Dilemas da Autoridade: questões levantadas sobre Romanos 13 e 1 Pedro 2

Publicado: 15 de agosto de 2016 por Plínio em Anarquismo, Cristianismo, Política
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“Eles fizeram reis, mas não por mim; constituíram príncipes, mas eu não o soube; da sua prata e do seu ouro fizeram ídolos para si, para serem destruídos.
Oséias 8:4

nero autoridade cristãos

Vamos agora avaliar sobre o respaldo que as instituições religiosas declaram sobre a submissão às autoridades humanas. É comum vermos discursos religiosos, sobre que o homem deve se submeter aos governantes e que todo governo é estabelecido por Deus, e ainda é para o bem de todos, e serve para punir o mal.

Deixo claro aqui que não creio que um pescador como Pedro, homem simples, analfabeto, compreenda de fato as ciências sociais a ponto de desmembrar como se forma o poder, e como funcionava os mecanismo políticos de Roma. Já Paulo, que era mais instruído poderia até compreender estes fatores, até porque ele era cidadão romano, e claramente mostrava conhecer seus direitos, então há grande possibilidade de entender mais de política que os demais discípulos.

Também fica difícil compreender como cristãos, tão martirizados tanto pelos judeus quanto pelos romanos, onde homens bons e tementes a Deus eram torturados e mortos só por serem cristãos, acreditem que os governos representam a vontade de Deus e punem apenas quem é mal. Até mesmo Paulo, um dos responsáveis da morte de Estevão, homem íntegro segundo a Palavra, acreditasse de fato isso. Vale lembrar Paulo viveu ainda no governo do Imperador Nero, César conhecido por martirizar cristão, que possivelmente tenha ordenado a execução do apóstolo.

Apesar disso o teólogo Vernard Eller em ‘Anarquia Cristã’ atribui a esta descrição de Paulo que quando ele escreveu Romanos, provavelmente entre os anos 47 a 57 d.C., eram anos um tanto pacíficos quanto a perseguição contra os cristãos:

“Penso agora em usar o livro do Apocalipse como uma representação do entendimento da igreja primitiva sobre a Anarquia Cristã e como meio de documentar os cinco pontos acima. Ainda que, com certeza, muitas pessoas possam pensar que esse livro que mostra uma grande batalha de arquias, seria o último lugar que alguém esperaria encontrar qualquer vestígio de anarquismo. Talvez então a melhor maneira de fazer essa transição é encontrar a raiz do problema, abordando a comparação entre Romanos 13 e Apocalipse 13, que normalmente se encontra na literatura da esquerda cristã.

A comparação que mais freqüente é feita para estabelecer a natureza contextual da relação cristã com o Estado: quando um Estado é bem comportado, então cristãos devem respeitar, obedecer e honrá-lo; quando um Estado é mau, os cristãos então tem a obrigação de denunciar, resistir e tentar a revolução. A resposta cristã ao governo depende de como este se comporta no momento.

Deste ponto de vista, Romanos 13 é extremamente legitimador. A explicação é que, no momento em que Paulo escreve, o Império Romano estava em uma de suas fases mais benevolentes, tornando natural que o apóstolo dissesse aos cristãos romanos que estes deveriam obedecer às autoridades, pagar seus impostos e tudo mais. Apocalipse 13,então, é visto como o caso oposto. Aqui o Império é pintado como a Besta do Abismo –o que é tomado como indicativo de que, no tempo que o profeta escreveu, o comportamento do império era bem diferente dos dias de Paulo. Vou deixar a cargo do leitor pensar se seria em Romanos 13 ou em Apocalipse 13 que esses intérpretes encaixariam o atual governos dos EUA.”

Eller, na mesma obra, explora que os zelotes eram um grupo político que faziam oposição ao Império Romano, e que Jesus não apoiara eles, não pelo motivo, mas sim pelo método aplicado, o que explica um pouco sobre o posicionamento dos seus dicípulos:

“Começando mal, o zelotismo inevitavelmente piora. Nós o definimos como “zelo moral por uma causa sagrada” – mas isso foi para colocar a questão de uma maneira mais caridosa possível. Com alguma regularidade, o zelotismo começa a se tornar mais fortemente um “zelo moral contra causas profanas”. Embora que os Zelotes do século I afirmassem (sem dúvida com honestidade suficiente) que a sua motivação era a libertação dos pobres, a sua especialidade tornou-se furar as costelas dos ricos (por esse contexto que eles se tornaram conhecidos como os “homens do punhal”). Fiéis à forma, os zelotes contemporâneos se mostram muito mais eficientes em denunciar aqueles os quais eles escolhem chamar de entusiastas da guerra, do que eles se tornarem pacíficos.

Agora, pode ser pensado que esses dois – amando o bem e odiando o mal – vêm na mesma direção, que eles são simplesmente dois lados da mesma moeda, mas não é assim. Jesus nos mostrou que não são – mostrando ao mesmo tempo que Ele não era um Zelote. Ele amou o pobre – mas fez isso sem odiar o rico. Ele amou ao pobre, de fato, enquanto demonstrava amor diante de diferentes pessoas ricas ao mesmo tempo. Na verdade, em seu livro Dinheiro e Poder, Ellul bem argumenta que Jesus nem mesmo desenhou a distinção bom-pobre/mau-rico nos mesmos termos simplistas que nós fazemos. Nada disso, é claro, é negar que Jesus reconheceu uma importante, porém relativa, distinção entre pobres e ricos. Como Ele conduziu isso? Ele conduziu ao manter os alinhamentos relativos anarquicamente relativos, recusando-Se a torná-los absolutos. É somente essa certeza absoluta, de absoluta certeza que pode se dar ao luxo de sair depois daqueles que sabem estar absolutamente errados.”

William Barclay em ‘Romanos’, chegam a uma conclusão semelhante a Eller:

“Além disso, havia os zelotes, que estavam convencidos de que não existia outro rei para os judeus a não ser Deus; e que não devia pagar-se tributo algum, a não ser a Deus. Eles não se conformavam com uma resistência passiva. Criam que Deus não os ajudaria se não se embarcavam em uma ação violenta para proteger-se a si mesmos. Estavam juramentados e empenhados em uma carreira de morte e assassinatos. Seu propósito era fazer impossível todo governo civil. Eram conhecidos como “os portadores de adagas”. Eram nacionalistas fanáticos entregues aos métodos terroristas. Não só utilizavam esse terrorismo para com o governo romano, também destruíam as casas e queimavam o grão, assassinando as famílias de seus próprios compatriotas judeus que pagavam tributo ao governo romano.

Paulo não via que isto tivesse propósito algum. Era, com efeito, a negação direta de toda conduta cristã. E contudo, ao menos em uma parte da nação judaica, era a conduta normal judaica. Poderia ser que Paulo tivesse escrito aqui tão categoricamente, porque desejasse dissociar ao cristianismo do judaísmo insurrecional, e deixar claro que o cristianismo e a boa cidadania iam necessariamente de mãos dadas.”

Outro fator relevante é olharmos para governos que temos consciência que foram regimes cruéis, fica impossível aplicar textos domo Romanos 13 e 1 Pedro 2 que estes regimes são determinados por Deus, para punir homens que praticam o mal, e que os bons não devem se preocupar. Podemos citar Hitler, Stalin, Vlad Tepes, Mao Tse Tung, Genghis Khan e Kublai Khan. Nem se dão conta nem que o nascimento do Messias, foi regado de sangue inocente. O que estas crianças fizeram de tão mal para sucumbir pela mão de Herodes? Aliás, o próprios Jesus fora martirizado, seria ele alguém que praticava o mal?

Creio que já passou da hora de aceitarem estes argumentos rasos em favor de tiranos que querem manter a todos calados e conformados.
Vamos continuar com o nosso estudo de caso sobre a questão da autoridade. Temos a Coreia do Norte, um governo extremamente opressor, inclusive perseguindo cristãos. Vamos fazer o exercício se faz sentido aplicar este governo no contexto de Romanos 13:

“Todos devem sujeitar-se a Dinastia Kim, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas. Portanto, aquele que se rebela contra Dinastia Kim está se opondo contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos. Pois a Dinastia Kim não devem ser temida, a não ser por aqueles que praticam o mal.

Você quer viver livre do medo da Dinastia Kim? Pratique o bem, e ela o enaltecerá. Pois são de Deus para o seu bem. Mas, se você praticar o mal, tenha medo, pois eles não portam a espada sem motivo. São servos de Deus, agentes da justiça para punir quem pratica o mal.

Portanto, é necessário que sejamos submissos a Dinastia Kim, não apenas por causa da possibilidade de uma punição, mas também por questão de consciência. É por isso também que vocês pagam imposto, pois eles estão a serviço de Deus, sempre dedicadas a esse trabalho. Deem a cada um deles o que lhe é devido: se imposto, imposto; se tributo, tributo; se temor, temor; se honra, honra.”

E o que dizer de 1 Pedro 2?

“Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana por amor do Senhor; quer ao Imperador Kim, como superior;
Quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem.
Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo bem, tapeis a boca à ignorância dos homens insensatos;
Como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus.
Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai ao Imperador Kim.”

Na sequência do texto em 1 Pedro 2, como também em outros textos como Tito 3:1-3 e 1 Timóteo 2:1-3, vemos que não se trata de uma forma simplista de alegar que toda autoridade que é constituída por Deus para bem dos homens. Mas sim como um clamor para que os cristãos se portem de forma pacífica diante governos. Vale lembrar que os romanos possuíam um poderio militar muito mais poderoso que os judeus. E que o ocorrido com os judeus com o episódio recente dos rebeldes macabeus contra os gregos, estava recente na mente dos judeus na época. Apesar dos zelotes fazerem semelhante, o resultado de seus levantes culminou na Primeira Guerra judaico-romana, com destruição do Segundo Templo Jerusalém, e mais martírio do povo judeus. Então é natural que os cristãos tenham tomado um papel pacífico quanto a se rebelar com o governos. Mas pacifismo não é o mesmo que passividade.

Então o que quero dizer é que a vontade de Deus se trata mais da vontade permissiva, do que a vontade de eleger o rei. Em Oséias 8:4 temos um caso que Deus declara que não elegeu os reis, mas sim os homens. Outro caso bem esclarecedor, é em 1 Samuel 8, que o povo queria eleger um rei, e ser como as outras nações. Deus se mostrou contrário a ideia, alertou sobre os perigos em ter governantes, mas permitiu que o povo se organizasse como queria, pois Ele não interferiria.

A realidade é que desde que Roma declarou que o cristianismo é a religião oficial do Império, foi muito conveniente discursos do tipo para atrelar cada vez mais a religião e o governo. Brennan Lester escreveu a respeito, apontando diversos motivos que levaram a esta interpretação de tais textos como temos hoje, principalmente o de Romanos. Um dos mais fortes pontos usados por Lester é que Romanos dos capítulos 12 ao 15 se trata de um único contexto e não deve ser interpretado individualmente. E que em Romanos 12, assim como em 1 Pedro 2, os textos indicam para que o cristão deve se sacrificar pelo próximo, inclusive nos dois textos, eles citam a possibilidade dos cristãos serem perseguidos ou martirizados. Em Romanos 12 também cita que não devemos nos conformar com este mundo, onde a palavra “mundo” (αιωνι) tem a conotação de “presente século” ou até de “sistema de governo”. O mesmo governo relatado em Efésios 1:20-21. Assim como também o mesmo governo em que Jesus, em João 12:31, determina que será julgado e atribui ao inimigo, que é chamado de príncipe ou governante.

Lester também resgata os termos em original, e trabalha possíveis interpretações para o texto em Romanos 13. Com o que seria “ordenado” ou “estabelecido”, na verdade se trata de “colocar em ordem” ou “estabelecer”, no particípio passivo. Dando um sentido que Deus não estabelece os governante, mas sim que eles com coordena, permanecendo no controle, com um propósito final para cada um deles, independente se são bons ou ruins.

Vale ressaltar que em Romanos 8:38-39, Paulo foi categórico em dizer que Jesus despojou e os expôs ao desprezo. Assim compreendemos que a submissão passiva ao Estado, disseminada pelas instituições religiosas ligadas a ele, não condiz com que fora ensinado. Mostra que os textos assim interpretados, fogem, primeiramente da Palavra, também da realidade vivida pelos discípulos na época, assim como também do que sabemos de historicamente governantes maus.

Assim tomamos a ideia que tais autoridades podem ser espirituais, como muitas vezes reforçadas no Novo Testamento, e como também apontada pelo teólogo Jacques Ellul em ‘Anarquia e Cristianismo’:

“Chegamos agora ao ponto final. Não poderia fechar essas reflexões dessa passagem, que infelizmente deu uma guinada errada à igreja e ao cristianismo após o século III, sem relembrar um estudo de trinta anos atrás. A palavra usada nessa linha de pensamento era o grego exousiai, que podia significar autoridades públicas, mas que também no Novo Testamento tinha outro significado, sendo usada para poderes abstratos, espirituais, religiosos. Embora Paulo nos diga para lutar contra os exousiai celestes (cf. Efésios 6:12). É pensado, por exemplo, que os anjos são exousiai. Oscar Cullmann e Gunther Dehn concluem que, desde que a mesma palavra é usada ali, deve haver alguma relação. Em outras palavras, o Novo Testamento nos leva a supor que o poder terreno e autoridades militares têm sua base na aliança com poderes espirituais, que não chamarei de celestiais, pois podem ser igualmente más e demoníacas. A existência desses exousiai espirituais explicaria a universalidade dos poderes políticos e o fato assombroso de as pessoas os obedecerem como se fossem evidentes. Essas autoridades espirituais poderiam então inspirar governantes.

Essas autoridades poderiam ser boas ou más, angelicais ou demoníacas. Autoridades terrenas refletem os poderes daqueles cujas mãos elas caíram. Podemos então ver porque Paulo em Romanos 13 refere-se às autoridades que atualmente “existem” como sendo instituídas por Deus e também o porque alguns teólogos protestantes diziam depois de 1933 que o governo de Hitler era “demonizado”, que tinha caído nas mãos de um poder demoníaco. Se digo isso, não é simplesmente porque quero dizer que a atitude da primeira geração cristã não foi unânime, que juntamente com a linha principal, conforme a qual o Estado deveria ser destruído, havia uma linha mais matizada (embora nenhuma exigisse obediência incondicional). O ponto principal para mim é quando Paulo em Colossenses 2:13-15 diz que Jesus venceu o mau e a morte, e também diz que Cristo “despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo”. No pensamento cristão, a crucificação de Cristo é a Sua verdadeira vitória sobre todos os poderes, tanto celestes quanto infernais (não estou dizendo que existem, mas expressando a convicção diária), pois somente Ele foi perfeitamente obediente à vontade de Deus, inclusive aceitando o escândalo de sua própria condenação e execução (sem entender totalmente isso: “Deus meu, por que me abandonaste?”) Embora Ele tivesse dúvidas sobre sua interpretação e missão, Ele não tinha dúvidas sobre a vontade de Deus e obedeceu perfeitamente.”

Então assim concluímos nossa reflexão sobre o contexto de autoridade relatada na bíblia. Que para o cristão, além dos reinos humanos, haviam um governo celeste, o que Eller atribuía como ‘anarquia de Deus’, que agia contra as ‘arquias’ dos homens. Mas que o cristão deve manter o papel pacífico, não-violento, mesmo quando se opõe as injustiças do Estado. Porém que o espírito profético deve se opor aos governos déspotas, assim como João Batista fez com Herodes, e assim como Jesus e os discípulos fizeram.

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