixarem privar pouco a pouco de todos os seus privilégios? Tudo isso parece estranhamente em contradição com a teoria no “materialismo histórico”, dogma fundamental para os marxistas. Não queremos aqui analisar estas contradições nem procurar saber o que pode haver de verdadeiro na doutrina do materialismo histórico.

Suponhamos, portanto, que o poder tenha, de um modo ou de outro, caído nas mãos dos socialistas e que um governo socialista tenha se constituído, e solidamente. Isto significaria que teria chegado a hora do triunfo do socialismo? Pensamos que não.

Se a instituição que é a propriedade individual está na origem de todos os males que conhecemos, não é porque tal ou qual terra traz este ou aquele nome em seus registros de propriedade; é porque esta inscrição dá, ao indivíduo em questão, o direito de usar a terra como bem lhe convém, e o uso que ele faz dela é ordinariamente mau, ou seja, traz prejuízo a seus semelhantes. Todas as religiões disseram, em sua origem, que a riqueza é um fardo que obriga aqueles que o possuem a zelar pelo bem-estar dos pobres e a ser, para eles, como um pai. E o direito civil precisa, desde sua origem, que o senhor da terra está sujeito a tantas obrigações cívicas que ele é mais o administrador dos bens no interesse público do que o proprietário no sentido moderno do termo. Mas o homem é feito de tal forma que, quando possui os meios de dominar e impor aos outros sua própria vontade, ele os usa e abusa até reduzir os outros indivíduos à escravidão e a um grau extremo de envilecimento. Foi o que aconteceu e acontecerá sempre com os governantes.”
Trecho de Errico Malatesta em ‘O Estado Socialista’

CUBA-CASTRO-RESIGNATION

Há dias muita discussão tem sido feita sobre a morte de Fidel. Parece que com ele o socialismo do estilo século XX foi morto. Até mesmo a Nova Esquerda prestou sua homenagem ao ditador, adotaram até mesmo o discurso do “fim justificam os mesmos”. Mas aí que quero chegar, que fim?

Ao contrário do que nós anarquistas fomos todos estes dias acusados, não queremos fazer coro com a direita. Mas também não vamos fingir que concordávamos com o regime de Cuba, as perseguições, exílios e execuções feitas por socialistas que não concordavam com o regime cubano, incluindo socialistas libertários, ou seja, nós anarquistas.

Apesar das discordâncias óbvias sobre as propostas e práticas, a Revolução de Cubana pode ter tido um papel importante na história, isto de certa forma é um fato. Mas agir como a esquerda age, de forma fundamentalista e dicotômica, negando o quanto que o povo cubano sofreu nestes anos, em prol de deificar um ídolo, é irresponsabilidade e infantilidade.

Mas convenhamos, estes comportamentos não são novidade para os socialistas autoritários. Afinal, defender a necessidade de uma ditadura; relativizar fracassos; justificar violações aos direitos humanos; apelo para militância armada; atribuir o papel de um salvador a um grupo ou indivíduo; acreditar em dados facilmente forjados que alegam que a sociedade é melhor neste modelo do que em outro; dicotomia ideológica a ponto de se achar melhor e mais correto que seus opositores; determinar prisões, exílios e execuções a indivíduos que se oponham aos seus ideais só confirmamos que marxistas e fascistas têm mais em comum do que imaginam.

É verdade que a ditadura cubana, assim como das demais ditaduras socialistas foram introduzidas de forma diferente das ditaduras daqui da América Latina, juntamente com as europeias nazistas e fascistas. De fato foram diferentes, nas ditaduras daqui houve uma aclamação popular pela moral, o qual abriu as portas para as Forças Armadas aplicarem o golpe militar, seguido por uma ditadura. Já em Cuba, grupos de guerrilhas civis travaram uma guerra contra uma já estabelecida ditadura e tomaram o poder, implantando outra.

Mas será que houve libertação do povo cubano? Discordo sobre a questão da libertação. Pois esta não houve, apenas trocaram os ditadores. Alguns podem dizer que Fulgêncio era pior do que Fidel, mas eu não opto pelo menos pior, ainda mais para mencionar a palavra “libertação”, já que este conceito não pode ser fracionado.

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Material gráfico nas ruas de Cuba, o qual mostra Raúl Castro e Barack Obama, com as respectivas bandeiras de Cuba e EUA, apresentando uma união.

E toda a conclusão se resume com o fim da história, que ainda não fora escrito, mas podemos ver alguns detalhes e supor o que ocorrerá a partir de então. Pois a pauta da esquerda sobre o assunto sempre foi ao estilo de que o “fim justifica os meios”, ou seja, no fim, Fidel iria cumprir o princípio comunista proposto na revolução. Porém não foi isso que ocorreu. Depois de cinco décadas de ditadura, as negociações com os EUA estão sendo retomadas, e agora com Cuba está se curvando novamente ao Imperialismo Yankee, e nada de comunismo. Muito pelo contrário, o povo cubano está sedento por consumir o capitalismo.

Cabe agora os anarquistas cubanos se posicionarem, como já se posicionaram nos anos anteriores, condenando os desmandos do governo castrista, como também a introdução do capitalismo yankee na ilha, inclusive incentivado agora pelo governo dito socialista.